Acordei naquele dia tentando convencer meu coração de que Tenório não tinha importância nenhuma na minha vida. Repeti isso para mim mesma enquanto arrumava meus filhos para a escola, enquanto prendia meus cabelos em um coque simples e até durante o caminho para o trabalho. Mas bastou colocar os pés dentro da fábrica para perceber que todo mundo parecia pensar diferente.
As mulheres estavam reunidas perto das máquinas, cochichando e sorrindo umas para as outras. Quando me viram entrar, o silêncio demorou apenas alguns segundos antes das risadinhas começarem de novo.
— Lá vem ela… — uma comentou baixinho.
Olhei imediatamente para Cristina, que fingiu inocência enquanto mexia em alguns papéis.
— Você é uma língua grande mesmo, Cristina — reclamei, aproximando-me dela. — Não precisava sair falando da minha vida para o povo inteiro. Agora ele vai pensar que sou eu quem fica comentando essas coisas.
Ela começou a rir, sem o menor peso na consciência.
— Eu só queria ver a cara de inveja delas. E consegui.
Revirei os olhos.
— Não tenho nada com Tenório. E vou acabar com essa história agora mesmo.
Saí dali decidida. Meu coração acelerava enquanto eu caminhava até a sala dele, mas tentei ignorar aquilo. Bati na porta duas vezes e entrei sem esperar resposta. Só que, em vez de encontrar Tenório sentado atrás da mesa, encontrei um homem desconhecido organizando alguns documentos.
Ele levantou os olhos para mim.
— Bom dia.
— Bom dia… eu gostaria de falar com Tenório.
— O senhor Tenório precisou viajar para resolver alguns assuntos pessoais na cidade. Meu nome é Lucas. Vou ficar responsável pelas coisas até ele voltar.
Na mesma hora senti algo estranho apertar meu peito.
— Ah… certo. Não era nada importante.
Saí dali tentando manter a expressão normal, mas Cristina percebeu imediatamente quando voltei.
— O que foi? — perguntou ela. — Voltou com essa cara de cachorro perdido por quê?
Bufei, pegando algumas folhas sobre a mesa.
— Nada. Ele viajou.
— E você já está com saudade?
— Cristina, vai trabalhar e para de me encher.
Ela riu ainda mais, mas eu não consegui rir junto.
A verdade era que aquela notícia tinha me abalado mais do que eu gostaria de admitir. Tenório era insistente, atrevido, vivia tentando me beijar sem pedir licença… e mesmo assim sua ausência parecia deixar tudo mais silencioso.
Naquele dia trabalhei distraída. Toda hora meus pensamentos fugiam para ele. Fiquei imaginando para onde tinha ido, com quem estava, se havia alguma mulher esperando por ele naquela cidade.
No final da tarde, Cristina e as outras já planejavam mais uma noite das festas juninas. Falavam de vestidos, de dança, de homens bonitos e das barracas espalhadas pela praça. Eu não quis ir.
Preferi voltar para casa e ficar com meus filhos.
Passei o sábado inteiro tentando me ocupar. Fiz almoço, arrumei a casa, assisti televisão com as crianças, mas bastava ficar alguns minutos em silêncio para Tenório invadir meus pensamentos outra vez.
Por que não me contou da viagem?
Por que foi embora daquele jeito?
E o pior… por que eu me importava tanto?
No domingo foi ainda pior. Enquanto meus filhos brincavam no quintal, sentei-me na varanda com uma xícara de café e fiquei olhando o céu escurecendo devagar. Meu coração parecia inquieto.
Talvez ele nem voltasse.
Talvez tivesse alguém esperando por ele lá.
Talvez eu fosse apenas mais uma mulher com quem ele gostava de brincar.
Na segunda-feira cheguei ao trabalho mais cedo do que de costume. Meu olhar procurou automaticamente pela caminhonete dele estacionada na frente da fábrica.
Mas ela não estava lá.
E os dias começaram a passar lentamente.
Terça-feira.
Quarta-feira.
Quinta-feira.
Tenório continuava longe.
Sem perceber, comecei a escrever tudo aquilo em um velho caderno que guardava dentro da bolsa. Transformava meus sentimentos em pequenas poesias, versos soltos que falavam de saudade, desejo e medo.
Depois da morte do meu marido, eu tinha jurado para mim mesma que nunca mais abriria espaço para outro homem dentro do meu coração. Passei anos acreditando que aquela parte da minha vida tinha acabado.
Mas Tenório apareceu bagunçando tudo.
Quanto mais eu tentava fugir dele, mais parecia presa naquele sentimento.
Quando chegou o último dia das festas de São Pedro, a cidade inteira estava animada. As mulheres do trabalho falavam sem parar sobre os vestidos que usariam naquela noite.
Cristina apareceu na minha frente com as mãos na cintura.
— Hoje você vai conosco nem que eu precise te carregar.
— Ah, Cristina…
— Nada de desculpa. No outro dia você me deu sorte para encontrar um homem bonito. Agora vai se arrumar porque eu vou passar na sua casa.
Acabei cedendo.
Talvez eu realmente precisasse me distrair.
Quando terminei de me arrumar e saí do quarto, ouvi os assobios das minhas amigas. Eu usava um vestido preto curto, justo no corpo, combinado com botas de cano alto. Fazia tempo que eu não me olhava no espelho daquele jeito.
— Muito bem! — Cristina comemorou. — Hoje nós vamos acabar com os homens daquele salão.
Comecei a rir.
— Você fala cada coisa…
— E no último dia é tradição participar da barraca do beijo.
