O cheiro de feno fresco misturava-se ao som dos cascos batendo no chão de terra. Rycon terminava de organizar as baias quando ouviu passos apressados. Gael entrou pelos estábulos com os olhos brilhando e um sorriso largo.
— Rycon! — chamou, quase sem fôlego. — Eu ajudei a alimentar um dos bezerros! Ele até tentou lamber a minha mão!
Rycon não conteve a risada diante da animação do menino. Algo que para ele era apenas cotidiano, para Gael era um grande acontecimento.
— Ora, ora... parece que temos um verdadeiro fazendeiro por aqui. — E, inclinando-se um pouco, perguntou com ar divertido: — E que tal agora uma volta de cavalo?
Os olhos de Gael se acenderam ainda mais. Ele deu pequenos pulos, batendo palmas como se tivesse acabado de receber o melhor presente do mundo.
— Está falando sério? — perguntou, sem poder conter a animação com aquela notícia.
— Muito sério. — respondeu ele.
Rycon escolheu uma égua manchada, calma e dócil. Enquanto a selava, foi mostrando cada gesto a Gael, explicando a função de cada peça. O menino observava atento, tentando imitar os movimentos.
— Pronto. — disse Rycon, erguendo Gael e ajudando-o a sentar. Depois subiu também, acomodando-o à frente de si. — Segura firme.
Eles partiram em passo tranquilo até o pasto mais próximo. O vento leve bagunçava os cabelos de Gael, que não parava de olhar ao redor, maravilhado com a imensidão verde e o balanço suave do animal.
— Isso é muito bom. — disse Gael, animado.
— Sim. Eu também gosto muito de andar a cavalo. — respondeu ele.
Aproveitando o momento de distração, Rycon resolveu fazer a pergunta que estava perturbando a sua mente há algum tempo.
— Gael... e o seu pai? Não o vejo por perto.
O menino respondeu quase sem pensar:
— Ele não pode chegar perto de mim nem da mamãe.
Rycon franziu o cenho, surpreso. Ele não esperava aquela resposta do menino.
— Não pode? Por quê, pequeno?
Gael hesitou, mas acabou dizendo, num sussurro:
— Porque... porque ele fez coisas feias...
Assim que se deu conta do que havia falado, parou bruscamente, virando-se para Rycon com os olhos cheios de medo. O corpo pequeno tremeu, como se esperasse uma repreensão ou castigo. As palavras de sua mãe lhe vieram à mente, fazendo-o questionar o que tinha dito.
Rycon sentiu um aperto no peito. Colocou a mão sobre o ombro do menino, tentando transmitir calma. Vendo o desespero de Gael, arrependeu-se de ter deixado a sua curiosidade falar mais alto.
— Shhh... — murmurou, em tom baixo e firme. — Não se preocupe. Isso fica só entre nós dois, está bem? É o nosso segredo.
Gael hesitou, mas a expressão séria de Rycon lhe trouxe confiança. Lentamente, os traços tensos do rosto do menino se suavizaram. Ele assentiu, e um sorriso tímido reapareceu. Logo voltou a rir com o trotar da égua, distraindo-se de novo com as maravilhas ao redor.
Mas Rycon não conseguiu partilhar daquela leveza. Enquanto mantinha o animal no caminho, a mente girava como um redemoinho. "Coisas feias". Aquelas palavras ecoavam, pesadas, trazendo consigo perguntas sombrias. O que Cara estaria escondendo? Que segredos envolviam o passado daquela família?
Depois de alguns minutos, eles retornaram ao estábulo. Rycon entregou a égua aos cuidados de um dos seus funcionários e seguiu para casa ao lado de Gael. Assim que passaram pela porta, ouviram a risada de Cara encher o lugar.
— Vocês demoraram. — disse Mira quando os viu.
— Estava cavalgando com o Gael, ele gostou bastante. — disse Rycon.
— Estavam com a Princesa? — perguntou Mira.
— Sim, você sabe que ela é a melhor. — respondeu ele com um pequeno sorriso. Princesa era a égua mais mansa que havia ali; sua raça era muito dócil e fácil de domar.
— Vá se lavar, o almoço já está pronto. — disse Mira.
— E o papai e Luka?
— Já estão vindo, seu pai o tinha levado para ver alguns dos animais da pesquisa.
— Tudo bem. — respondeu ele, virando-se e saindo.
Rycon podia sentir os olhos de Cara em suas costas, mas apenas ignorou aquela sensação e deixou a cozinha sem olhar para trás. Entrou em seu quarto e pegou o telefone. Já estava na hora de Geovani tê-lo atualizado sobre o que havia pedido. Fez a ligação e rapidamente o seu assistente atendeu.
— Fez o que eu te pedi? — perguntou, indo direto ao ponto. Ele não gostava de ser enrolado, e todos sabiam que uma ordem sua tinha que ser cumprida, não importando os meios.
— Fiz, senhor, mas nosso homem está fora resolvendo algo. Eu sei que o senhor não confiaria em outra pessoa para fazer o serviço, mas conversei com ele e ele garantiu que me atualizaria assim que retornasse. — explicou Geovani, antes que seu chefe ficasse furioso com a demora.
— Me mantenha informado sobre tudo, e diga a ele que tenho pressa com essas informações. Pago o dobro se conseguir o que preciso em menos tempo. — disse Rycon.
A linha ficou muda por alguns segundos enquanto Geovani absorvia o que seu chefe acabara de dizer. O investigador já cobrava uma pequena fortuna por seus serviços, e ainda assim Rycon oferecia mais dinheiro para acelerar o processo. Sem dúvida, estava ansioso pelo resultado.
— Claro, senhor, vou avisá-lo.
— Faça isso. — disse Rycon, desligando.
Rycon raramente errava sobre algo, e tinha absoluta certeza de que havia algo errado na vida de Cara. Primeiro, ela havia tido claramente um ataque quando ele a segurou na empresa. Depois, o que Gael tinha dito no jantar, e agora, o medo estampado nos olhos do menino ao perceber que havia falado demais. Não... aquilo não estava certo, e Rycon faria questão de descobrir o que não estavam lhe contando.