capítulo 14

710 Words
Laura chegou ao novo destino com o coração ainda apertado. A cidade era diferente, mais silenciosa, menos intensa do que tudo o que ela tinha vivido nos últimos meses. Era exatamente o que ela precisava. Recomeço. Mesmo que doído. Mesmo que incompleto. Ela alugou um pequeno quarto simples. Nada luxuoso.Mas limpo.Seguro. E, pela primeira vez em muito tempo, não havia ninguém mandando, pressionando ou decidindo por ela. Com o passar dos dias, conseguiu um trabalho. Um café pequeno, acolhedor, perto de uma rua movimentada. Nada pesado. Nada que exigisse esforço físico. Ela ficava no caixa. Sentada. Atendendo, sorrindo de leve, passando pedidos. Perfeito para a gravidez. O tempo começou a passar de forma mais calma. Mais previsível. Laura ainda pensava nele. Téo. Isso não tinha mudado. Mas agora… parecia distante demais. Como se fosse outra vida. Ela ajeitava o cabelo curto atrás da orelha enquanto conferia o caixa. A barriga já bem visível. Seus dias eram assim: trabalho, casa, descanso. Simples.Controlado. Às vezes, em momentos de silêncio, a mão dela ia até a barriga. — Tá tudo bem… ela sussurrava — agora vai ficar tudo bem. Mas, no fundo… Ainda existia um medo. Pequeno.Quieto. De que aquilo tudo fosse só uma pausa. E não um fim. Enquanto isso…Em outro lugar. Longe dali.Téo ainda não tinha parado de procurar. Téo não voltou pra rotina. Não voltou pra normalidade. Depois do aeroporto, ele simplesmente… travou por dentro. E começou a agir. No escritório, o computador estava aberto há horas. Sem pausas.Sem distrações. Só ele, a tela e a obsessão silenciosa de encontrar um rastro. — Hotel… passagem… pagamento… ele murmurava, revisando tudo de novo. Cada detalhe importava. Ele ligou para a companhia aérea. Nada além do destino final. Sem endereço. Ligou para o antigo cartão que ela ainda tinha usado. Tentativa. Localização aproximada. E então começou a montar o quebra-cabeça. — Mulher grávida… loira… trabalho recente… mudança de cidade… Ele falava sozinho, andando pela sala. Contatos antigos. Registros de CPF. Currículos antigos. Tudo o que pudesse levar até ela. Até que parou. Os olhos fixos na tela. Um registro simples. Contrato recente de trabalho. Café pequeno.Cidade pequena.Outro estado. Ele aproximou o rosto da tela. Como se precisasse confirmar duas vezes. — Achei você… murmurou. Baixo. Quase aliviado.Quase dolorido. Pegou o celular imediatamente. Começou a organizar a viagem. Sem hesitar. — Dessa vez você não vai fugir de mim… — ele disse sozinho, pegando as chaves. Mas não era raiva. Não era controle. Era medo.E urgência.Misturados. Porque agora ele sabia: ela não estava perdida. Ela estava tentando sobreviver longe dele. E isso… Ele não ia aceitar. Téo chegou na cidade no fim da tarde. O céu já começava a escurecer, e a rua onde o café ficava tinha aquele movimento tranquilo de final de expediente: pessoas entrando e saindo, conversas baixas, o cheiro de café e pão fresco no ar. Ele não entrou. Ficou do outro lado da rua. Parado. Observando. E então viu. Laura. Sentada no caixa, como se aquele fosse o lugar mais seguro do mundo. O cabelo loiro curto preso atrás da orelha. O rosto mais calmo do que ele lembrava… mas ainda com sinais de cansaço. E a barriga. Mais evidente agora. Seis meses… talvez mais perto de sete. Téo ficou imóvel. Só olhando. Ela sorria pra um cliente. Pequeno.Educado.Natural. E aquilo, de algum jeito estranho… apertou o peito dele. Não de raiva.De saudade. Ele cruzou os braços, respirando fundo. Como se estivesse tentando se manter no lugar. — Tá aqui… murmurou pra si mesmo. Por alguns minutos, ele só ficou ali. Sem se mexer. Sem interromper. Só observando a vida dela acontecendo longe dele. Ela pegava dinheiro, passava troco, ajeitava o cabelo quando caía no rosto. Gestos simples. Normais. Mas pra ele… pesavam mais do que qualquer reunião ou cirurgia. Ele percebeu algo que não tinha percebido antes: Ela estava tentando seguir em frente. Sem ele. E isso… doeu de um jeito diferente. Téo passou a mão pelo rosto, respirando fundo. O impulso era entrar. Agora. Mas não entrou. Ainda não. Porque ele queria ter certeza de uma coisa antes: Que ela estava viva. Segura.E realmente ali. Então esperou. Do lado de fora.No silêncio. Como alguém que finalmente encontrou o que perdeu… Mas ainda não sabia como recuperar.
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