29. Manuela

1097 Words
A madrugada já ia alta, o relógio marcava quase três da manhã, e o silêncio do apartamento era estranho demais. Eu ainda estava na sala, sentada no sofá, tentando colocar os pensamentos em ordem. Mas ele não saía da minha cabeça. O som dos passos dele vinha baixo, compassado. O tipo de homem que preenche o ambiente só por existir. Ele apareceu na cozinha, com uma camiseta preta simples e calça de moletom, descalço, o corpo ainda carregando o peso da farda mesmo sem ela. A luz fria da cozinha cortava o rosto dele em sombras, realçando o maxilar, a rigidez dos ombros, o olhar de quem não dorme há dias. — Não conseguiu dormir? — perguntou, a voz grave, meio rouca de cansaço. — Não. — Cruzei os braços, sem conseguir disfarçar o tom. — Lugar novo. Difícil relaxar quando não se sabe se tá presa ou protegida. Ele encostou-se no balcão, cruzando os braços também. O olhar dele percorreu meu rosto, depois o ambiente, voltando pra mim. — Eu te falei que era pro seu bem. — Eu já ouvi isso antes. — Não de mim. — Isso muda alguma coisa? Ele não respondeu. Só ficou ali, me olhando. E aquele silêncio... aquele silêncio era o problema. Porque nele tinha tudo: a raiva, a confusão, o desejo contido e o medo de admitir o que a gente sentia desde o primeiro dia. — Você sempre faz isso? — perguntei, quebrando o clima. — Mandar, decidir, entrar na casa dos outros, arrumar a vida deles como se fosse dono? — Eu faço o que precisa ser feito. — E o que te faz achar que eu preciso de você? Ele se endireitou, o olhar firme. — O fato de você ainda estar viva. As palavras caíram entre nós feito pedra. E por um instante, eu não soube se queria bater nele ou agradecer. — Você é impossível — sussurrei. — E você é teimosa. — Ele deu um meio sorriso, um sorriso pequeno, cansado. — Péssima combinação. — Pro seu azar, eu não sou das que abaixam a cabeça. — E pro meu azar, eu gosto disso. O tom dele mudou. Ficou baixo, quase um murmúrio, mas pesado o bastante pra me deixar sem ar. O olhar dele ficou preso no meu, e o tempo pareceu desacelerar. Um segundo. Dois. Três. A distância entre nós parecia menor a cada piscada. — Você devia parar de me olhar assim — disse ele, ainda sem se mover. — E como é que eu tô te olhando? — Como se soubesse que eu sou o erro e mesmo assim quisesse ver até onde ele vai. O ar entre nós ficou elétrico. Eu engoli em seco, mas não respondi. O corpo dele era uma ameaça silenciosa: parado, firme, mas prestes a romper o limite. Ele deu um passo à frente. Lento. Calculado. Meu corpo reagiu antes da minha cabeça. O coração disparou, o ar pareceu faltar. Eu devia recuar, devia dizer alguma coisa - qualquer coisa - mas fiquei ali, imóvel. Ele parou perto, o suficiente pra eu sentir o calor que emanava dele, o cheiro leve de sabonete misturado com o de pólvora e café. — Eu não vou te machucar — disse, a voz baixa, carregada de algo que parecia promessa e aviso ao mesmo tempo. — Eu sei. — respondi, mesmo sem ter certeza. A tensão ficou ali, viva, pulsando, como se o menor movimento fosse o bastante pra explodir tudo. A tensão ficou ali, viva, pulsando, como se o menor movimento fosse o bastante pra explodir tudo. O olhar dele desceu da minha boca para o meu pescoço, para a curva dos meus s***s sob o tecido fino da minha roupa, e eu senti cada lugar que seus olhos tocaram como um choque de fogo. Ele respirou fundo, mas não se afastou. Em vez disso, o som que saiu da garganta dele foi um rosnado baixo, quase animal. — Chega, Manuela. Chega de joguinho. Antes que eu pudesse responder, ele fechou a distância de uma vez. Sua mão agarrou a nuca, os dedos se enterrando no meu cabelo, puxando minha cabeça para trás até que nossos olhos se travassem novamente. Seus olhos estavam completamente escuros, a pupila dilatada, consumindo a íris. Não havia mais raiva, nem dever, nem controle. Só fome. Uma fome crua e desesperada. — Eu tentei ser o cara certo — ele sussurrou, a boca a um centímetro da minha, o hálito quente de cigarro me envolvendo. — Tentei te proteger, te manter longe. Mas você fica me olhando com esses olhos de desafio, como se quisesse que eu te quebrasse. É isso que você quer? — Alex... — meu sussurro saiu trêmulo, mas meu corpo se arqueou contra o dele, me traindo. — Fala — ele ordenou, a voz áspera, suplicante. A mão dele desceu das minhas costas, agarrando minha cintura e puxando com força contra ele, para que eu sentisse todo o peso duro e insistente do seu desejo. — Me fala pra parar e eu paro. Ele parou, ofegante, esperando. Era a última defesa, a única concessão que um homem como ele poderia dar. Eu olhei para aquela boca que conhecia cada curva da minha desgraça, para os olhos que me vigiavam há tanto tempo, e não consegui encontrar uma única mentira para me salvar. Em vez de falar, eu fechei a distância final. O beijo foi uma conflagração. Não foi doce; foi uma rendição mútua, uma batalha onde ambos se entregaram como prêmio. Suas mãos percorreram meu corpo com uma urgência possessiva, puxando a blusa para cima, os dedos encontrando a pele nua da minha cintura. Ele quebrou o beijo, ofegante, e enterrou o rosto no meu pescoço, os lábios percorrendo a linha do meu pulso até o ombro. — Por favor — a voz dele saiu abafada contra minha pele, um rugido abatido e vulnerável que eu nunca tinha ouvido. — Me deixa ter você. Só dessa vez. Me deixa esquecer tudo menos o gosto de você. Era um pedido. Uma oração. Ele, o homem mais durão que eu conhecia, estava ali, tremendo, implorando como um cachorro no limiar. E naquele instante, eu soube que eu sempre tivera todo o poder. E que eu ia usá-lo para me perder com ele. Minhas mãos encontraram a barreira da calça do moletom dele. Um puxão, um gemido abafado, e não havia mais nada entre nós a não ser a verdade nua e crua do nosso desejo. — Então esquece — sussurrei no ouvido dele, antes de levá-lo para o chão.
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