Acordei com alguém batendo na porta sem parar.
Abri os olhos devagar, ainda sonolenta, e olhei para o relógio ao lado da cama.
Nove e meia da manhã.
— Meu Deus…
Sentei rapidamente na cama passando a mão no rosto.
Já tinha passado da hora de fazer o café dos meninos.
Levantei correndo, ajeitando o cabelo bagunçado, e fui até o quarto deles. Quando abri a porta, os dois ainda dormiam profundamente, espalhados pela cama.
Antes que eu pudesse voltar para cozinha, as batidas começaram de novo.
Bufei.
— Só podia ser você mesmo, né Cristina? — falei abrindo a porta. — No sábado, na minha folga, vindo me abusar logo cedo.
Cristina entrou rindo.
— Você não sabe que eu te amo? Como eu vou ficar dois dias sem te ver?
Acabei rindo também e dei espaço para ela entrar.
— Entra logo. Vou fazer café.
Enquanto eu preparava o café da manhã, Cristina ficou sentada na bancada me observando com aquele sorriso cheio de segundas intenções.
Eu já conhecia aquele olhar.
— Mas fala a verdade — falei colocando o café nas xícaras. — Você veio aqui só pra fofocar mesmo. Confessa que quer saber do Tenório.
Ela colocou a mão no peito fingindo indignação.
— Eu vim te ver, sua chata. Mas lógico que, se quiser me contar o que aconteceu, eu estou aqui pra te ouvir… como uma psicóloga.
Ri balançando a cabeça.
— Está tudo bem entre nós dois. Eu cansei de fugir dele… e do que eu sinto também.
Cristina bateu palmas baixinho.
— Até que enfim você me ouviu.
Suspirei me sentando na cadeira.
— Só não gosto muito desse ciúme exagerado dele. Às vezes parece que quer me controlar o tempo todo… Mas talvez isso melhore quando ele me conhecer melhor.
Cristina me encarou dramaticamente.
— Nossa… você está falando tão bonito. Só não esquece que a psicóloga aqui sou eu.
Comecei a rir.
— Psicóloga de hospício. Aliás, é lá que você devia trabalhar… e aproveitar pra ficar internada como louca.
Nós duas caímos na gargalhada.
Depois do café, fomos nos sentar na sala. Meus filhos já tinham acordado, tomado café e estavam brincando no pequeno parque em frente às casas do alojamento, que o dono da fazenda tinha mandado construir para as crianças.
Cristina se jogou no sofá toda preguiçosa.
— E aí? Cadê seus paqueras? Tá sem convite pra sair hoje?
Ela fez careta.
— Esses homens só querem curtição. No outro dia esquecem tudo. É beijinho, beijinho e tchau, tchau.
Cruzei os braços sorrindo.
— Mas não é exatamente disso que você gosta?
Ela abriu a boca pra responder, mas nesse instante uma buzina tocou do lado de fora.
Nós duas olhamos pela janela ao mesmo tempo.
Cristina arregalou os olhos.
— Mulher… é o Tenório!
Ela praticamente correu para abrir a porta antes de mim.
Tenório entrou usando jeans escuro, camiseta preta e chapéu. E, como sempre, parecia bonito demais para o meu próprio bem.
— Bom dia, meninas — falou olhando diretamente para Cristina. — Cristina está aqui por acaso tentando levar minha namorada pra algum lugar?
Cristina levantou as mãos.
— Eu? Que absurdo! Vim só tomar café com a minha amiga.
Olhei para ele tentando esconder o sorriso.
— Começa não, Tenório. O que me faz receber sua brilhante visita num sábado de manhã?
Ele tirou o chapéu e respondeu calmamente:
— Vim buscar vocês pra passar o dia numa casa com piscina do meu patrão.
Cristina arregalou os olhos.
— Do dono da fazenda?
— Sim. Ele não vai estar lá, mas me emprestou a chave. Já comprei carne pro churrasco, cerveja e refrigerante pras crianças. Agora é só vocês se arrumarem.
Depois olhou para Cristina com um sorriso divertido.
— E você também está convidada. Melhor eu virar amigo das amigas da minha namorada… assim evito sabotagem no relacionamento.
Eu ri.
— Muito engraçado.
Então me levantei.
— Vamos, Cristina. Tenho alguns biquínis que talvez sirvam em você.
Pouco tempo depois arrumei meus filhos também, e nós entramos no carro com Tenório.
A viagem demorou quase uma hora.
Quando chegamos, fiquei impressionada.
A casa era enorme, cercada de árvores e com uma piscina linda no centro.
— Nossa… que casa linda — falei admirada. — Nosso patrão deve ser muito rico.
Tenório estacionou o carro.
— É sim. O pai dele herdou tudo isso do avô. Quando morreu, deixou a fazenda pro Rúben. Ele é novo, mas está cuidando muito bem de tudo.
As crianças nem esperaram direito. Já correram para piscina junto com Cristina enquanto eu ajudava Tenório a descarregar as coisas do churrasco.
