A noite passou mais rápido do que eu gostaria.
Talvez porque, no fundo, eu não tenha dormido de verdade.
Quando a claridade começou a atravessar a cortina branca do quarto, eu já estava de olhos abertos, perdida entre pensamentos que insistiam em não me deixar em paz. Levantei devagar, sentindo o peso de mais um dia começando… mais um dia em que eu precisava ser forte.
Caminhei até a janela e a abri.
O ar da manhã me envolveu imediatamente. O sol surgia tímido por trás das árvores, pintando o céu com tons dourados e alaranjados. Algumas nuvens se espalhavam lentamente, enquanto os pássaros cortavam o céu, cantando como se celebrassem aquele novo começo.
Por um instante… eu só observei.
Era bonito.
Simples.
E, ainda assim… tão diferente de tudo que eu sentia por dentro.
Respirei fundo e fechei os olhos por um segundo.
— Mais um dia, Maria… — murmurei para mim mesma.
Me arrumei como de costume, deixando meus filhos na creche antes de seguir para a fazenda. Mas, naquele dia, havia algo diferente dentro de mim.
Eu precisava falar com ele.
Precisava esclarecer o que tinha acontecido no dia anterior.
Assim que cheguei, nem fui direto para o campo. Minhas pernas me levaram quase automaticamente até a sala de Tenório.
A porta estava entreaberta.
Hesitei por um segundo… mas entrei.
O ambiente estava vazio.
Silencioso.
Mas havia algo ali.
Um perfume forte, marcante… masculino. O mesmo que eu tinha sentido no dia anterior, quando ele esteve perto demais.
Fiquei parada por alguns segundos, sem saber exatamente o porquê.
Talvez tentando entender o que aquilo despertava em mim.
Talvez tentando ignorar.
Me virei para sair…
E dei de cara com ele.
Meu coração disparou na mesma hora.
O silêncio voltou a nos envolver, mas dessa vez… era diferente.
Estávamos próximos demais.
Eu conseguia sentir o calor da respiração dele, tão perto que parecia tocar meus lábios. Aquilo me deixou sem reação por um instante.
Então dei um passo para trás.
— Desculpa… — falei rápido, tirando o chapéu. — A porta estava aberta. Eu só… vim pedir desculpa pelo que aconteceu ontem. Por estar escrevendo durante o horário de trabalho.
Meus cabelos caíram soltos sobre os ombros, e percebi o olhar dele mudar.
Mais intenso.
Mais atento.
Ele não disse nada.
Apenas balançou a cabeça de leve, como se dissesse que estava tudo bem.
Aquilo me deixou ainda mais nervosa.
— Eu… trouxe isso — continuei, estendendo um pequeno pedaço de bolo embrulhado. — Fiz para os meus filhos, mas achei que você poderia gostar.
Ele pegou, ainda me observando.
— Você tem filhos? — perguntou, finalmente quebrando o silêncio.
— Tenho. Dois.
— E seu marido… trabalha aqui na fazenda?
A pergunta veio simples, mas foi como um golpe.
Baixei o olhar.
— Não… eu sou viúva.
O silêncio que veio depois foi diferente.
Mais pesado.
Mais humano.
— Eu… só vim pedir pra você não me mandar embora — completei, com a voz mais baixa do que gostaria. — Eu preciso muito desse trabalho.
Ele franziu a testa, como se não entendesse.
— Maria… isso nem passou pela minha cabeça. — A voz dele saiu firme, mas mais suave do que eu esperava. — Eu jamais faria isso. Ainda mais com uma mãe que só parou alguns minutos…
Ele fez uma pausa, como se buscasse as palavras certas.
— …para escrever.
Levantei o olhar, surpresa.
E não consegui segurar o riso que escapou.
— Eu não estava ajudando meu filho com tarefa — falei, sorrindo. — Eu gosto de escrever. Poesias.
Por um segundo, pareceu que ele ia dizer algo.
Mas uma batida na porta interrompeu o momento.
E eu… saí.
Voltei para o campo, mas algo dentro de mim estava diferente.
O dia estava bonito demais.
O céu limpo, o sol forte deixando tudo dourado… perfeito.
E, ainda assim, eu não levei meu caderno.
Talvez por medo.
Talvez por ele.
As horas passaram rápidas, como sempre acontecia quando eu tentava não pensar demais.
Quando o trabalho terminou, peguei minhas coisas e comecei a sair.
E foi então que vi.
Tenório.
