A porta do quarto se abriu com o estalo do trinco, e o som dos passos dele preencheu o corredor. O chão sob as botas ecoava diferente: firme, cadenciado, como se até o jeito de andar fosse calculado pra lembrar a gente de quem mandava ali.
Alex apareceu na sala secando o cabelo com uma toalha, usando uma camiseta preta justa e uma calça jeans escura. O tipo de roupa simples que, nele, parecia uniforme.
O corpo largo, o olhar frio, o ar de quem nunca relaxa, mas havia algo sutilmente diferente naquele momento. Talvez o cheiro do sabonete fresco, talvez o traço quase imperceptível de cansaço misturado com uma serenidade perigosa.
Ítalo o olhou com os olhos brilhando, curioso.
— Capitão!
Ele parou, arqueando uma sobrancelha.
— É... parece que o moleque lembra do nome.
— Ele lembra de tudo — respondi, ajeitando a bolsa no ombro. — E você devia agradecer, já que o resto do morro só lembra de te xingar.
Ele riu de leve, um som baixo, carregado de ironia.
— Ah, mas você também me xingava, não?
— Ainda xingo. Só mudei o tom.
— É, eu percebi. — Ele passou por mim, indo até o espelho próximo à porta. Ajustou a arma no coldre, o relógio no pulso, e olhou o reflexo rápido. — Pronto?
— Pronta.
Ítalo se aproximou, o carrinho na mão.
— A gente vai mesmo no mercado?
Alex olhou pra ele e acenou.
— Vai. E se se comportar, a gente passa na padaria e compra um doce.
O menino vibrou, e o sorriso dele iluminou o ambiente. Eu não consegui evitar um pequeno sorriso também.
— Você é esperto — murmurei. — Comprando a lealdade dele com açúcar.
— Funciona melhor que ameaça. — Ele abriu a porta, me lançando um olhar de canto, carregado de malícia. — Mas com você eu ainda não descobri o que funciona.
Cruzei os braços, revirando os olhos.
— Talvez parar de achar que manda em mim.
— Eu não acho. — Ele sorriu. — Eu sei.
Passei por ele de propósito, esbarrando de leve no ombro dele. O toque rápido, quase inocente, me fez sentir o calor do corpo dele, firme, sólido e me deixou irritada com a própria reação.
Ele percebeu, claro. Percebia tudo. Aquele sorriso pequeno voltou aos lábios, do tipo que provocava sem precisar de uma palavra.
— Anda logo, antes que eu mude de ideia e te deixe aqui — disse, mas o tom era leve, quase brincalhão.
Peguei Ítalo pela mão e seguimos pro elevador. O cheiro de sabão e perfume masculino ainda pairava no ar, e, por mais que eu tentasse ignorar, cada segundo ao lado dele me lembrava de uma coisa: Alex Buarque era um problema de várias camadas.
Um que eu ainda não sabia se queria resolver... ou continuar enfrentando até o fim.
O caminho até o supermercado foi feito em silêncio.
Não um silêncio tenso, mas daquele tipo que parece carregado de tudo o que não foi dito. O carro deslizava pela avenida, o som dos pneus no asfalto misturando-se ao ruído distante da cidade.
O sol começava a baixar, tingindo o céu de dourado, e o reflexo batia no rosto de Buarque, deixando ainda mais sério, concentrado, como se o volante fosse o único lugar onde ele realmente sabia o que fazer com as mãos.
Ítalo, no banco de trás, falava sem parar. Comentava os carros, as pessoas, o cachorro que atravessava a rua, e fazia perguntas sobre tudo. Buarque respondia com paciência, daquele jeito seco, mas que mostrava um cuidado que ele não admitiria nem sob tortura.
— E essa viatura aí, é igual a sua? — o menino perguntou, apontando pra uma Blazer com as luzes apagadas.
— Essa é da Civil. A minha é preta.
— A sua é mais bonita.
— Claro que é. — Ele respondeu com um sorriso pequeno. — A minha é de guerra.
Ítalo riu alto. Eu olhei pra eles pelo espelho retrovisor e, por um segundo, me surpreendi. Aquele homem, que eu só conhecia pelo olhar frio, estava ali, conversando com o meu filho como se fosse o mais natural do mundo.
E talvez fosse isso que me desarmava, fato de que, por trás daquela armadura, havia um homem capaz de ser humano, ainda que por instantes curtos.
O mercado não ficava longe. Quando chegamos, ele estacionou o carro e saiu primeiro, indo abrir a porta de trás pro Ítalo. O menino pulou pra fora, animado, e o capitão estendeu a mão pra mim, num gesto automático.
— Eu sei sair sozinha, Buarque.
— Eu sei que sabe. — Ele manteve a mão estendida, o olhar firme. — Mas vai fingir que precisa.
Suspirei, mas aceitei. A mão dele era quente, firme, e quando meus dedos tocaram os dele, senti aquele arrepio i****a percorrendo a pele, o tipo de reação que eu odiava ter.
Lá dentro, o ar-condicionado do supermercado era forte demais, e o contraste com o calor da rua me fez arrepiar. O lugar estava cheio, e o cheiro de pão quente vinha da padaria ao fundo.
Carrinhos batendo, vozes misturadas, crianças correndo, tudo normal, comum. Mas ao lado de Alex Buarque, nada era comum.
Ele pegou um carrinho, empurrando com a calma de quem tinha o controle de tudo. Ítalo correu até ele e se pendurou na borda, empolgado.
— Eu empurro também!
— Anda perto de mim, garoto — ele disse, sem levantar a voz, mas com um tom que não deixava espaço pra discussão. — E nada de correr, entendido?
Ítalo assentiu rápido, com os olhos grandes, e eu revirei os meus.
— Ele não tá em operação, Alex. Tá indo comprar bolacha e sabão em pó.
— E é assim que começa o problema — respondeu, sem olhar pra mim. — A gente acha que o dia vai ser normal. Vai na frente, parceiro. — Buarque respondeu, deixando o menino conduzir. — Mas sem atropelar ninguém.
Fui andando ao lado deles, e por mais que eu tentasse, não conseguia tirar o sorriso do rosto. Era uma cena simples, mas absurda: o capitão do BOPE empurrando um carrinho de supermercado com um menino de quatro anos à frente e eu atrás, tentando não rir da naturalidade com que ele fingia que aquilo não era estranho.
— O que a gente precisa comprar? — ele perguntou, olhando pra mim por cima do ombro.
— Tudo. — respondi. — A tua geladeira parece de quem mora sozinho há dez anos.
— Eu moro.
— E come o quê? Arma?
Ele soltou uma risada curta, rouca.
— Quase.
— Então pronto, vamos resolver isso. — Peguei o controle e comecei a andar pelos corredores. — Arroz, feijão, leite, frutas, sabão... e o básico pra uma cozinha funcionar de verdade.
Ele me seguia com o carrinho, os olhos sempre atentos, mas sem interferir. De vez em quando, eu sentia o olhar dele nas minhas costas. Não era invasivo, mas firme, constante. Como se ele me estudasse, analisasse cada gesto, cada escolha.