Recomeço

1100 Words
Meses depois... Cara estava animada naquele dia. Ela havia conseguido uma entrevista de emprego e esperava que desse certo dessa vez. Os últimos meses tinham sido difíceis: ela, seu filho e sua cunhada tinham se mudado de cidade. Tudo tinha sido feito de forma rápida, e a polícia tinha ajudado a manter a discrição. Arthur tinha literalmente desaparecido depois do que havia acontecido, e ela estava bem mais tranquila com isso. Para Cara, o mais difícil tinha sido a conversa que teve com Gael. O menino não tinha sido o mesmo depois do que viu: estava sempre observando os arredores e qualquer coisa o incomodava — algo que fazia o coração de Cara sangrar. Durante aqueles meses, ela tinha se recuperado bem, sempre sob os olhos atentos de Lúcia, que a havia proibido de arrumar qualquer emprego enquanto não se recuperasse totalmente — algo que vinha incomodando Cara terrivelmente. Ela não queria se sentir um parasita nas costas de sua cunhada. Era grata pela ajuda que Lúcia estava lhe dando e queria poder fazer mais por ela também. Foi com essa ideia que acordou cedo naquele dia para uma entrevista de emprego. Cara havia arrumado Gael para a escola e o deixado no ponto de ônibus com as outras crianças. Ela era uma mãe orgulhosa de seu filho e da forma como ele era independente. Para sua surpresa, Lúcia havia escolhido uma cidade do interior para trabalhar, algo que não combinava com sua personalidade agitada. Era um polo agrícola com grandes empresas e em constante expansão. Cara esperava conseguir um emprego em breve e, finalmente, ter meios de alugar uma casa para morar com o filho — algo que Lúcia era totalmente contra. Cara pegou sua bicicleta e partiu pela ciclovia. Ela estava decidida a conseguir aquele emprego de qualquer forma. Lúcia não sabia que ela sairia para procurar emprego; ainda tinha medo de que algo pudesse lhe acontecer, algo que Cara achava ser besteira, mas sempre carregava o dispositivo que a polícia havia lhe dado na bolsa. Minutos depois, ela parou diante de uma construtora, uma das maiores da cidade. Cara tinha ouvido no jornal que estavam contratando e esperava conseguir a vaga de assistente administrativo. Estacionou sua bicicleta com cuidado e, usando o espelho de um carro ao lado, examinou mais uma vez sua aparência. Seus cabelos pretos caíam nas costas sem nenhum fio fora do lugar, seus olhos castanhos brilhavam em expectativa, sua pele clara estava um pouco rosada do esforço que tinha feito ao pedalar até ali, e o batom nude em seus lábios estava impecável. Ela estava pronta para entrar. Cara abriu a porta da empresa, admirada com o tamanho do lugar, e caminhou lentamente até a recepção. — Bom dia, senhorita. Como posso ajudá-la? — perguntou a recepcionista com um sorriso gentil. — Vim para a entrevista de emprego — respondeu ela. — Claro. Qual o seu nome? — Cara Rodriguez. — Bem-vinda, senhorita Cara. Vou avisar que chegou. Fique à vontade — disse a mulher, mostrando algumas poltronas. Cara caminhou até elas e se sentou, aguardando. Não demorou e um homem se aproximou dela com um sorriso no rosto. — Cara? — perguntou ele, estendendo a mão. — Sim — disse ela, aceitando o cumprimento. — Eu sou Ítalo e farei a sua entrevista. Me acompanhe, por favor. — Ele a guiou até uma sala. — Sente-se, por favor. Cara se sentou e esperou que ele começasse, os seus olhos examinando discretamente a imponência do escritório. — Examinei o seu currículo com atenção e percebi que não tem experiência nessa área — disse ele. — Sim, tive poucas oportunidades, mas sou uma pessoa comprometida e aprendo rápido — disse ela. — Não tem curso superior? — Não. Sempre trabalhei desde cedo, então não tive muito tempo, mas, se a empresa me der essa oportunidade, prometo ingressar em um curso para melhorar o meu desempenho — disse ela. — Gosto disso, senhorita Cara: pessoas que se esforçam pelo que querem. Prometo levar em consideração suas palavras. Mas não vou mentir: precisamos de alguém com experiência na função no momento. Se surgir uma oportunidade futura, lembrarei de você — disse Ítalo, levantando-se. — Obrigada pela atenção, senhor Ítalo, mas, se me permite, gostaria de dizer algo. — Vá em frente — respondeu ele. — Se as empresas não derem oportunidades, jamais ganharemos experiência. Obrigada pela sua atenção — disse ela, saindo em silêncio. Ítalo observou a mulher partir com um misto de sentimentos, mas, infelizmente, não poderia fazer nada. Era o protocolo da empresa e ele precisava segui-lo. Contudo, lembraria dela se surgisse uma nova oportunidade. Cara segurava as lágrimas enquanto deixava a empresa. Despediu-se das recepcionistas e pegou sua bicicleta no estacionamento. Uma lágrima traidora escapou dos seus olhos e ela a enxugou rapidamente. Não permitiria que aquela entrevista fosse seu fim; outras viriam, e tinha certeza de que encontraria algo bom. Enquanto pedalava de volta para casa, deixava que os seus pensamentos vagassem. O máximo que podia fazer era preparar uma refeição quente para Lúcia como forma de agradecimento pelo esforço dela em cuidar dela e de Gael. No caminho, Cara viu um carro elegante parado na beira da estrada, com os faróis de alerta ligados, indicando um problema. Ao se aproximar, percebeu que o dono do veículo tinha o braço preso em uma tipoia e, teimosamente, tentava colocar o macaco debaixo do carro para trocar o pneu. — Não devia fazer isso — disse ela, aproximando-se. O homem ergueu a cabeça, pronto para dar uma bronca em quem o repreendera, mas, ao encontrar aqueles olhos castanhos gentis, sua raiva evaporou. — Me deixe ajudá-lo — disse ela, colocando a bicicleta de lado e pegando o macaco da mão dele. — E quem disse que não sei trocar um pneu? — perguntou ele, arqueando a sobrancelha. — Não disse isso, mas, pelo que vejo, o seu braço está machucado. É melhor não forçá-lo mais — respondeu ela, enquanto suspendia o carro com agilidade. — Me pegou — disse ele, sorrindo. — Eu sou César. Cara observou a mão estendida do homem à sua frente e a apertou com um sorriso. Reparou que ele era bonito: tinha cabelos grisalhos que revelavam sua idade, um sorriso atraente em seus lábios pequenos, pele morena e olhos castanhos. — Muito prazer, César. Eu sou Cara e, se me permitir, cuidarei desse problema para você — disse ela, sorrindo. O dia de Cara não estava sendo bom, mas isso não significava que não pudesse melhorar o dia de outra pessoa. E era exatamente isso que faria por César.
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