Laura estava no quarto do hotel em silêncio.
O celular desligado desde o dia anterior.
O mundo, pela primeira vez em muito tempo, parecia… distante.
Ela olhava para a mala aberta em cima da cama.
Duas peças de roupa dobradas.
Pouca coisa.
Tudo o que ela tinha cabia ali.
De novo.
A mão dela foi até a barriga.
Já mais evidente agora.
Seis meses.
Vida.Responsabilidade.
Medo.
— Eu não posso te colocar nisso… ela sussurrou — não mais.
Os olhos estavam cansados.
Mas a decisão estava tomada.
Ela abriu o celular.
Com cuidado.
Como se cada toque pesasse.
Passagem.
Destino distante.
Outro estado.Outro começo.
Outro anonimato.Confirmado.
Quando viu o e-mail de confirmação, ela respirou fundo.
— Pronto…
Não era fuga.Era proteção.Na cabeça dela.
Ela se sentou na beira da cama por um instante.
E ficou ali.
Só alguns segundos.
Lembrando dele.
Téo.
O jeito que ele olhava pra ela.
O cuidado.
A forma como ele segurava a mão dela como se ela fosse importante demais pra quebrar.
Uma lágrima caiu.
Ela não enxugou.
— Eu não posso te prender nisso. murmurou de novo, agora mais baixa — nem você… nem ele.
Levantou.
Pegou a mala.
E saiu.
Enquanto isso…
Téo dirigia como nunca antes.
Ligação não atendida.
Hotel descoberto.
Pressa.
Respiração curta.
Algo dentro dele gritava.
Quando chegou ao hotel, desceu do carro já em movimento.
Corredor.
Elevador.
Passos rápidos.
E então…
Parou na porta.
Bateu.Uma vez.Duas.
Nada.
— Laura! a voz dele saiu mais alta — abre a porta!
Silêncio.
Ele tentou a maçaneta.
Trancado.
O peito dele afundou.
Mais uma batida.Mais forte.
— Laura!
E então…
um funcionário passou no corredor.
— Senhor… ela fez checkout faz alguns minutos.
O mundo parou.
— Como assim?
— Ela saiu com uma mala… pegou um transporte… acho que foi pro aeroporto.
Silêncio.
Téo não falou nada.
Só pegou o celular.
As mãos tremendo levemente agora.
E viu.
Passagem comprada.
Destino confirmado.Horário…
em poucas horas.
A respiração dele travou.
— Não… ele murmurou — não, não, não…
E saiu correndo.
Dessa vez não era trabalho.
Não era controle.
Não era contrato.
Era medo.Real.Profundo.
Porque ele entendeu uma coisa simples demais…
Ela estava indo embora.
E talvez… ele chegasse tarde demais.
O aeroporto estava cheio.
Gente indo, vindo, vozes misturadas, malas sendo puxadas pelo chão frio.
Mas Téo não via nada disso.
Só corria.
— Laura! a voz dele ecoou pelo saguão.
Olhares se viraram.
Mas ele não ligava.
Passou pela segurança quase sem pensar, respirando pesado, procurando.
— Senhora com cabelos loiros curtos… grávida… ele perguntava rápido — ela embarcou? pra onde ela foi?
A atendente olhou a tela.
Depois pra ele.
— O voo dela decolou há poucos minutos, senhor.
Silêncio.
— Já saiu?
A voz dele saiu mais baixa dessa vez.
Como se não quisesse acreditar.
A mulher assentiu.
— Sim… o avião já está no ar.
O mundo dele parou.
De verdade.
Téo ficou imóvel.
Os sons ao redor continuavam, mas distantes.
Como se ele tivesse sido jogado pra fora da própria realidade.
— Não… ele murmurou, passando a mão pelo rosto — não, não…
Ele andou alguns passos pra trás.
Depois parou.
E ficou ali.
Sozinho no meio do aeroporto.
A mão foi até o celular.
Sem pensar.
Tentou ligar.
Uma vez.
Caixa postal.
De novo.
Caixa postal.
Ele apertou mais forte o aparelho.
— Laura… ele falou baixo, quase quebrado — por favor…
Mas não havia resposta.
Ele levantou o olhar, procurando como se ainda pudesse encontrá-la ali.
Em algum canto.
Em alguma porta.
Em algum segundo que tivesse passado despercebido.
Mas não.
Ela tinha ido.
E pela primeira vez…
Téo sentiu algo que nunca sentira antes:
perda real.
Ele passou a mão pelo cabelo, respirando fundo, tentando se manter de pé.
Mas a verdade era simples demais pra fugir:
Ele chegou tarde.