Ele respirou fundo uma última vez… e entrou no café.
O sino da porta tocou, discreto.
Téo caminhou devagar até o balcão, como se cada passo pesasse mais do que deveria
Laura estava abaixada organizando algo no caixa.
Quando ouviu o movimento, levantou o olhar automaticamente.
E parou.
Por um segundo, o mundo inteiro pareceu parar junto com ela.
Ele.Ali.Na frente dela.
Como se o tempo não tivesse passado.
Téo olhou direto nos olhos dela.
Sem desviar.Sem fugir.
— Um café, por favor — ele disse baixo, a voz calma demais para o que estava acontecendo.
Laura engoliu seco.
As mãos dela ficaram imóveis no balcão.
O ar não saía direito.
Os olhos dela desceram, instintivamente, até ele… depois voltaram ao rosto.
Como se não acreditasse.
— Téo… ela sussurrou.
Quase sem som.
Como se o nome dele fosse algo que ela não podia dizer em voz alta.
O silêncio entre os dois ficou pesado.
Cheio.Vivo.
Ele não respondeu de imediato.
Só a olhava.
Como se estivesse confirmando que ela era real.
Que não tinha chegado tarde demais… de novo.
Laura piscou, ainda em choque.
A mão dela foi de leve até a barriga, num gesto automático de proteção.
— O que… o que você tá fazendo aqui? — ela conseguiu perguntar, a voz falhando.
Téo respirou fundo.
Um segundo longo.
— Eu vim te buscar.
Ela terminou o expediente em silêncio.
As mãos tremiam um pouco enquanto organizava o caixa, mas o olhar dela evitava o dele desde o momento em que ele entrou.
Téo não falou mais nada ali.
Só esperou.
Quando saíram do café, caminharam juntos até o carro.
O trajeto até o pequeno quarto alugado foi silencioso.
Um silêncio pesado, cheio de tudo o que não estava sendo dito.
Ao chegarem, Laura entrou primeiro.
Sentou na beira da cama assim que fechou a porta.
Como se o corpo finalmente tivesse permitido desabar.
Téo ficou em pé por alguns segundos, olhando ao redor aquele espaço simples.
Depois olhou pra ela.
— Laura…ele começou, baixo.
Ela passou a mão no rosto, cansada.
— Eu não posso voltar pra lá.
A voz saiu firme, mas quebrada por dentro.
— Eu vou ficar bem aqui… eu vou trabalhar… vou criar meu bebê.
Téo deu um passo à frente.
— Esse bebê também é meu.
Ela levantou o olhar na hora.
— Eu me apaixonei por você, Laura.
Silêncio.
Ela respirou fundo, tentando não se desmontar.
— Téo… sua mãe me forçou a limpar aquela mansão inteira…
A voz dela falhou.
— Eu quase perdi o bebê.
Ele fechou os olhos por um segundo.
A mandíbula travando
— Eu expulsei ela — ele disse imediatamente.
Laura negou devagar com a cabeça.
— Não é só isso…
Ela apertou as próprias mãos.
— Do mesmo jeito que foi ela… pode ser outra pessoa da sua família.
Ela olhou pra ele, com medo e verdade misturados.
— Você é médico… rico… bem-sucedido…
Pausa.
— E eu não sou ninguém, Téo.
O silêncio entre eles ficou ainda mais profundo.
Ele se aproximou devagar, sem pressa, até ficar na frente dela.
Abaixou um pouco o olhar para encontrar o dela.
— Olha pra mim.
Ela hesitou… mas olhou.
— Você não é “ninguém”.
A voz dele saiu firme.
— Você é a mulher que eu escolhi.
Ele respirou fundo.
— E eu não tô te pedindo pra voltar pra minha casa.
Pausa.
— Eu tô te pedindo pra não me tirar da sua vida.
Os olhos dela marejaram.
Mas ela ainda tinha medo.
Ainda tinha cicatrizes.
— Eu tenho medo disso tudo… ela sussurrou — de você um dia se cansar… de tudo voltar a ser como antes…
Téo balançou a cabeça, devagar.
— Eu não sou o que aconteceu com você antes.
Pausa.
— E eu não vou te deixar viver isso de novo.
Silêncio.
Ele estendeu a mão devagar, sem encostar ainda.
Só oferecendo.
— Mas você decide o ritmo.
— Eu não vou te forçar a nada.
Laura olhou para a mão dele.
Depois para ele.
E pela primeira vez desde que tudo começou…
não fugiu imediatamente
Ela ficou alguns segundos olhando pra mão dele.
O peito apertado.
A respiração curta.
Como se tudo dentro dela estivesse em conflito ao mesmo tempo.
E então… ela se levantou devagar.
Sem dizer nada.Só foi.
E abraçou ele.
No começo, foi um abraço tímido, quase com medo de quebrar algo.
Mas aos poucos… foi ficando mais firme.
Mais verdadeiro.
— Eu senti sua falta… ela sussurrou, a voz abafada no peito dele — me sentia tão sozinha…
Ela respirou fundo, fechando os olhos.
— Mas eu não queria te incomodar… nem te prender a mim…
Téo ficou imóvel por um instante.
Só sentindo ela ali.
Real.De volta.
E então ele envolveu ela com os braços.
Forte.
Mas cuidadoso.
Como se estivesse protegendo algo que finalmente tinha encontrado de novo.
— Você não me prende, Laura… ele murmurou, encostando a testa de leve no cabelo dela — você não é um peso pra mim.
Ela apertou a camisa dele, ainda com medo de soltar.
— Eu pensei que você ia desistir de mim…
Ele afastou um pouco só pra olhar pra ela.
Os olhos firmes.
Sinceros.
— Eu te procurei até o fim.
Pausa.
— Eu não desisto de você.
Ela respirou fundo, e pela primeira vez em dias… o corpo dela relaxou um pouco.
Como se, por um momento…
o mundo tivesse parado de fugir.
E ali, naquele abraço…
não existia mais contrato, nem fuga, nem passado.
Só eles dois.
E o começo de algo que ainda precisava ser reconstruído.