O despertador tocou às seis.
Anya já estava acordada. Na verdade, não tinha dormido mais que alguns minutos.
O rosto latejava e o braço parecia ter sido esmagado por um ferro, mas ela se levantou devagar mesmo assim. Precisava ir. Sempre precisava ir.
No banheiro, abriu a torneira e deixou a água escorrer gelada, enquanto se olhava no espelho com cuidado. Um corte pequeno no canto da boca, a bochecha esquerda inchada, um roxo novo no pescoço.
Suspirou fundo e estendeu a mão até a nécessaire.
Corretivo, pó, um pouco de blush, um batom mais escuro para disfarçar a boca ferida. Não ficava perfeito — nunca ficava — mas já aprendera a fazer o suficiente para enganar os clientes e os vizinhos.
Na cozinha, fez um chá rápido, pegou um pedaço de pão velho e saiu sem fazer barulho. Não queria vê-lo. Não queria ouvir mais nenhuma palavra dele hoje.
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A confeitaria já exalava cheiro de manteiga e açúcar quando ela chegou. O calor do forno e o burburinho de vozes já enchia o pequeno salão.
Katya estava atrás do balcão, animada como sempre, quando a viu entrando pela porta.
— Anya! — chamou, acenando com as mãos engorduradas de glacê. — Bom dia, flor!
— Bom dia… — respondeu Anya, forçando um sorriso.
Katya correu até ela, ajeitando a faixa do avental da amiga.
— Mas você tá… bem? — murmurou, baixinho, inclinando-se para olhar o rosto dela.
Os olhos atentos de Katya sempre percebiam.
— Eu estou, sim — disse Anya rapidamente, desviando o olhar. — Só cansada, só isso.
Katya franziu o cenho, mas não insistiu. Pegou a bandeja de éclairs e entregou para Anya.
— Tudo bem, então. Mas me promete que qualquer coisa… você me conta? — perguntou, erguendo as sobrancelhas.
Anya assentiu, segurando a bandeja com cuidado.
— Prometo.
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O movimento do dia foi grande. Entre clientes apressados pedindo café para viagem e crianças apontando para doces coloridos na vitrine, Anya conseguiu se perder um pouco no ritmo confortável da confeitaria.
Ela ajudava Katya a organizar as caixas de biscoitos, sorria para as senhoras que elogiavam as tortas, limpava as mesas com movimentos delicados, como se nada mais existisse além dali.
Em um intervalo rápido, Katya encostou-se ao balcão com duas xícaras de chá.
— Aqui — disse, entregando uma para Anya. — Vai te aquecer. E… pra falar a verdade, acho que você é a única razão dessa confeitaria não afundar. Você trabalha que nem formiguinha.
Anya riu, de leve.
— Eu gosto daqui… — admitiu, soprando o vapor da xícara. — É tranquilo. Cheira bem. As pessoas são gentis.
— É, exceto por mim, que vivo mandando você arrumar a vitrine — brincou Katya, arrancando outra risada da amiga.
Por um instante, Anya sentiu-se quase feliz. Quase.
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Quando a noite caiu e as últimas luzes da confeitaria foram apagadas, Katya a acompanhou até a porta, como sempre.
— Amanhã tem mais. E se você se sentir m*l… ou qualquer coisa… me liga. Eu posso te buscar, te ajudar, o que for.
Anya sorriu, emocionada.
— Obrigada… você sempre cuida de mim — disse baixinho.
Katya piscou, afetuosa.
— Alguém tem que cuidar, né? Agora vai pra casa e descansa. Amanhã vou te ensinar a decorar um bolo de casamento. Quero ver se você consegue me superar nisso também.
As duas riram, e Anya caminhou pela neve com o coração um pouquinho menos pesado.
Pelo menos ali, na confeitaria, ela ainda conseguia se sentir como uma pessoa.
Pelo menos ali, ninguém a machucava.
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O caminho de volta para casa era sempre o mais longo.
Não importava quantos passos dava, nem que as ruas estivessem desertas ou que a neve caísse tão densa que gelava os ossos. Ela sempre sentia como se estivesse caminhando para a boca de um lobo.
Quando chegou, a casa estava escura. Só a luz fraca da cozinha iluminava um pouco a entrada.
Ele não estava lá.
Um alívio curto percorreu seu peito. Talvez ele ainda estivesse na boate, talvez tivesse bebido demais e ficado por lá.
Talvez aquela noite fosse tranquila.
Ela trancou a porta devagar, pendurou o casaco e foi direto para o quarto, fechando a porta atrás de si.
Tomou um banho rápido, vestiu o pijama de algodão e deitou-se, tentando não pensar em nada.
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O som da chave girando na fechadura veio pouco depois das três da manhã.
Anya já esperava. Já contava cada minuto.
Os passos pesados cruzaram o corredor, ecoando.
A porta do quarto dele se abriu e se fechou.
Por alguns segundos, tudo ficou quieto.
Depois vieram as batidas — fortes, impacientes — na porta do quarto dela.
— Anya. — a voz arrastada, rouca de álcool. — Abre essa porcaria.
Ela se levantou devagar, tentando respirar fundo, tentando manter a calma.
Girou a maçaneta e abriu só um pouco.
Ele já empurrou a porta com força, entrando.
— Você tá dormindo, é? — perguntou, um sorriso irônico nos lábios. — Dormindo enquanto eu ralo pra manter essa casa, enquanto eu me mato trabalhando naquela maldita mansão?
— Eu… só… — começou, mas a mão dele já se fechava em seu braço.
— Você me olha assim por quê? Hein? Tá pensando o quê de mim? — os dedos dele apertavam mais forte. — Acha que sou um monstro, é isso?
— Eu não acho nada… — tentou dizer, mas a voz saía fraca.
— Não mente pra mim. — Ele a empurrou contra a parede, a mão livre já alcançando a arma presa no cinto, apenas para intimidá-la. — Se você me desrespeitar de novo, eu juro que…
O resto da frase se perdeu quando ele a soltou, ofegante, e saiu do quarto cambaleando, murmurando palavrões.
Anya deslizou pela parede até o chão, as lágrimas finalmente escapando.
Ficou ali, abraçada a si mesma, até os sons de passos se perderem e a porta dele se fechar de novo.
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Na manhã seguinte, a cozinha já estava cheirando a café quando ela acordou.
O tio já estava sentado à mesa, de terno, lendo o jornal como se nada tivesse acontecido.
Quando a viu entrar, ergueu os olhos, e um sorriso falso surgiu no rosto.
— Bom dia, minha menina. Dormiu bem?
Anya engoliu em seco.
— Dormi, sim. — mentiu.
Ele se levantou, pegou a arma e a prendeu à cintura antes de sair.
— Tenha um bom dia na confeitaria. Não me faça passar vergonha, entendeu? — disse, como se fosse apenas um conselho paternal.
Ela apenas assentiu, sem ter forças para dizer nada.
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Na confeitaria, Katya a esperava como sempre, com um avental novo e uma caixa de biscoitos quentinhos.
— Bom dia, dorminhoca. — disse, piscando. — Tá com uma cara péssima, mas ainda assim é a menina mais bonita daqui.
Anya sorriu, cansada, mas genuinamente agradecida.
— Bom dia… eu trouxe umas flores para a vitrine. Achei que ficaria bonito.
Katya a abraçou rápido, pegando as flores.
— Você é um anjo, sabia? Vai deixar essa confeitaria mais linda ainda.
E por algumas horas, pelo menos, entre o cheiro de açúcar e as piadas de Katya, Anya quase conseguiu esquecer da noite anterior.
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