Cara não cabia em si enquanto retornava para casa. Aquele percurso, que normalmente era mais longo, tinha sido feito em um piscar de olhos. A sua animação estava nas alturas, e ela não via a hora de poder compartilhar aquela boa notícia com Lúcia.
Assim que chega em casa, ela abre a porta animada e encontra Lúcia na sala, montando um quebra-cabeças com Gael. Ela solta um gritinho animado, chamando a atenção deles.
— Céus, Cara! Quer me matar do coração? — diz Lúcia, com a mão no peito, tentando controlar a respiração após o susto.
— Adivinhem! — diz, se jogando no sofá com um grande sorriso.
Lúcia presta mais atenção em Cara e, ao perceber o seu estado de espírito, se levanta depressa com um pequeno gritinho.
— Conseguiu o emprego! — diz ela.
— Sim, sou a mais nova funcionária das Empresas Vasquez! — Lúcia se atira em Cara, gritando animada, enquanto a puxava para um abraço. — Meus parabéns, eu sabia que iria aparecer um bom emprego para você.
— Eu estou tão feliz, Lúcia, você não imagina o quanto. — diz ela, com lágrimas nos olhos.
— Arrumou um emprego, mamãe? — pergunta Gael, vindo até ela.
— Sim, querido. Agora vou poder te dar algumas coisas que não podia antes. — responde ela, segurando as bochechas do filho e lhe dando um beijo.
— Sério? — pergunta ele, animado. — Quero um videogame!
— Quando melhorar na escola. — diz ela, com um sorriso de canto.
— Ah, mamãe! — diz ele, chateado.
— Nada vem de graça, filho. Se não me der algo em troca, também não vai ganhar nada. — Cara gostava de manter os pés do filho no chão e não o recompensaria a menos que ele fizesse por merecer.
— Vou me esforçar. — diz ele, por fim, cedendo.
— Se no próximo boletim a suas notas estiverem melhores, então poderemos conversar novamente. Feito? — pergunta ela, lhe oferecendo o dedo mínimo.
— Feito. — diz ele, entrelaçando o seu dedo ao dela, animado.
— Isso merece uma comemoração. — diz Lúcia, pegando o telefone sobre a mesa.
— Não quero que gaste mais dinheiro comigo. — responde Cara.
— O dinheiro é meu, faço o que quero. — diz Lúcia, mostrando a língua para ela. — Vou pedir uma pizza para comemorarmos.
— Eba! Adoro pizza! — diz Gael.
— Viu, você perdeu, Cara. — diz ela, rindo enquanto fazia os pedidos.
Cara apenas permitiu-se relaxar depois das palavras de Lúcia. Era apenas uma vez, e ela poderia retribuir a generosidade quando recebesse seu primeiro salário. Gael havia feito a festa com a pizza. Tudo para ele era motivo de alegria, e Cara gostava de ver seu filho bem. Depois de tudo o que ambos tinham passado, seu pequeno merecia um pouco de paz.
Já era tarde quando Cara colocou Gael na cama. Eles dividiam o mesmo quarto. Quando ela retornou para a sala, Lúcia a esperava com uma taça de vinho. Ela evitava beber na frente de Gael por causa dos gatilhos que aquilo lhe causava. Cara pegou a taça e se sentou ao lado de Lúcia.
— Eu te disse que coisas boas aconteceriam com você. — diz ela, depois de tomar um gole do vinho.
— Você disse mesmo. — responde Cara.
— Agora é sua oportunidade de mudar sua vida, Cara. Quem sabe encontrar um bonitão para namorar. — diz, piscando para ela.
Cara ri das palavras dela. Lúcia era um verdadeiro furacão quando se tratava de homens.
— Acho que não. Quero apenas refazer minha vida, quem sabe arrumar um cantinho para mim e o Gael. — diz ela, e vê o rosto de Lúcia escurecer.
— Vai ficar aqui pelo tempo que precisar, Cara. Você e Gael são minha família, e amo ter vocês por perto. — Lúcia nunca havia concordado com as coisas que o irmão tinha feito a Cara e jamais o perdoaria por aquilo. Para ela, sua família estava naquele apartamento.
— Eu sei, mas também quero refazer a minha vida, sabe? Ser independente.
— Sei, e sempre terá o meu apoio para isso. Mas quando estiver melhor financeiramente.
Cara suspira. Ela podia ver razão nas palavras de Lúcia. Por enquanto, tudo o que ela tinha era uma bicicleta que havia sido presente da amiga assim que se mudaram. Ela precisava se estruturar para poder viver com seu filho em outro lugar.
— A polícia deu alguma notícia dele, Cara? — pergunta Lúcia, em voz baixa. Ela odiava ter que perguntar sobre o traste do irmão, mas era a única forma de se precaver.
— Não. Disseram que ele está foragido. — aquilo preocupava Cara terrivelmente. Ela só queria poder viver em paz com seu filho e sabia que isso não aconteceria enquanto Arthur estivesse solto.
— Vão pegá-lo. Ele precisa pagar pelo que fez. — diz Lúcia, apertando a mão dela com carinho.
— Apesar de tudo de r**m que me aconteceu, Lúcia, eu tenho sorte de ter você ao meu lado. — diz Cara, com os olhos marejados.
Lúcia puxa Cara para seus braços, limpando as lágrimas que caíam de seu rosto.
— Sabe que nunca apoiei o que ele fazia, Cara, e só não o denunciei porque não sabia.
Para todos que a vissem, Lúcia era a louca, e no dia em que ela viu Cara toda machucada, provou isso partindo para cima de Arthur. Mas ele tinha sido esperto ao fugir, e depois disso não a procurou mais. E Lúcia achava melhor assim. Ela não precisava de alguém que agia como o irmão.
— Mantenha o dispositivo da polícia sempre com você. Precisa ter cuidado agora que estará trabalhando. — Um dos motivos pelos quais Lúcia havia insistido para Cara não trabalhar era o medo de o irmão aparecer e elas não poderem fazer nada.
— Eu sempre ando com ele. Vou ficar bem. — diz, tentando dar um sorriso para Lúcia, mas aquilo não a convenceu.
— Se desconfiar de qualquer coisa, me ligue na mesma hora. Não me importa se seja apenas uma desconfiança. Não vamos brincar com sua segurança.
— Tudo bem, farei isso. — responde Cara, deixando Lúcia mais tranquila.