Na noite seguinte…
Laura m*l havia conseguido descansar.
O corpo ainda fraco.
A gravidez exigindo mais dela a cada dia.
E a presença da mãe de Téo na casa parecia pesar ainda mais o ar.
Quando a mulher entrou no quarto, Laura já estava acordada.
— Acorda.
A voz veio seca.
Laura tentou se sentar devagar.
— Senhora… eu tô sentindo dor…
— Não posso fazer nada com isso.
Laura respirou com dificuldade.
— Por favor… eu preciso descansar…
— Tem certeza que você sabe fazer alguma coisa além de reclamar?
Laura baixou o olhar.
A funcionária que estava por perto hesitou.
— Senhora… ela não tá bem mesmo…
— Não pedi sua opinião.
O silêncio ficou pesado.
Laura encostou na parede, tentando se manter em pé.
— Senhora… eu só preciso de um pouco de repouso…
A mulher a observava com frieza.
— Você não vai descansar aqui.
Laura olhou confusa.
— O quê?
Sem aviso, a mulher se aproximou.
— Pegue suas coisas.
— Como assim…?
— Pegue suas coisas e saia.
O mundo pareceu parar.
— Senhora, por favor… a voz dela falhou — o Téo vai chegar… ele vai
— Ele não precisa saber de nada.
Cortou.
Laura ficou imóvel por um segundo.
Depois… só obedeceu.
Com dificuldade, juntou suas coisas.
Duas mochilas.Pouca coisa.
Toda a vida dela cabia ali.
A cada passo até a porta, a dor aumentava.
Mas o medo era maior.
Ela saiu da mansão.
Sozinha.Na estrada.
O vento frio batia no rosto.
As pernas fracas.
E o mundo enorme demais.
Depois de um tempo andando, ela parou sob uma árvore.
À beira da estrada.
Sentou no chão.E desabou.
Chorando.
— Calma… calma… ela sussurrou pra barriga — por favor…
Então lembrou.
O dinheiro.
O primeiro pagamento que Téo tinha dado.
Ela ainda tinha um pouco.
Com mãos trêmulas, pegou o celular.
Pediu um táxi.
Minutos depois, estava em um hotel simples.
Distante.Seguro.
Pelo menos por enquanto.
Ela tomou banho.
Comeu algo leve.
E se deitou.Exausta.
Antes de dormir, olhou para o celular.
Parado.
Silencioso.
E tomou uma decisão.
Desligou.
— Eu não posso te colocar nisso… ela sussurrou, olhando para a barriga — não mais.
Enquanto isso…
Longe dali.No hospital.
Téo estava no plantão.
Cansado.
Mas ainda tentando manter o foco.
Sem saber,sem imaginar,que, naquele exato momento…Tudo tinha mudado.
E a vida dele estava prestes a desabar.
No hospital, o plantão seguia pesado.
Téo estava focado no trabalho… ou tentando estar.
Mas algo dentro dele estava inquieto.
Foi quando a mãe dele apareceu.
— Meu filho, preciso falar com você.
Ele nem tirou os olhos do prontuário.
— Fala.
Ela cruzou os braços.
— Sua “namorada” foi embora.
O movimento dele parou na hora.
Devagar, ele virou o rosto.
— O quê?
— Ela foi embora — a mulher repetiu, fria — disse que tinha alguém esperando por ela e que seria mais feliz assim.
O olhar dele mudou completamente.
— Mãe… o que a senhora fez?
Ela soltou um suspiro irritado.
— Agora tudo sou eu? Eu não fiz nada. Ela simplesmente foi.
Téo ficou imóvel por um segundo.
Depois passou a mão pelo cabelo, já tenso.
— Isso não faz sentido…
Ele pegou o celular imediatamente.
Ligou.Uma vez.Duas.
Caixa postal.
— Laura… ele deixou uma mensagem, a voz mais baixa — me diz onde você tá… eu vou te buscar.
Guardou o celular com força e voltou pra casa como um furacão.
O olhar duro.
A respiração pesada.
A presença dele preenchia o ambiente inteiro antes mesmo de falar qualquer coisa.
A mãe dele estava na sala, sentada como se nada tivesse acontecido.
— Meu filho… você voltou rápido.
Ele parou na frente dela.
— Onde ela está?
Silêncio.
— Não sei , ela respondeu, simples — foi embora por vontade própria.
Téo estreitou o olhar.
— Por vontade própria…
Repetiu, baixo.
— Ela disse que tinha outra pessoa esperando por ela... a mãe continuou — e que seria melhor assim.
Ele soltou um riso curto… sem humor nenhum.
— Mentira.
A expressão dela endureceu.
— Você vai acreditar nela agora?
Téo deu um passo à frente.
— Eu não estou perguntando, mãe.
Silêncio.
Foi então que uma funcionária apareceu na porta, hesitante.
— Senhor…
— Fala.
A mulher respirou fundo, nervosa.
— Eu preciso falar a verdade.
A mãe dele se virou na hora.