Depois fui trocar de roupa.
Quando saí do quarto usando biquíni, percebi Tenório me olhando fixamente.
O olhar dele escureceu na mesma hora.
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele segurou meu braço e me puxou para dentro do quarto, fechando a porta.
— Tenório!
Ele se aproximou devagar.
— Isso já é demais pra mim. Melhor você me beijar logo antes que eu enlouqueça olhando você desse jeito.
Comecei a rir nervosa.
— Meus filhos estão aí fora.
— E a Cristina está cuidando deles.
Ele segurou minha cintura e me beijou.
Na mesma hora meu corpo inteiro arrepiou.
Os beijos dele sempre me deixavam sem forças.
Tenório deslizou as mãos pelas minhas costas devagar, puxando a alça do meu biquíni enquanto me encostava na parede.
— Aqui não… — murmurei sem convicção.
— Por quê?
Ele beijou meu pescoço lentamente.
Respirei fundo tentando manter o controle, mas era impossível resistir quando ele me tocava daquele jeito.
Acabamos esquecendo completamente do tempo ali dentro do quarto, trocando carinhos e beijos enquanto o mundo parecia desaparecer ao nosso redor.
Depois fomos tomar banho juntos.
A água caía sobre nós enquanto ele me abraçava por trás, beijando meu ombro devagar.
Parecia que só existíamos nós dois naquele momento.
Até ouvirmos a voz da Cristina do lado de fora.
— Esse churrasco sai hoje ou não?
Comecei a rir imediatamente.
— Vamos, Tenório! Antes que essa maluca afogue meus filhos na piscina.
Ele suspirou derrotado.
— Tá bom… mas depois você volta pra mim.
Saímos do quarto ainda rindo.
Tenório assumiu a churrasqueira enquanto eu e as crianças fomos para piscina.
— Quero que você relaxe hoje — ele falou colocando a carne na grelha. — Vai se divertir com eles. Eu cuido da comida.
Olhei para ele sorrindo.
— Nossa… assim fica difícil não se apaixonar.
Cristina, que estava dentro da piscina, fez cara de sofrimento.
— Gente, vocês podem deixar pra namorar outra hora? Os meninos estão morrendo de fome.
— O mestre-cuca já entrou em ação — respondeu Tenório.
Cristina então olhou pra mim e começou a rir.
— Tô impressionada com você. Pra quem fugia tanto desse homem, agora m*l consegue sair da cama com ele.
— Cala a boca, Cristina!
Afundei a cabeça dela na água e começamos a rir igual duas crianças.
Foi então que ouvimos o barulho do portão abrindo.
Olhei na direção da entrada e vi um homem alto, loiro e muito elegante entrando no quintal.
Cristina quase engasgou.
— Nossa Senhora… abriram a porta do céu.
O homem sorriu divertido.
— Boa tarde. Eu sou Rúben. Espero que estejam aproveitando.
Tenório se aproximou dele cumprimentando com um aperto de mão.
— Chegou na hora certa. Vai comer churrasco com a gente.
Saí da piscina tentando parecer tranquila, mas percebi imediatamente o olhar de Rúben sobre mim.
Ele tentou disfarçar, mas notei a forma como observou meu corpo molhado antes que eu pegasse rapidamente uma saída de praia.
Fingi não perceber e fui ajudar na cozinha.
Enquanto isso, Cristina já conversava animadamente com ele na mesa.
— Nem acredito que estou aqui bebendo cerveja com meu patrão — ela dizia rindo.
Rúben parecia simpático.
— Pra mim é importante conhecer melhor as pessoas que trabalham comigo.
Quando terminei de organizar algumas coisas, fui me sentar ao lado dela.
Rúben sorriu educadamente para mim.
— Estava falando pra Cristina o quanto estou satisfeito em conhecer vocês. Eu realmente não imaginava que trabalhavam mulheres tão bonitas comigo.
Senti meu rosto esquentar imediatamente.
Abaixei os olhos sem graça enquanto Cristina sorria toda convencida.
Depois de algum tempo, Rúben se levantou.
— Infelizmente não vou poder ficar muito hoje. Estou organizando a festa dos produtores que acontece todos os anos aqui na região. Era tradição do meu avô entregar os convites pessoalmente… então passei aqui justamente pra convidar o Tenório.
Cristina abriu um sorriso enorme.
— Nossa, deve ser uma festa incrível.
Rúben então olhou para nós duas.
— E faço questão que vocês acompanhem ele.
Cristina quase pulou da cadeira.
— Obrigada!
Então ele virou os olhos diretamente para mim.
— E você, Maria? Aceita o convite?
Antes que eu respondesse, Tenório apareceu atrás de mim.
— Que convite?
Rúben explicou tranquilamente:
— A festa de amanhã. Vim convidar vocês.
Tenório passou o braço pela minha cintura na mesma hora.
— Claro que a Maria vai comigo.
Olhei para ele sorrindo.
— Claro… eu vou sim.