A delegacia tava mais barulhenta do que de costume. O som do rádio misturado com o tilintar dos copos de café, o telefone tocando sem parar, e um dos soldados novos sendo esculachado por um superior por ter "engasgado" no tiroteio. Mesma ladainha de sempre.
Entrei sem pressa, o corpo ainda suado, o fuzil pendurado nas costas e a cabeça cheia de barulho.
As conversas pararam por um segundo quando me viram. Sempre param. O ar muda, o tom das vozes desce um pouco, e o respeito vem no susto do jeito que eu gosto.
Joguei o colete sobre a cadeira, tirei o cigarro do bolso e acendi, ignorando o aviso de "proibido fumar". A fumaça subiu lenta, densa, enquanto eu observava o reflexo da luz no metal do distintivo jogado sobre a mesa.
Caveira apareceu logo depois, mancando do jeito costumeiro, com aquele sorriso que parece debochar até da morte.
— Tu devia dar palestra, Buarque. Cada vez que tu entra aqui, os moleques parecem ver o demônio.
— O demônio não usa farda, parceiro. Ele assina folha de pagamento.
— Filosofia da p***a. — Caveira riu, rouco.
— É o cansaço.
— E aí, quantas almas tu mandou pro inferno hoje? — Ele se jogou na cadeira da frente, esticando a perna ferrada.
— As que mereciam. — Dei um trago longo no cigarro, sem emoção nenhuma. — As que não mereciam, o inferno não quis.
— Tu fala essas coisas com uma calma que chega a ser pecado.
— Pecado é trabalhar aqui achando que dá pra ser santo.
Caveira gargalhou. — Tu devia ser pastor. Ia converter até traficante.
— Eu já converto. Só que o batismo é de pólvora.
Ele balançou a cabeça, ainda rindo. A gente se entendia assim: no sarcasmo, na frieza. Dez anos de amizade forjada em operação, em sangue e cerveja quente. Caveira era o único que falava comigo sem medo, e talvez por isso ainda estivesse vivo.
Peguei o relatório da operação, folheando sem interesse. Números, nomes, coordenadas, feridos.
Nada que eu já não soubesse. O chefe da central queria uma "apuração minuciosa", mas eu sabia o que isso significava: tapar buraco. O BOPE não admite erro. O que a gente faz é sempre "estratégico".
— A imprensa tá enchendo o saco. — Caveira comentou, limpando a arma. — Tão dizendo que a operação foi abusiva.
— Abusivo é o preço do leite, não a gente.
— Tu não se incomoda com nada, né?
— Me incomodo quando mexem no meu café. Fora isso, tanto faz.
Ele riu de novo, mas o olhar dele me estudava. Sabia que, por dentro, eu não dormia direito há anos. Mas também sabia que eu nunca admitiria.
— Cê sabe que o povo lá em cima te odeia, né? — ele provocou. — Dizem que tu é o d***o de farda.
— O povo odeia quem tem poder. — dei de ombros. — E respeita quem sobrevive.
Fiquei um tempo em silêncio depois disso, observando a fumaça dançar no ar. A imagem daquela mulher voltou rápido demais. A sacola rasgada, o olhar apavorado, o arroz no chão.
Não era piedade. Era lembrança visual. Um detalhe que a mente guarda sem pedir.
Mas não deixei transparecer nada.
— Amanhã tem reunião com o comando. — avisei, mudando de assunto. — Vão querer relatório e discurso bonito.
— Quer que eu monte um?
— Não. Eu falo o que eles querem ouvir. Mentir é parte do uniforme.
Caveira se levantou com um gemido, ajeitando o colete.
— Tu é um homem perigoso, Buarque.
— É por isso que eles me deixam solto.
Ele riu e saiu da sala. Fiquei sozinho, ouvindo o som da delegacia voltando à vida. O burburinho, o telefone, o rádio. Tudo voltando ao normal, como se nada tivesse acontecido no morro, como se o medo e a morte ficassem presos lá em cima, sem descer pro asfalto.
Apoiei os cotovelos na mesa e olhei pro relógio. Ainda era meia-noite. Metade do dia, metade da consciência.
Abri a gaveta, peguei o frasco de uísque e enchi o copo de café até a borda. Bebi devagar, o gosto amargo misturado ao álcool queimando a garganta.
O BOPE é uma família, dizem. Mas a verdade é que a gente não é irmão de ninguém. Aqui dentro, todo mundo tem um preço, uma rachadura, uma culpa escondida. A diferença é que eu aprendi a esconder melhor.
Apaguei o cigarro no cinzeiro, olhei pela janela e vi o morro lá longe, o Vidigal brilhando no escuro, bonito e sujo, pacífico e prestes a explodir outra vez.
Soltei um meio sorriso.
Porque eu sabia. Mais cedo ou mais tarde, eu ia subir de novo. E lá em cima, ninguém esquece o nome de quem trouxe o inferno pela primeira vez.