capítulo 9

834 Words
Os dias seguintes mudaram completamente o ritmo da casa. Não era mais silêncio vazio. Era rotina.Presença.Cuidado. Téo acordava antes. Preparava o café. Separava as vitaminas dela. Verificava tudo como se fosse algo natural, quase instintivo. Laura, aos poucos, começava a melhorar. A fraqueza diminuía. A cor voltava ao rosto. E, principalmente… O medo também ia embora. Naquela manhã, ela estava sentada na cama, ainda de pijama, quando ele entrou com a bandeja. — Bom dia — ele disse, simples. — Bom dia… Ela sorriu. Pequeno. Mas sincero. Ele colocou a bandeja ao lado dela. — Come. — Você tá me tratando como se eu fosse um cristal — ela brincou. Ele cruzou os braços, sério. — E você é. Ela riu baixo. E começou a comer. O silêncio entre eles já não era desconfortável. Era confortável. Natural. Depois de um tempo, ela o observou. Ele arrumando as coisas no quarto, atento a tudo. — Você é tão lindo… ela soltou, sem pensar muito. Ele parou por um segundo. Olhou pra ela. — Eu? — Sim… ela sorriu — E tão preocupado também. Ele se aproximou devagar. Sentou ao lado dela na cama. — Você também mudou tudo aqui — ele disse, mais baixo. Ela inclinou a cabeça. — Eu? Ele levou a mão até a dela. Entrelaçou os dedos. — Você é tudo o que faltava pra completar a minha vida. O coração dela apertou. Forte. Ela ficou em silêncio por alguns segundos. Processando. Sentindo. — Téo… ela murmurou. Mas ele não deixou ela se afastar emocionalmente. Apenas apertou a mão dela com mais firmeza. — Eu tô falando sério. A voz dele era calma. Mas cheia de verdade. Laura respirou fundo… e sorriu. Diferente de antes. Sem medo. — Eu acho que eu tô começando a acreditar nisso… Ele sorriu de volta. Leve.Real. E encostou a testa na dela por um instante. E naquele momento… Não era mais contrato.Não era mais obrigação. Era começo.De algo que nenhum dos dois planejou… Mas ambos já sentiam. O tempo tinha passado. Seis meses. A barriga de Laura já estava visível, redondinha, marcando uma fase nova… mais sensível, mais exigente, mas também mais estável. Ela já andava pela casa com mais segurança, e Téo continuava do mesmo jeito: atento, protetor, sempre observando tudo. Mas naquele dia… Algo mudou. A discussão tinha sido leve no começo. Uma diferença de opinião qualquer, dessas pequenas coisas do dia a dia. Mas o clima ficou estranho. E, num momento de tensão, Laura virou de costas. Só isso.Virou. Foi quando sentiu. Um movimento atrás dela. A mão dele indo em direção ao ombro dela. O corpo de Laura reagiu antes da mente. Ela travou.Tremeu. E se encolheu imediatamente contra a parede, como se estivesse tentando desaparecer. — Não… não, por favor… a voz dela saiu quebrada, quase sem som. Os olhos cheios d’água. O corpo inteiro em alerta. Téo parou na hora. Imediatamente. As mãos dele ficaram imóveis no ar. — Ei… ei, não… ele falou rápido, mas baixo — Eu não vou te machucar. Para… olha pra mim. Mas ela não conseguia. Não respirava direito.Só chorava. Ele recuou um passo. Depois outro. Dando espaço. — Laura… conversa comigo… o que foi? Silêncio. Ela tentou falar, mas a voz não saía direito. Até que, com dificuldade, conseguiu: — A marca… Ele franziu a testa. — Que marca? Ela levou a mão tremendo até as próprias costas. — Uma vez… eu briguei com meu ex… A voz dela falhava. — Eu virei de costas… Ela engoliu seco. — E ele… pegou um cigarro e me queimou. O ar pareceu ficar mais pesado no quarto. — Ele disse… ela respirou fundo, chorando — que era pra eu nunca mais virar as costas pra ninguém… Ela olhou pra ele, assustada, quebrada. — Eu virei as costas pra você… e quando você tocou meu ombro… eu pensei que você ia me machucar como ele. Silêncio.Profundo. Téo ficou parado. Sem reação imediata. Não de choque apenas… Mas de algo mais pesado. Raiva.Contida. Ele respirou fundo. Uma vez.Duas. E então, lentamente, se abaixou um pouco… ficando na altura dela. Mas sem tocar. Sem invadir. — Laura… a voz dele saiu mais baixa, firme — olha pra mim. Ela hesitou. Mas olhou. — Eu não sou ele. Cada palavra foi dita com cuidado. — Eu nunca vou ser ele. Os olhos dela ainda estavam cheios de medo. Ele continuou, mais calmo: — Eu nunca vou te machucar. Nunca. Pausa. — E você não precisa ter medo de mim. Ela respirou com dificuldade. Ainda tremendo. Téo não tentou encostar nela. Só ficou ali. Presente.Estável. — Eu não sabia disso… ele murmurou. A mandíbula travada. — Mas agora eu sei. Ele respirou fundo. — E ninguém nunca mais encosta em você assim. Dessa vez não era ameaça. Era promessa.E aos poucos… O corpo dela começou a baixar a guarda. Não porque o medo sumiu… Mas porque, pela primeira vez… Ela estava diante de alguém que não a fazia repetir o passado.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD