O silêncio ainda pairava no escritório, pesado, depois da revelação de Rycon. Mas, de repente, César soltou uma risada curta, abafada, que logo se transformou em gargalhada. Ele não podia acreditar no que seu filho tinha feito.
— O quê? — Rycon o encarou, confuso, franzindo o cenho. Ele não gostava daquela risada dele, ainda mais sendo endereçado a ele.
— Você... — César tentava falar, mas ria tanto que precisou se apoiar na mesa. — Você beijou a Cara para acordar ela do cochilo!?
Rycon, sério como sempre, apenas cruzou os braços. Ele ainda tentava entender o que seu pai estava achando engraçado em tudo o que ele tinha lhe contado.
— Qual o problema? Funcionou. — Diz ele dando de ombros.
César ria ainda mais. Lágrimas já surgiam em seus olhos de tanto rir.
— Funcionou!? Meu filho, você parece um adolescente apaixonado que não sabe nem puxar conversa! Quem em sã consciência acorda uma mulher com um beijo? Isso é coisa de novela barata!
Rycon suspirou, tentando se conter, mas a impaciência transparecia.
— Pai, não é engraçado. Eu... eu gosto dela.
— Eu sei, eu sei... — César tentou se recompor, mas logo voltou a rir. — Mas precisava ser desse jeito? Você com todo esse tamanho, essa cara fechada de quem mete medo até em policial armado... e a melhor ideia que teve foi “roubar” um beijinho de quem estava dormindo?
Rycon desviou o olhar, claramente incomodado.
— Eu não roubei nada. Eu disse.
— Claro, claro... — César assentiu, fingindo concordar. — Você só “pegou o que é seu”. Ô, Romeu da tragédia grega...
Dessa vez, Rycon revirou os olhos, mas a seriedade dele só alimentava ainda mais a diversão do pai.
— Escuta, filho... — César se sentou novamente, limpando as lágrimas de tanto rir. — Você pode ser frio como gelo quando se trata dos outros, pode até parecer um general numa guerra... mas quando o assunto é mulher, você não passa de um garoto perdido.
Rycon bufou, mas a boca dele quase se curvou num sorriso — quase. Sei pai o conhecia bem, sabia que ele não tinha paciência para o romance tradicional, o que era um dos motivos por ele nunca ter se interessado em ter uma namorada, o outro era por que ele não tinha paciência para o romance.
— Pai, eu não sou desajeitado.
— Não? — César levantou uma sobrancelha, sarcástico. — Então por que pareceu que você estava descrevendo um plano de operação militar só pra dar um beijo?
— Você não entende.
— Não entendo? Ah, eu entendo muito bem. — César se inclinou para frente, com um sorriso maroto. — Você está apaixonado e não sabe nem onde pôr as mãos.
Rycon, por fim, soltou um suspiro derrotado.
— Eu só... não sei como agir perto dela. — Diz com os dentes trincados de raiva. Admitir aquilo era como se alguém estivesse pisando em seu orgulho.
César sorriu, desta vez mais suave, mas sem perder o tom brincalhão.
— Então começa simples, filho. Em vez de beijos-surpresa, experimenta um “oi, tudo bem?” da próxima vez. É mais eficiente e menos arriscado de levar um tapa.
Rycon encarou o pai, sério, mas dessa vez o canto da boca denunciou um esboço de riso.
— Você não vai deixar eu esquecer disso, vai?
— Nunca. — César gargalhou. — Esse vai ser meu presente de família, a lembrança eterna de que o meu filho, o durão da cidade, perde completamente o rumo quando vê uma mulher bonita.
E, pela primeira vez em muito tempo, o escritório encheu-se de uma leveza que nem mesmo as sombras da noite conseguiram apagar.
— Ela é minha pai, não importa o que Cara disser, ninguém vai ser tão bom para ela quanto eu. — Diz Rycon servindo um pouco de bebida para ele e César.
— Eu também acho que ela é sua combinação perfeita. Cara sabe como lidar com você e te colocar na linha, vocês são perfeitos um para o outro.
Rycon suspira com as palavras do pai, mas não diz nada. Se fosse para ter Cara ao seu lado, ele não se importava em ceder, pelo contrário, achava que seria bem prazeroso.
— Vou cuidar dela, vou garantir que ela esteja segura mesmo contra a sua vontade.
Rycon entendia que Cara não era alguém que gostava do favor dos outros, ela se orgulhava de ser independente e de cuidar das suas coisas, Rycon também podia ver que parte daquela aspecto dela se devia aos abusos sofridos, antes Cara dependia do ex marido e agora, ela se recusava a voltar a mesma situação de dependência.
— Sei que vai filho, isso é algo que confio em você com os olhos fechados.
César não tinha criado um menino, ele tinha criado um homem que desde sedo sabia o seu papel na sociedade e em sua família. E agora olhando para o homem que o filho tinha se tornado César percebia com orgulho que tinha feito um bom trabalho com o seu garoto.
— Parem com isso vocês dois. — diz Mira entrando no escritório. — Quando vai pedi-la em casamento? Já comprou as alianças?
Os dois olhavam para Mira com olhos arregalados sem entender nada.
— Por que estão me olhando com essa cara? — Pergunta ela chateada.
— O que você ouviu? — Pergunta Rycon.
Mira caminha até ele e agarra a sua orelha apertando.
— Quer parar mãe, já não tenho idade para isso. — Diz Rycon retirando a mão dela da sua orelha de forma gentil.
— Não fale com a sua mãe desse jeito, e estava apenas passando quando ouvi a risada de César. — Explica ela.
Rycon olha para o pai com olhos sombrios.
— Não me olhe assim, não consegui evitar. — Se justifica.
— Esqueçam isso, — diz Mira entrando na frente de Rycon. — estavam falando da Cara não é mesmo?
Todos podiam ver nos olhos de Mira a expectativa da resposta deles.
— Sim, estavamos. — Responde Rycon.
— Graças aos cus, agora posso começar a planejar o noivado de vocês. — Diz ela animada enquanto sai pela porta.
— Mãe... mãe espere.... — era tarde Mira já tinha partido um uma lista em sua mente do que deveria fazer.