23. Buarque

1263 Words
O café da manhã do hotel era calmo demais pro que eu estava acostumado. Aquele tipo de calma que parece artificial, onde tudo brilha e ninguém fala alto. As pessoas ali comiam devagar, riam baixo, liam jornais, como se o mundo não estivesse pegando fogo a poucos quilômetros dali. Eu observava tudo em silêncio, tentando entender o que diabos eu estava fazendo sentado numa mesa de família, com uma mulher e um garoto que não eram meus. Manuela estava à minha frente, os olhos atentos, mas o corpo cansado. Tinha o cabelo solto, meio bagunçado, e usava uma blusa simples que deixava ver o contorno do ombro. Ela parecia fora de lugar ali, o tipo de beleza crua que não combina com o brilho falso do asfalto. E, ainda assim, chamava mais atenção do que qualquer mulher com vestido caro naquele salão. Ítalo comia com uma fome que só criança tem. Falava pouco, mas o olhar curioso passava de mim pra mãe como se tentasse decifrar o que a gente era um pro outro. Eu fingia que não via. Fingir sempre foi uma das poucas coisas que aprendi direito. — Pode relaxar, capitão — ela disse, mexendo o café dela sem me olhar. — Aqui ninguém vai te atacar. — Acha mesmo? — Sorri de canto. — O perigo me segue onde eu vou. Ela levantou o olhar, e por um instante o ar pareceu pesar. Aquele olhar dela me desmontava de um jeito que ninguém conseguia. — Você devia parar de olhar pra mim assim — ela disse, num tom baixo, mas firme. — Assim como? — Como se tivesse tentando decidir se vai me interrogar ou me beijar. — Talvez eu esteja pensando nos dois. Ela desviou o olhar, mas eu vi o jeito como a respiração dela mudou. Eu não precisava tocar pra perceber. Essa era a diferença entre nós: eu lia as pessoas, ela sentia. Ítalo levantou o copo de suco, feliz, e eu acenei pro garçom trazer mais. O menino sorriu pra mim, e eu não soube como reagir. Não estava acostumado com isso, com afeto que não cobra nada. A verdade é que eu não tinha planejado nada disso. Não era o tipo de homem que "salvava" ninguém. Eu entrava, fazia o trabalho e saía. Simples. Mas, desde que pus os olhos nela naquele beco, nada mais foi simples. Ela era o tipo de mulher que te desafiava só por existir. O tipo que não devia cruzar o meu caminho, mas cruzou. E agora estávamos ali, dividindo café e silêncio, como se isso fosse normal. Olhei pra janela, o reflexo da cidade grande misturado com o céu limpo. Tudo parecia distante, calmo demais. O contraste com o morro ainda pulsando dentro da minha cabeça me deixava inquieto. Pensei na operação, nos corpos, nas casas destruídas. Pensei nos olhares das mães que ficaram. E, pela primeira vez em muito tempo, me perguntei se eu tinha passado do ponto, se ainda existia alguma linha que eu não tivesse cruzado. Por um momento, nossos olhos se prenderam, e algo passou entre nós, algo que eu não soube nomear. Não era ternura. Não era raiva. Era só aquele maldito reconhecimento: o de que nenhum dos dois conseguia escapar do outro. Ítalo chamou pela mãe, distraído, e ela se virou pra ele, ajeitando o prato com um gesto automático. Eu aproveitei o instante pra desviar o olhar. Acabei o café, deixei a xícara sobre o pires e me encostei na cadeira, observando os dois. Ela com o garoto no colo, tentando fingir que não estava exausta. E eu, um homem que não acreditava em salvação, parado ali, querendo proteger uma mulher que só me trazia confusão. O pior é que, olhando praquela cena, pela primeira vez em anos, uma ideia perigosa me atravessou: talvez eu quisesse ficar. Não por dever. Mas por ela. E isso era o tipo de pensamento que podia me destruir. (…) O clima no elevador era denso, o silêncio carregado de tudo que não tinha sido dito no café da manhã. Ítalo, cansado, encostava a cabeça no braço da mãe, já com sono de novo. Manuela não me olhava, mas eu sentia a tensão irradiando dela, um campo magnético que me puxava e me repelia ao mesmo tempo. A porta do quarto fechou com um clique baixo. O mundo exterior, aquele hotel calmo e artificial, desapareceu. Estávamos sozinhos num espaço pequeno, e o ar pareceu sair do lugar. Ela deixou Ítalo cair na cama grande, e o menino já fechava os olhos, vencido pelo cansaço. Manuela se virou para mim, os braços cruzados, uma muralha viva. — Então? — ela perguntou, o desafio intacto na voz. Eu não respondi com palavras. Avancei até ela em dois passos, fechando a distância que nos separava no café. Ela não recuou. Pelo contrário, ergueu o queixo, encarando o meu movimento como se fosse uma investida que ela já esperava. Agarrei seu rosto com as duas mãos, ásperas demais para a pele macia dela. O olhar que ela me devolvia era puro fogo, sem medo, sem hesitação. — Cansado de fingir, Manuela — gritei baixo, a voz um rosnado saído do fundo do peito. — Cansado de esperar. E então fechei minha boca sobre a dela. Não foi um beijo suave, de reconciliação ou de despedida. Foi uma tomada. Uma afirmação. A boca dela era quente e tinha uma raiva que espelhava a minha. Ela não se entregou de imediato; mordeu meu lábio inferior, uma picada rápida e dolorida que me fez rosnar de novo e aprofundar o beijo. Suas mãos subiram e se enterraram no meu cabelo, puxando, exigindo. Era um beijo cabuloso, daqueles que destravam mundos e derrubam muros. A língua era briga e posse. Eu conseguia sentir o coração dela batendo contra o meu peito, um tambor acelerado e selvagem. Separei por um segundo, ofegante, a testa encostada na dela. Os olhos estavam fechados, e ela soltou um suspiro rouco. — p***a — respirou. Peguei sua mão e puxei na direção do banheiro, sem cerimônia. — O que você está fazendo? — perguntou, mas o tom não era de protesto. Era de confirmação. — Tá achando que eu vou fazer isso com o moleque dormindo do lado? — revirei os olhos, abrindo a porta do banheiro e puxando ela para dentro. O banheiro era pequeno, de mármore frio. Eu a encostei contra a porta assim que ela fechou, travando. O beijo recomeçou, mais desesperado agora. Minhas mãos desceram do seu rosto para seu pescoço, para seus ombros, para a cintura, puxando ela contra mim. Ela podia sentir. Como não sentiria? Eu estava duraço, latejando contra a barriga dela através da minha calça e do vestido simples que ela usava. Era uma pressão rude, inevitável. Eu cutuquei ela de propósito com o p*u duro, deixando claro, visível, o que aquele beijo todo tinha feito, o que a simples presença dela me causava. — Viu? — respirei no ouvido dela, a voz gutural. — Viu o que você faz? Isso aqui é por sua causa. É por você que eu tô assim, Manuela. Ela gemeu baixo, um som que saiu das entranhas, e enterrou as unhas nas minhas costas, me puxando ainda mais para perto, esfregando o corpo contra o meu como se quisesse fundir a gente ali mesmo, naquele banheiro de hotel, com o filho dela dormindo do outro lado da porta. E na minha cabeça, o pensamento era uma confusão de possessão, desejo puro e uma ponta de terror. É isso. É ela. E isso vai me f***r todo.
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