— Nem pensar. Eu não vou beijar um monte de homem desconhecido.
— Um monte não… mas pelo menos um.
A praça estava lotada naquela noite. As luzes coloridas iluminavam tudo, o cheiro de milho cozido se misturava com o de churrasco, e a música fazia o chão vibrar. Havia casais dançando, crianças correndo e muita gente bebendo e paquerando.
Cristina não perdeu tempo. Foi uma das primeiras a entrar na barraca do beijo e logo apareceu agarrada com um rapaz no meio do salão.
Ri da situação, mas depois de horas dançando minhas pernas já estavam cansadas.
— Cristina, eu vou embora — falei. — Não aguento mais dançar.
Ela me segurou pelo braço imediatamente.
— De jeito nenhum. Você não sai daqui sem participar da barraca do beijo.
— Cristina…
Mas já era tarde.
Ela e as outras começaram a rir e praticamente me empurraram para dentro da barraca. A porta fechou atrás de mim.
— Só sai daí depois de beijar alguém! — gritaram.
Cruzei os braços, irritada.
— Vocês perderam o juízo.
— Ei… quanto custa o seu beijo?
Meu coração disparou na mesma hora.
Reconheci aquela voz antes mesmo de olhar.
Quando virei o rosto, vi Tenório caminhando na minha direção com um sorriso que quase fez minhas pernas fraquejarem.
Por alguns segundos esqueci até de respirar.
Ele parou diante de mim me olhando daquele jeito intenso de sempre.
— Senti sua falta — disse baixo. — E chegar aqui e te encontrar nessa barraca parece presente de Deus.
Tentei esconder a felicidade absurda que senti ao vê-lo ali.
— Me beija logo para abrirem essa porta.
Aproximei-me e dei apenas um selinho rápido nele.
Lá de fora Cristina começou a gritar:
— Isso é barraca do beijo, não barraca da amizade!
Tenório riu.
— Por mim, tudo bem.
Então o beijei outra vez.
Só que dessa vez ele segurou minha cintura com firmeza e aprofundou o beijo lentamente. Meu corpo inteiro se arrepiou quando senti sua mão deslizar pelas minhas costas.
O beijo ficou intenso demais.
Quente demais.
Cristina bateu na madeira da barraca.
— Tá bom! Vocês dois vão incendiar isso aqui!
Nós começamos a rir.
Depois que saímos dali, Tenório me levou até uma lanchonete mais afastada da praça. Sentamos em silêncio por alguns minutos, apenas nos olhando.
— Você não comentou nada da viagem — falei.
Ele suspirou.
— Eu ia contar naquele último dia… mas você estava brava comigo.
— Por causa da sua mania de me beijar sem pedir.
Ele sorriu de lado.
— Então vou passar a vida inteira pagando pelos beijos roubados.
Balancei a cabeça tentando esconder o sorriso.
— Muito engraçado.
O olhar dele mudou devagar, ficando mais intenso.
— Eu senti sua falta, Maria.
Meu coração acelerou.
— Sentiu?
— Falta do seu cheiro… da sua voz… do seu beijo.
Ele se aproximou lentamente. Seus lábios tocaram meu pescoço enquanto sua mão descansava sobre minha perna descoberta pelo vestido curto.
Fechei os olhos por um instante.
— Tenório… tem gente aqui fora.
— Não consigo mais fingir que consigo ficar longe de você.
Sua mão deslizou devagar pela minha coxa, fazendo meu corpo inteiro estremecer.
Meu Deus… aquele homem me deixava completamente sem forças.
Ele beijava meu pescoço enquanto sussurrava perto do meu ouvido:
— Você não faz ideia do quanto pensei em você nessa viagem.
Quando senti sua mão subir mais pelo meu vestido, tentei segurá-lo.
— Para… alguém pode ver.
— Não conseguem ver nada daqui.
Ele voltou a me beijar, e por alguns segundos esqueci até onde estávamos.
Só nos assustamos quando uma garçonete bateu no vidro do carro segurando a conta.
Nós dois nos afastamos rapidamente, começando a rir da situação.
Tenório pagou a conta e me levou para casa.
Quando estacionou em frente ao portão, continuamos lembrando da cara da garçonete e rindo igual adolescentes.
— Pelo menos ela conseguiu fazer você parar — falei divertida. — Porque eu não consegui.
Ele me olhou sério daquela maneira que fazia meu coração perder o compasso.
— Sabe por que eu não consigo parar de te beijar?
Balancei a cabeça negativamente.
— Porque eu sou louco por você.
Antes que eu pudesse responder, ele puxou minha cintura outra vez e me beijou intensamente. Suas mãos deslizaram pelo meu corpo, apertando minha cintura, minhas pernas, fazendo meu coração disparar ainda mais.
Mas antes que eu perdesse completamente a razão, consegui abrir a porta do carro e descer.
Ele passou a mão pelos cabelos, sorrindo.
— Nunca conheci uma mulher tão difícil.
— Não estou fazendo jogo duro.
— Então o que é?
Sorri, caminhando de costas em direção ao portão.
— Você precisa descansar da viagem. Amanhã nós dois trabalhamos cedo.
Ele soltou uma risada baixa.
— Tá certo. Mas cuidado… quando fico assim, costumo enlouquecer.
Meu rosto esquentou.
Aproximei-me novamente, dei um beijo rápido em seus lábios e sorri antes de entrar em casa.
E naquela noite, pela primeira vez em muitos anos, dormi com o coração completamente apaixonado.