Rycon estava sentado na beira da cama, os cotovelos apoiados nos joelhos, a cabeça enterrada nas mãos. O arrependimento o consumia como fogo lento. As imagens do que havia feito com Cara se repetiam em sua mente — a raiva descontrolada, o toque duro, o beijo imposto. Aquilo não era ele. Ou era?
Com um suspiro pesado, arrancou a camisa, deixando-a cair no chão, e afrouxou a cinta que apertava a calça. Passou a mão pelos cabelos, desordenando-os ainda mais, e murmurou um palavrão baixo. Precisava respirar. Precisava de algo que o tirasse daquele turbilhão.
Desceu as escadas a passos firmes, a pele ainda quente da confusão que lhe devorava o peito. Quando entrou na cozinha, Marta ergueu os olhos do fogão. Ao vê-lo sem camisa, arqueou as sobrancelhas e lhe lançou um olhar de reprovação carregado.
Aquela não era a primeira vez que Rycon aparecia em sua cozinha daquela forma, e ela sabia que não seria a última, mas mesmo assim não deixaria de tentar.
— Já disse mil vezes, menino, que não é pra aparecer sem roupa na minha cozinha! — resmungou, batendo a colher de p*u contra a panela.
Rycon riu de canto, puxou uma cadeira e se sentou sem pressa, servindo-se de uma xícara de café fumegante. Aquela era uma velha disputa entre ele e Marta, mas ele adorava deixá-la irritada às vezes.
— Ora, Marta, você já devia estar acostumada. Essa é a minha casa. Ando nela como bem quiser.
Ela não esperou mais nada: ergueu a colher e deu-lhe uma batida certeira na cabeça.
— Malcriado! — ralhou, os olhos faiscando. — Essa aqui é a minha cozinha, e se continuar com essa língua afiada, eu mesma te expulso daqui!
Rycon suspirou fundo, levando a mão à cabeça onde o golpe havia acertado. Por um instante, os cantos de sua boca se ergueram num meio sorriso cansado.
— Está bem, está bem... — murmurou, levantando a outra mão em rendição. — Desculpa, Marta.
Ela bufou, mas um leve sorriso traiu o rosto endurecido. Serviu-se de café e puxou a cadeira ao lado dele, sentando-se com a familiaridade de quem conhecia cada sombra daquele homem.
Marta sabia que algo incomodava o seu menino. Havia trocado as suas fraldas e sabia decifrar cada pequena expressão que cruzava o seu rosto.
Por um instante, ficaram em silêncio, apenas o som do café sendo mexido preenchendo a cozinha. Marta o olhava de lado, o semblante pesado, como se pudesse ler além do que ele mostrava.
— O que foi agora, Rycon? — perguntou com a voz mais suave. — O que aconteceu pra você estar desse jeito?
O silêncio dele se prolongou. O café esfriava na xícara, e a respiração densa parecia pesar ainda mais no ar.
— Ainda me conhece bem, não é mesmo? — disse ele, com um sorriso cansado nos lábios.
— Tenho que te conhecer, ajudei a senhora a cuidar de você. — respondeu ela de forma firme. Aquilo era algo de que Marta se orgulhava, ainda mais ao ver como Rycon tinha crescido e se tornado alguém respeitável.
Rycon suspirou. Gostava de conversar com Marta porque sabia que ela não julgaria o seu comportamento. Ela era uma amiga e conselheira que sempre estava por perto quando ele precisava.
— Estava irritado e fiz besteira. — disse rapidamente, sem encarar os olhos de Marta.
— Essa não seria a primeira vez que você faz isso. Tem que ter alguma coisa nessa história. — disse ela com olhos perspicazes. — O que você não está me contando?
Rycon sorriu com as palavras dela. Era praticamente impossível esconder algo de Marta. Ele olhou para a cozinha, certificando-se de que estavam sozinhos.
— Não se preocupe, hoje sou apenas eu por aqui. — disse ela, entendendo o que ele fazia.
— Sempre esperta. — murmurou ele.
— Pare de me enrolar e vá direto ao ponto. — respondeu ela, colocando mais um pouco de café na xícara dele.
— Eu estava irritado e acabei descontando na pessoa errada.
— Isso não explica muita coisa, menino. Você vive fazendo isso. Os peões mesmo sabem muito bem e fogem de você como o d***o da cruz quando o veem de mau humor. — disse ela, segurando o riso com a careta que ele fez.
— Se eles fizessem o serviço direito eu não ficaria estressado. — retrucou ele, com a sobrancelha arqueada.
— Esqueça isso e continue. — disse ela, com um aceno de mão.
— Foi a Cara. Acho que você conheceu ela. — disse por fim.
Os olhos de Marta se arregalaram quando Rycon citou a mulher que estava com eles. Ela olhou bem para o seu menino e a sombra que havia nos olhos dele não passou despercebida. Marta sabia que Rycon era alguém de poucas palavras e, para estar falando sobre Cara com ela, significava que a mulher tinha um peso maior do que ele admitia.
— Ela parece ser alguém adorável. — disse Marta, recuperando-se da surpresa inicial.
— Ela tem é uma boca suja, e é muito m*l-educada. — resmungou ele na cadeira.
O espanto de Marta cresceu ao ver aquilo. m*l podia acreditar que o seu patrão estava gostando da mulher que os visitava.
— Você gosta dela. — disse com convicção.
— Ela me irrita, isso sim. — respondeu ele, emburrado.
— Mais uma prova de que gosta dela, e não está sabendo lidar com isso. — insistiu Marta, encarando-o fixamente.
Rycon bufou com as palavras dela. Aquilo já tinha passado por sua cabeça, mas era algo que ele se recusava a aceitar. Não, ele não poderia estar gostando de Cara. De forma alguma.
— Está errada. — disse por fim.
— Não estou, e o fato de você negar isso apenas me diz que estou certa. — respondeu ela com um sorriso no rosto. — Ela parece ser uma boa pessoa, jovem e gentil, e bem protetora com o filho. Está pronto para ser padrasto?
— Marta! — ralhou ele, fazendo-a rir.