O silêncio no corredor do hospital era cortado apenas pelo som distante de passos apressados e pelo tilintar metálico de macas sendo deslocadas. Rycon mantinha o olhar fixo em Cara, os braços cruzados sobre o peito, a postura rígida como uma muralha. Ele não a deixaria se safar daquela vez; teria respostas, mesmo que precisasse arrancá-las dela à força.
— Você vai me dizer o que está acontecendo, Cara? — perguntou em tom grave, cada palavra carregada de uma calma ameaçadora.
Cara desviou os olhos, insegura, as mãos trêmulas repousando sobre o colo. Ao lado dela, Lúcia observava tudo em silêncio, mas não conseguia esconder a curiosidade. O seu olhar se demorava em Rycon, como se tentasse compreender que espécie de homem estava diante delas. No dia em que o tinha visto pela primeira vez, não havia notado aquele aspecto dele, mas não podia negar que estava na hora de Cara falar sobre o que tinha acontecido.
Antes que Cara pudesse responder, a porta de entrada se abriu com um estalo, revelando Geovani. Ele atravessou o corredor com passos firmes, uma pasta preta sob o braço. Sem sequer pedir licença, estendeu-a a Rycon.
— O que você queria saber... está aqui.
Rycon estreitou os olhos ao receber a pasta. Não teve tempo de abrir, pois Geovani se voltou para Lúcia. Com um gesto repentino, puxou-a para si e a beijou nos lábios, deixando todos atônitos.
— Meu amor. — murmurou ele, com naturalidade.
O rosto de Lúcia ruborizou imediatamente. Ela afastou-se de leve, lançando-lhe um olhar repreensivo. Não sabia onde enfiar a cara ao perceber todos olhando para eles.
— Geovani! Aqui não é lugar para isso...
Cara abriu a boca, surpresa, pronta para questionar o que aquilo significava, mas a voz de Rycon cortou o ar como uma lâmina.
— Deixe isso para depois. — disse ele, erguendo a pasta nas mãos. Os seus olhos fixaram-se em Cara com intensidade. — Então, vai me dizer o que quero saber? Ou vou precisar ler o que está escrito aqui?
Os olhos de Cara se arregalaram, o sangue subindo-lhe ao rosto. A fúria explodiu como um relâmpago.
— Você... mandou me investigar?! — levantou-se de um salto, o corpo inteiro tremendo de indignação. — Como ousa? Não tinha o direito de se meter na minha vida sem a minha autorização!
Rycon manteve-se imóvel, mas sua voz soou ainda mais firme:
— Eu fiz o que precisava ser feito. Se você não é capaz de me dizer a verdade, então eu vou encontrá-la por conta própria.
— Verdade?! — a voz de Cara vacilou entre o choro e a raiva. — Você não entende nada!
A tensão entre os dois crescia como uma tempestade prestes a desabar, quando uma terceira voz os interrompeu.
— Por favor. — o médico aproximou-se, com expressão calma, mas séria. — Gael está bem.
Cara se virou imediatamente, o coração disparando.
— Ele... ele está bem mesmo?
— Sim. — confirmou o médico, com um aceno de cabeça. — Ele sofreu um episódio de crise intensa. Dei um calmante para que pudesse descansar e, em breve, teremos os resultados dos exames.
Um suspiro de alívio escapou dos lábios de Cara, as lágrimas voltando a correr.
— Eu... eu posso vê-lo?
— Claro. — o médico sinalizou para uma enfermeira. — Leve-os até o quarto.
Cara m*l esperou. Seguiu a enfermeira apressada, os passos ansiosos quase tropeçando no próprio desespero. Quando abriu a porta do quarto, viu Gael deitado na cama, a respiração calma, o rosto sereno no sono profundo induzido pelo medicamento.
— Graças a Deus... — murmurou, aproximando-se para acariciar-lhe os cabelos, finalmente permitindo que o peso de todo o medo começasse a ceder.
Atrás dela, Rycon observava em silêncio. As perguntas ainda queimavam dentro dele, os papéis na pasta pesavam como chumbo em sua mão. Mas, por ora, apenas o som tranquilo da respiração do menino preenchia o quarto, lembrando a todos que, por mais segredos que houvesse, o que realmente importava estava ali, adormecido diante deles.
Os olhos de Cara estavam turvos e, a cada respiração de Gael, ela sentia o peso do que tinha acontecido tomar conta do seu corpo. As lágrimas silenciosas deram lugar a pequenos soluços, que cresceram até que o choro desesperado dela invadisse o quarto de forma sufocante. O que movia Cara era a culpa. Ela sabia que seu filho estava daquela forma por sua negligência, por ignorar o que ele tinha e fingir que tudo estaria bem — e não estava.
As lembranças pesavam em sua mente e, a cada vez que recordava o que o filho havia vivido ao longo dos anos, o seu coração doía ainda mais. Ela devia protegê-lo. Ele era sua obrigação e ela havia falhado miseravelmente naquela tarefa. Cara levou as mãos aos lábios, tentando conter o choro que fazia todo o seu corpo se sacudir.
Rycon não sabia o que fazer. O que estava diante dos seus olhos era bem mais do que dor: era como se ele pudesse sentir o arrependimento, a culpa e o sofrimento de Cara. E ele não esperava por aquilo. Sem poder se conter, caminhou a passos lentos até ela e apenas a puxou para seus braços. Rycon pensou que ela resistiria, mas Cara apenas se permitiu desabar em seu abraço, a mão dela segurando com força seu terno, enquanto o choro era abafado por sua camisa.
Lúcia observava a cena da porta com lágrimas nos olhos. Já tinha visto Cara m*l, mas nunca daquela forma. Quando deu um passo para entrar, a mão de Geovani a segurou no lugar.
— Deixe que eles se acertem, Lúcia. — disse ele. Geovani sabia que seu chefe era um bom homem e que aquela aparência rude era apenas uma fachada que usava para afastar as pessoas.
— Mas...
— Eles vão ficar bem. O senhor Vasquez cuidará deles. — disse, puxando-a para si e fechando a porta.
Com um suspiro consternado, Lúcia deixou-se levar por Geovani.