O amanhecer trouxe pouca esperança. A luz filtrava-se por entre as árvores altas, mas não aquecia. Isla sentia cada músculo de seu corpo latejar, como se cada passo fosse arrancado de suas forças.. O estômago vazio parecia um buraco sem fundo, e os lábios ressecados queimavam a cada respiração.
Ela se arrastava pela floresta como um fantasma de si mesma, mas havia algo que a mantinha em pé: Nathasa.
“Continue. Um passo de cada vez. Nós não podemos parar.”
A voz da loba era firme, mesmo quando Isla queria desistir.
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No quinto dia de fuga, a fome já era uma tortura insuportável. Ela havia comido apenas algumas frutas amargas que m*l a sustentaram, e agora a floresta parecia zombar dela. O cheiro de caça passava pelo vento ... coelhos, aves, pequenos roedores ..., mas sem sua forma lupina, Isla não tinha como capturá-los.
Frustrada, golpeou uma árvore com as mãos até seus nós dos dedos sangrarem.
Eu sou inútil! ... gritou, a voz quebrada. Não consigo me transformar, não consigo caçar... vou morrer aqui, de fome!
Um silêncio pesado tomou conta de sua mente. Depois, a voz de Nathasa veio, suave, quase um sussurro:
“Você ainda tem a mim. E eu nunca vou desistir de você. Se não conseguimos caçar como lobas, caçaremos como humanas. Pense. Use suas mãos. Use sua astúcia.”
Isla respirou fundo, tentando afastar o desespero. Pegou galhos secos e improvisou uma lança tosca, amarrando pedras afiadas com tiras de sua própria roupa. Não era perfeita, mas era uma arma.
Naquela tarde, esperou imóvel perto de um tronco caído, até que um esquilo se aproximou. O coração dela disparou. Com um movimento rápido, atirou a lança. Errou.
O esquilo correu. Isla caiu de joelhos, os olhos marejados.
“Não desista. Vamos tentar de novo.” Nathasa insistiu.
E tentaram. Vez após vez. Até que, quando o sol já começava a se pôr, Isla conseguiu atingir um coelho pequeno. Chorou enquanto o pegava nas mãos trêmulas, não de pena, mas de alívio.
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O fogo foi outra batalha. Suas primeiras tentativas falharam miseravelmente. As mãos doíam, os dedos estavam feridos, e a paciência se esgotava. Mas depois de horas esfregando pedras e galhos, uma pequena faísca surgiu. Isla soprou com cuidado, até que uma chama tímida tomou forma.
Ela assou a carne como pôde, comendo rápido, lágrimas descendo pelo rosto. O gosto era amargo, mas o calor no estômago lhe trouxe forças renovadas.
Eu consegui... murmurou, a voz embargada. Eu ainda estou viva.
“E vai continuar assim.” Nathasa respondeu, orgulhosa.
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O sexto e o sétimo dia foram marcados pela busca incessante por água. A garrafa estava vazia, e sua garganta queimava. O desespero quase a fez beber de poças lamacentas, mas Nathasa a impediu.
“Se beber disso, vai adoecer. Aguente só mais um pouco. O som... escute. Há um rio por perto.”
Isla fechou os olhos, tentando ignorar a sede insuportável, e concentrou-se nos sons da floresta. O farfalhar das folhas, o canto distante das aves... e, enfim, o som suave de água corrente.
Com as últimas forças, correu em direção ao som até encontrar um riacho cristalino. Caiu de joelhos na beira, mergulhando as mãos e bebendo com avidez. A água gelada escorreu por seu queixo, trazendo alívio imediato.
Obrigada... sussurrou, as lágrimas se misturando à água. Obrigada, Nathasa.
“Estamos sobrevivendo, Isla. Isso é só o começo.”
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Mas a floresta não oferecia apenas fome e sede. O perigo espreitava a cada sombra.
Na oitava noite, uma tempestade caiu com fúria. Relâmpagos cortavam o céu, e a chuva desabava sem piedade. Isla se abrigou em uma caverna estreita, mas o vento frio entrava mesmo assim, gelando até os ossos.
A cada trovão, lembrava-se dos uivos dos lobos selvagens que rondavam a mata. Abraçou os joelhos, o corpo tremendo, e sussurrou para Nathasa:
Eu tenho medo...
“Eu também tenho. Mas o medo nos mantém vivas. Ele nos alerta. Ele nos move.”
As duas ficaram em silêncio, ouvindo a tempestade. Isla percebeu, naquele momento, que não estava mais sozinha. Nathasa era parte dela, mas também sua única família, sua única amiga.
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O nono dia trouxe outro desafio: ferimentos. Ao tentar escalar um barranco para alcançar frutas em uma árvore alta, Isla escorregou e caiu, arranhando as pernas em pedras afiadas. O sangue escorreu, e a dor a fez gritar.
Ofegante, improvisou um curativo com tiras da própria roupa, apertando o tecido contra o corte.
“Você é mais forte do que pensa.” Nathasa a encorajava. “Cada cicatriz será uma lembrança de que sobreviveu.”
Isla respirou fundo, ignorando a dor, e continuou caminhando.
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No décimo dia, exausta, encontrou uma clareira iluminada pela lua. Deitou-se na grama úmida e olhou para o céu estrelado. Pela primeira vez em muito tempo, não chorou.
Nathasa... você acha que um dia isso vai ter fim?
A loba demorou a responder. Quando falou, sua voz era serena:
“Todo sofrimento é um caminho. E todo caminho leva a um destino. Nós ainda não sabemos qual será o nosso... mas eu prometo, Isla, não será em vão.”
Isla fechou os olhos, sentindo as estrelas como testemunhas silenciosas de sua promessa a si mesma: não importava quanto sangue derramasse, quanto frio ou fome suportasse, ela sobreviveria.
E quando voltasse a cruzar com seu destino, estaria pronta.