Parado, olhando na minha direção.
Como se estivesse esperando.
— Posso te dar uma carona? — perguntou, abrindo a porta do carro.
Fiquei sem reação por um instante.
Mas entrei.
O silêncio tomou conta do carro durante os primeiros minutos.
Até que ele parou.
Olhei ao redor.
Uma praça.
— Por que você parou aqui? — perguntei.
Ele virou o rosto levemente, com um quase sorriso.
— Porque você não me disse onde mora.
Por um segundo, ficamos nos olhando…
E começamos a rir.
Uma risada leve.
Espontânea.
Mas que logo deu lugar a um silêncio diferente.
Mais confortável.
Fui mostrando o caminho até a creche, e ele prestava atenção em cada detalhe.
Quando meus filhos entraram no carro, ele os observou com atenção.
E algo no olhar dele… mudou.
Mais suave.
Mais… envolvido.
Ao chegar em casa, desci.
Segurei meus filhos.
E, ao me despedir, estendi a mão em agradecimento.
Mas ele não apertou.
Ele desceu.
E, antes que eu pudesse reagir, se aproximou e beijou meu rosto.
Um gesto simples.
Mas que fez meu coração bater mais forte.
— Até amanhã — falei, tentando manter a normalidade.
No dia seguinte, o clima na fazenda era outro.
As mulheres estavam animadas.
Falavam da chegada das festas de São João.
E, pela primeira vez, eu considerei ir.
No sábado, eu fui.
A festa estava cheia.
Música, risadas, gente dançando…
Vida.
Um homem se aproximou.
— Oi, meu nome é Jonas. E você?
— Maria — respondi, educada.
Ele era bonito.
Mas eu… não senti nada.
Ainda não.
Cristina insistia.
Queria me ver feliz.
Mas eu só queria esquecer.
Nem que fosse por algumas horas.
— Olha quem chegou… — ela disse de repente.
Olhei.
E lá estava ele.
Tenório.
Impossível não notar.
Impossível não sentir.
— Vamos até lá — Cristina puxou meu braço.
— Não… ele não dança — tentei recusar.
Mas ela não ouviu.
Quando chegamos perto, senti o olhar dele sobre mim.
Intenso.
Quente.
— Acho que perdi — Cristina sussurrou. — Ele não tira os olhos de você.
Meu coração acelerou.
E então…
senti a mão dele no meu braço.
— Maria… você aceita dançar comigo?
Antes que eu respondesse, Cristina já tinha respondido por mim.
E eu… aceitei.
Quando ele me puxou para perto, senti novamente aquele perfume.
Forte.
Marcante.
Familiar.
As mãos dele eram firmes.
Seguras.
— Você está muito bonita hoje — ele disse, próximo demais.
— Você também… não está de se jogar fora — respondi, tentando disfarçar.
Ele sorriu.
E se aproximou mais.
Meu corpo reagiu antes da minha mente.
A respiração dele tocava meu ouvido.
As mãos deslizando pelas minhas costas.
O corpo dele colado ao meu.
Por um momento…
eu esqueci.
Esqueci da dor.
Do passado.
De tudo.
Até que senti.
O rosto dele próximo demais.
A intenção clara.
E me afastei.
Rápido.
Voltei para perto de Cristina, ainda tentando entender o que tinha acabado de acontecer.
— Você é louca? — ela disse. — Eu já tinha beijado!
— Eu não consigo… ainda não — respondi.
Naquela noite, fui embora mais cedo.
Mas eu sabia.
Alguma coisa tinha começado.
E não era simples.
No dia seguinte, o céu amanheceu fechado.
As mulheres foram dispensadas.
Mas ele…
ele me procurou.
E quando me encontrou, insistiu.
— Me deixa te levar.
— Melhor não — respondi, andando.
— Por favor… Maria.
Eu entrei.
Mas dessa vez, ele não me levou para casa.
Parou em um lugar alto.
Com vista para tudo.
— Eu venho aqui quando me sinto sozinho — disse.
E então… ele se abriu.
E eu entendi.
A dor dele.
A solidão.
E, percebi que ela estava se aproximando para me beijar.
— Eu não estou pronta — falei.
Ele assentiu.
Mas não desistiu.
— Então vamos devagar.
Quando fui sair…
ele me puxou.
E me beijou.
Intenso.
Confuso.
Perigoso.
Me afastei.
— Eu não posso…
Saí do carro.
Mas meu coração…
ficou ali.
Com ele.