Dor
Cara não pensava que a sua vida fosse ser daquela forma. Ninguém espera que o amor da sua vida se transforme em um monstro. Mas, no fundo, os sinais sempre estiveram lá. Ela sabia disso, mas quando o coração é teimoso demais para enxergar, o corpo padece — e, no caso dela, aquilo não era diferente.
— Já cuidamos de tudo, senhora Cara. A medida protetiva está ativa e o senhor Arthur Azevedo não poderá se aproximar da senhora. Estamos com o pedido de prisão preventiva dele, e ele responderá perante a lei pelo que fez. — dizia o policial ao lado da cama de Cara.
Ela podia ver a forma como o homem a olhava — aquele olhar de pena que fazia o seu estômago revirar. Quem precisava de pena, afinal? Não ela. Para Cara, aquilo era apenas um tropeço no seu caminho, e ela não permitiria que Arthur destruísse a sua vida.
— Ele... ele vai ser preso? — pergunta Cara com dificuldade. Arthur tinha feito o favor de quase quebrar a sua mandíbula durante as últimas agressões.
— Sim. Ele tem um longo histórico de agressão, não apenas contra a senhora, mas contra outras mulheres. E, com o seu pedido formal agora e os exames de corpo de delito, será impossível ele escapar das garras da lei. — E lá estava novamente aquele olhar.
Por mais que o homem tentasse disfarçar, ele não conseguia. Cara não o culpava. O seu último encontro com o ex-marido tinha lhe rendido um braço quebrado, três costelas fraturadas e uma fratura no pulso. Fora os hematomas pelo rosto e corpo. Ela estava acabada, mas, ao mesmo tempo, aliviada por saber que Arthur não encostaria mais nela — ao menos era o que ela esperava.
— Vamos deixar com a senhora um pequeno dispositivo. Se ele se aproximar, basta apertar o botão e a viatura mais próxima será designada para onde a senhora estiver. — diz o outro policial, pegando um pequeno aparelho e mostrando a ela como funcionava.
Cara observa o minúsculo dispositivo na palma da mão com atenção. Ela sabia que, se Arthur quisesse matá-la, aquele aparelho não adiantaria de nada.
— Obrigada. — responde com dificuldade.
— Se precisar de nós, basta ligar, senhora. Queremos encontrar o senhor Arthur o mais rápido possível, para que ele pague pelo que fez.
Cara apenas assente, e os policiais partem. Ela suspira aliviada ao vê-los sair. A sua vida estava um caos. Lágrimas descem por seu rosto ao pensar que a pessoa a quem tinha dedicado a sua vida a tratara daquela forma nos últimos meses. Nada era pior do que a vergonha que invadia o seu peito — vergonha do que seu filho teve que ver, vergonha de não ter sido forte o suficiente para impedir que Arthur continuasse a agredi-la daquela forma.
— Cara! — diz uma voz preocupada. Quando Cara ergue a cabeça, encontra o olhar de Lúcia sobre si.
Cara não consegue se segurar e cai no choro diante da amiga. Lúcia corre até ela, os seus cabelos cacheados uma massa ao redor do rosto enquanto puxava Cara para seus braços.
Lúcia odiava ver a amiga daquela forma. Jamais pensou que seu irmão um dia chegaria àquele ponto. Cara era apenas uma casca vazia da mulher que Lúcia um dia conheceu. O seu sorriso estava apagado e a alegria que antes brilhava no seu rosto havia sumido.
— Não chore mais, querida. Aquele canalha não merece as suas lágrimas. — diz ela, acariciando os cabelos de Cara. — Já prestei o meu depoimento à polícia. Quero que ele pague pelo que te fez.
Cara se desvencilha dos seus braços e encontra os seus olhos castanhos a observando com pesar.
— Onde está o Gael? — pergunta, referindo-se ao filho de seis anos que tinha.
— Não se preocupe, deixei ele com uma amiga. Não quero que ele te veja dessa forma. — diz ela, com um suspiro.
— Obrigada. — responde Cara. Ela também não queria que o filho a visse daquele jeito. Já tinha sido demais ele ter presenciado toda a agressão que ela sofreu.
— Não me agradeça. Quero ver vocês dois bem, e longe daquele canalha. — diz ela com o rosto fechado, uma ruga se formando na testa enquanto os lábios se fechavam numa linha rígida.
— Não sei o que faria sem você, Lúcia. — diz Cara, segurando as mãos dela.
— Eu estou com você, Cara. Vamos ficar bem. — diz ela, tranquilizando-a. — Já acertei tudo com o dono do apartamento. Vamos nos mudar assim que você sair daqui, para um lugar onde Arthur não saiba.
Aquela era a vida que Cara teria dali em diante — teria que se esconder se quisesse continuar viva.
— Para onde vamos? — pergunta Cara.
— Já conversei com o pessoal do meu trabalho. Eles têm uma filial em outra cidade, pedi transferência para lá. — diz ela com um sorriso.
— Não pode fazer isso, a sua vida é aqui, Lúcia. — diz Cara, preocupada.
— Você e o Gael são minha família, Cara. Quero ver vocês bem. E mudar de cidade não é nada demais. Quem sabe eu não encontre uma pessoa legal por lá? — diz ela, piscando para Cara.
Cara sorri de forma desajeitada para a cunhada. Lúcia sempre tinha sido maravilhosa com ela, o apoio que Cara não teve desde que seus pais partiram muito cedo.
Quando Cara conheceu Arthur, apaixonou-se por seu jeito doce e charmoso. Ele era educado e cuidava muito bem dela. Logo se casaram e tudo parecia bem — até que Arthur começou a beber. Então tudo virou um caos. m*l conseguia pagar pelas bebidas que consumia, e por várias vezes Cara foi obrigada a pedir ajuda a Lúcia.
Quando Cara ficou grávida, Arthur jurou mudar, pelo bem da família que estavam começando. E, por um tempo, ele mudou. Mas logo o vício falou mais alto e ele voltou a beber. Cara sonhava que se casaria e viveria feliz para sempre com o homem que tinha escolhido. Ela nunca esteve tão errada.