César ria da cara do filho ao sair do elevador. Ele não havia gostado de sua piada, mas aquilo não o incomodava; já estava acostumado com o jeito do filho.
— Senhor, bem-vindo de volta. — disse a secretária, levantando-se assim que viu César.
— Olá, Ivy. É bom saber que ainda está por aqui. — disse César, encarando o filho com a sobrancelha arqueada.
— Me recuso a responder isso. — disse Rycon, entrando em seu escritório sem olhar novamente para o pai.
César apenas acompanhou o filho e sentou-se no sofá de sua sala.
— Vou pedir para que divulguem a vaga para minha assistente. Pretendo contratar alguém ainda hoje. — disse ele, decidido.
César podia ter um humor ácido às vezes, mas reconhecia a sua importância para o bom andamento da empresa e não deixaria mais trabalhos pesados sobre as costas do filho. Rycon já tinha muito com o que lidar.
— Faça isso. Vou revisar alguns documentos. — disse ele, sentando-se à sua mesa e pegando a pilha de papéis no canto.
Infelizmente, Rycon era um homem muito desconfiado e fazia questão de verificar tudo antes de assinar qualquer documento.
César deixou a sala e foi até o RH da empresa. Queria resolver logo aquilo e esperava encontrar alguém de confiança para estar ao seu lado.
— Olá, Lana. — disse César ao entrar no setor de RH.
— Graças aos céus que o senhor está aqui, senhor César. — disse a mulher de meia-idade, retirando os óculos do rosto e massageando os olhos.
— O que houve? — perguntou ele, preocupado.
— Tem sido difícil nos últimos dias com o senhor Rycon. — disse ela com um olhar sugestivo.
César olhou para a mulher e começou a rir. Ele sabia que seu filho era difícil, mas não imaginava que estivesse provocando tanto caos em sua ausência.
— Não se preocupe, querida. Vou resolver tudo. — disse ele de forma tranquila.
— Espero que sim, senhor César. Mas o que posso fazer por você hoje?
— Preciso que divulgue uma nota urgente. — disse ele, prendendo a atenção da mulher. — Preciso de uma assistente pessoal, ainda para hoje.
— Será difícil encontrar alguém assim tão rápido. — disse ela, pensativa.
— Se isso não acontecer, vocês vão passar mais tempo com meu filho. — disse ele com a sobrancelha arqueada.
O rosto da mulher empalideceu com as palavras de César.
— Farei imediatamente uma divulgação em todas as mídias disponíveis, senhor. Até de tarde o senhor terá sua assistente pessoal. — disse ela com um olhar determinado.
Lana tremia apenas ao pensar em passar mais um dia lidando com os problemas que Rycon causava com a sua presença na empresa. Ela preferia mil vezes lidar com César, que era mais tranquilo e compreensivo, do que com o filho de pavio curto.
— Isso é bom. Vou ficar por aqui até de tarde. Quando encontrar a pessoa ideal, mande-a para minha sala para ver se serve para mim.
— Farei isso, senhor. — disse ela, já se virando para o computador.
César sorriu. Ele entendia o motivo de seu filho ter pulso firme na empresa. Se ele não tivesse um bom controle sobre o que acontecia, as coisas poderiam virar uma bagunça, e não era isso que eles queriam.
— César! Preciso falar com você. — disse um acionista, marchando em sua direção.
César praguejou ao ver o homem.
— Olha, Roberto, estou um pouco ocupado agora. — disse, tentando se desvencilhar dele.
— Vai ser rápido. — disse Roberto, puxando César para o refeitório.
César pegou o seu café e sentou-se a uma das mesas. Já imaginava o que viria a seguir e sua paciência estava curta.
— Assuma a presidência. — disse Roberto de uma só vez, fazendo César quase engasgar com o café.
— Você ficou louco! — disse, em voz baixa.
— Não. Estou com a mente bem sã. Com todo respeito, seu filho não serve para isso. A última reunião foi um fracasso e ele ainda nos ameaçou como se não fôssemos nada. — disse o homem, trincando os dentes de raiva.
— Meu filho pode ter alguns problemas de personalidade, Roberto, mas você não pode negar que a empresa cresceu bem mais depois que ele assumiu. — respondeu César, sério. Odiava que falassem assim de seu filho.
— Isso é irrelevante. Ele não serve para esse cargo.
Roberto levou um susto quando uma mão segurou com força seus ombros, apertando-os. À sua frente, César tentava segurar o riso com o que via.
— Então eu não sirvo para o que faço. — disse Rycon, apertando ainda mais os ombros do homem, fazendo-o encolher na cadeira.
— Não foi isso que eu...
— Vai voltar atrás no que disse, Roberto? — perguntou Rycon, soltando-o e colocando-se à sua frente.
Roberto queria desaparecer ao ver a forma como Rycon o olhava. Ele estava além do ódio.
— Me desculpe, senhor Rycon, mas é apenas a verdade. — disse o homem.
— Vocês! — gritou Rycon no refeitório, chamando a atenção de todos. — Eu sou incompetente?
As pessoas olharam com os olhos arregalados, sem ousar responder.
— RESPONDAM!
— A empresa cresceu com o seu gerenciamento, senhor. Isso prova sua competência. — disse Geovani, entrando no refeitório com um tablet nas mãos.
— Obrigado por esclarecer, Geovani. — disse Rycon. — Providencie a compra das ações de Roberto.
— Você não pode fazer isso! — disse Roberto, desesperado.
— Em primeiro lugar, fale baixo, você não está na sua casa. Em segundo, as ações são do seu pai, e duvido que ele não venda pelo valor que vou oferecer. — disse Rycon com um sorriso de canto.
— Senhor, o senhor Souza aceitou vender as ações. — disse Geovani ao telefone.
— Feche pelo valor que ele pedir. — respondeu Rycon tranquilamente. — E chamem a segurança para escoltar o senhor Roberto para fora da minha empresa.
— Claro, senhor. — disse Geovani, tranquilo.
— Você não pode fazer isso! Eu trabalho nesta empresa há anos!
— Não trabalha mais. — disse Rycon, virando as costas quando os seguranças entraram no refeitório.
Rycon saiu com um sorriso no rosto. Se as pessoas pensavam que o manipulá-lo seria tão fácil quanto haviam feito com seu pai, estavam redondamente enganadas.