Ele a puxou devagar para um abraço.
Sem pressa.Sem pressão.
Só… presença.
E ela, aos poucos, foi cedendo.
O corpo ainda tremendo, mas encostando nele como se finalmente pudesse respirar.
— O que mais te machucou? ele perguntou baixo, depois de um tempo.
A voz dele não tinha cobrança.
Só cuidado.
Laura ficou alguns segundos em silêncio.
E então, com a voz falha, começou:
— Ele…
Ela engoliu seco.
— Ele já me batia… me humilhava… me fazia sentir pequena o tempo todo.
Téo ficou imóvel, ouvindo.
— No começo… ele era diferente ela continuou — depois foi mudando…
As mãos dela apertaram a camisa dele sem perceber.
— Eu fiquei com ele por dois anos.
Ela respirou fundo, tentando organizar as palavras.
— Eu não tinha pra onde ir… não tinha dinheiro… nem como pegar minhas coisas.
A voz dela quebrou um pouco.
— Quando eu descobri a gravidez, eu contei pra ele…
Ela fechou os olhos.
— Ele disse que não queria aquilo… que não era problema dele…
Silêncio pesado.
— Depois ele jogou minhas roupas na rua… e trancou a porta.
Uma lágrima caiu.
— Eu só consegui pegar uma bolsa… e fui embora.
Ela abriu os olhos devagar.
— Foi no dia que eu esbarrei em você correndo…
Ela respirou fundo.
— Eu já tinha alugado um lugar pequeno… tinha algumas roupas… mas eu tava perdida.
Téo apertou o abraço com mais firmeza.
Mas ainda com cuidado.
— No dia seguinte eu entrei naquele site… ela continuou — e depois… te conheci.
A voz dela ficou mais baixa.
— Eu tava com medo de tudo…
Ela olhou pra ele.
— Mas você foi tão calmo… paciente… diferente de tudo que eu já vivi…
Um pequeno soluço escapou.
— E mesmo assim… eu tenho medo, Téo.
Ele ergueu o olhar pra ela.
Atento.
— Medo de isso tudo acabar como um conto de fadas que não é pra mim.
Ela engoliu seco.
— Medo de você olhar pra minha vida… pra essa bagunça… e decidir ir embora.
O silêncio ficou entre eles.
Mas não era vazio.
Era cheio de verdade.
Ela limpou o rosto devagar.
— Eu nem contei pros meus pais ainda… não queria preocupá-los…
Téo ficou alguns segundos em silêncio.
Só segurando ela.Só presente.
E então falou, baixo: Você não tá sozinha nisso.
Ela fechou os olhos de novo.
Ele continuou:E isso aqui não é um conto de fadas.
Pausa.
— É real.
Ele afastou um pouco só pra olhar nos olhos dela.
— E eu não vou embora quando ficar difícil.
A mão dele foi até o rosto dela, com cuidado.
— Eu fico.
E, pela primeira vez…
Laura não respondeu com medo.
Só encostou de novo nele.
Como se estivesse tentando acreditar.
De verdade.
Os dias se passaram.
Téo estava no hospital, mergulhado no trabalho como sempre.
Laura tinha ficado em casa, em repouso, como ele havia pedido.
Ou melhor… como ele havia mandado.
Naquela manhã, a casa estava silenciosa.
Até que a porta abriu.
A empregada atendeu.
— Bom dia…
Uma mulher entrou sem esperar convite.
Postura firme. Olhar frio.
— Meu filho está?
— Não, senhora… ele está no hospital.
Ela assentiu devagar.
— E quem está aqui?
A funcionária hesitou.
— A namorada dele… ela está no quarto, descansando.
A expressão da mulher mudou imediatamente.
— Namorada?
Sem esperar resposta, ela subiu as escadas.
Abriu a porta do quarto sem bater.
E encontrou Laura dormindo.
Pálida.Grávida.Vulnerável.
— Ah… então é você — a mulher disse, seca.
Laura despertou assustada.
Sentou na cama de imediato, instintivamente protegendo a barriga.
— Senhora…? Quem é a senhora?
— Sou a mãe do Téo.
Um silêncio pesado caiu no quarto.
— Engraçado… a mulher cruzou os braços — não me lembro dele mencionar uma “namorada”.
Laura engoliu seco.
— Ele não está aqui agora…
— Ótimo. Então podemos conversar.
Ela deu um passo à frente.
— Levanta.
— O quê?
— Eu disse levanta.
Laura hesitou.
— Senhora… eu estou de repouso. Minha gravidez é de risco, eu não posso fazer esforço
— Eu não perguntei.
A voz cortou.
— Levanta e me mostra se você serve pra alguma coisa.
Laura ficou parada por um segundo.
Mas o medo… a pressão… a confusão…
Fizeram ela obedecer.
Levantou devagar.
— Quero ver como você cuida dessa casa.
E assim começou.
Horas passaram.
Laura limpava.
Lava.Organizava.
Mesmo fraca.Mesmo enjoada.
Mesmo com o corpo pedindo pausa.
— Senta não — a mulher dizia, observando — continua.
— Senhora… eu realmente não estou me sentindo bem…
— Não me interessa.
Em certo momento, a visão dela escureceu um pouco.
A mão foi até a parede.
— Eu preciso sentar… por favor…
— Não vai sentar.
E ela continuou.
Com os olhos cheios de lágrimas.
A mão na barriga várias vezes, tentando se manter firme.
Quando terminou tudo, já era noite.
— Agora pode ir pro quarto.
— Senhora… por favor… não conte nada pra ele…
— Relaxa. Eu sei muito bem o que fazer.
Laura subiu.
E desabou na cama.
Chorando baixo.
Exausta.
Horas depois…Téo chegou.
— Mãe?
Ela estava na sala.
— Vim te ver, mas você vive naquele hospital…
— Eu trabalho, mãe.
— E conheceu a “nora”…
Ele parou.
— Conheceu?
— Conheci.
Ela sorriu de lado.
— Uma menina interessante.
Pausa.
— Só esse bebê que ela tá esperando… não é seu, né?
O olhar dele mudou na hora.
— É meu.
Silêncio.
— Então por que você não falou nada pra mim?
— Porque eu não tenho que expor minha vida toda, mãe.
Ela franziu o rosto.
— Olha como você fala comigo.
— Eu estou sendo direto.
Ele respirou fundo.
— Espero que a senhora tenha tratado ela bem.
A mulher sustentou o olhar.
— Tratei do jeito que ela merece.
Ele não respondeu mais nada.
Só subiu.
No quarto…
Laura estava deitada, exausta.
Olhos inchados.Respiração pesada.
Ele sentou ao lado dela na cama.
— Boa noite, princesa…
Ela abriu os olhos devagar.
— Tô sentindo dor…
O olhar dele mudou na hora.
— Onde?
— Nas costas… na barriga…
Ele levantou imediatamente.
— Você comeu hoje?
Ela hesitou.
— Não… tive pouca fome.
(Ela não contou o resto.)
— Laura…
Ele já estava sério.
— Você não pode ficar assim.
Ele saiu e voltou pouco depois com comida.
Sentou ao lado dela.
— Come.
Ela comeu devagar, sem força.
Ele observando cada detalhe.
— Amanhã você não faz nada — ele disse firme.
— Você não tem folga…
— Agora tem.
Ela soltou um suspiro cansado.
Sabia.
No dia seguinte…
Ela teria que enfrentar de novo tudo aquilo.
Mas dessa vez…
Não mais sozinha.