— Você vai mesmo se meter nisso?
A funcionária engoliu seco, mas continuou:
— É verdade, senhora.
Silêncio pesado.
— A senhora não deixou a senhora Laura comer o dia todo.
O rosto da mãe dele fechou.
— Isso é absurdo
— Eu vi.
A voz da funcionária ficou mais firme.
— Ela só comeu à noite, quando o senhor chegou com comida pra ela.
Téo ficou imóvel.
— No dia seguinte… ela estava muito fraca. Com dor. m*l conseguia ficar em pé.
A funcionária continuou, agora mais emocionada.
— Mesmo assim, a senhora mandou ela trabalhar na casa inteira.
Silêncio total.
— Lavou banheiro… roupa… limpou tudo… mesmo grávida.
A respiração de Téo ficou mais pesada.
— Eu tentei ajudar — a funcionária completou — mas a senhora não deixou.
A mãe dele soltou um riso nervoso.
— Você acha mesmo que eu ia permitir uma desconhecida dentro da minha casa mandando?
Téo virou lentamente o rosto pra ela.
O olhar dele não era mais só sério.
Era perigoso.
— E você mandou ela embora?
A mãe cruzou os braços.
— Ela foi porque quis.
A funcionária deu um passo à frente.
— Não foi assim.
Silêncio.
— Ela estava chorando… fraca… implorando pra ficar — ela disse, firme agora — mas a senhora mandou ela pegar as coisas e sair.
Téo fechou os olhos por um segundo.
Como se estivesse segurando algo dentro dele pra não explodir.
Quando abriu…
A voz saiu baixa.Controlada.
Mas mortal de tão firme.
— Ela estava grávida.
A mãe dele abriu a boca, mas não respondeu de imediato.
Téo continuou:
— Você deixou uma mulher grávida sair da minha casa fraca… sozinha… na rua?
Silêncio.
A funcionária abaixou o olhar.
— Ela saiu com duas mochilas… a pé, senhor…
O ar pareceu parar.
Téo passou a mão pelo cabelo, respirando fundo.
A raiva não era mais contida.
Era clara.
Ele olhou pra mãe.
— Você não tocou só nela.
Pausa.
— Você tocou no meu filho também.
E naquele momento…não havia mais discussão.só consequência.
O silêncio na casa era pesado.
A funcionária já tinha saído.
Restava só ele e a mãe.
Cara a cara.
Téo ficou alguns segundos parado, olhando pra ela.
Não era mais só decepção.
Era decisão.
— Você tem noção do que fez? a voz dele saiu baixa, controlada demais.
Ela tentou manter a postura.
— Eu não fiz nada além de
— Para.
Ele cortou.Simples,Firme.
O olhar dela vacilou por um segundo.
Téo respirou fundo, passando a mão pelo rosto.
Quando voltou a olhar pra ela, já não havia dúvida.
— Você colocou uma mulher grávida pra fora da minha casa.
Silêncio.
— Fraca. Com dor. Sem dinheiro. Sem ajuda.
Cada palavra dele vinha mais pesada que a anterior.
— E isso não foi um “m*l-entendido”.
Ele deu um passo à frente.
— Foi escolha sua.
Ela tentou reagir.
— Eu sou sua mãe
— E ela é a mulher que eu escolhi.
Interrompeu, mais firme ainda.
O ambiente mudou completamente.
Téo apontou levemente para a porta.
— Você vai sair da minha casa.
A mãe dele arregalou os olhos.
— O que?
— Agora.
Silêncio absoluto.
— Você está me expulsando?
Ela quase riu, sem acreditar.
— Por causa dela?
Téo não desviou o olhar.
— Não é “por causa dela”.
Pausa.
— É por causa do que você fez.
Ele respirou fundo, tentando não elevar o tom.
Mas a firmeza só aumentava.
— Você ultrapassou todos os limites possíveis.
A mãe dele balançou a cabeça, indignada.
— Você vai se arrepender disso.
Ele respondeu na mesma hora:
— Não.
Silêncio.
Téo se virou parcialmente, pegando as chaves da casa.
— Você vai embora hoje.
Pausa.
— E enquanto eu não confiar mais em você perto dela… você não entra aqui.
Ela ficou imóvel.
Pela primeira vez… sem resposta pronta.
Téo abriu a porta.
Esperou.
— Eu não tô discutindo, mãe.
A voz dele saiu mais baixa agora.
— Eu tô te informando.
Ela olhou pra ele, ainda chocada.
Mas ele não mudou.
Não cedeu.
Depois de alguns segundos…
Ela passou pela porta.
Sem mais nada.
E quando ela saiu…
O silêncio dentro da casa foi diferente.
Não vazio.Mas pesado.Definitivo.
Téo fechou a porta devagar.
Respirou fundo.
E, pela primeira vez naquele dia…
pensou em Laura.
Fraca.Sozinha.Grávida.
Ele pegou o celular.
Sem hesitar.
E saiu.
Dessa vez…Não era só preocupação.Era urgência.