A raiva que eu senti quando descobri que ela tinha fugido do hotel não cabia em mim. Foi como levar um soco seco no estômago, não porque ela me desafiou, mas porque, por algum motivo, eu realmente acreditei que ela ia ficar segura.
Que, pela primeira vez, alguém ia ouvir o que eu dizia sem precisar de força. Que ela entenderia que, quando eu mando, é porque sei o que tô fazendo.
Mas não.
Manuela fez o que sempre faz. Foi embora. Voltou praquele buraco, pra miséria, pra rua cheia de sangue e risco, como se a própria vida não valesse nada.
Quando Caveira me contou, eu ri. Mas não foi riso de quem achou graça. Foi aquele tipo de riso que vem antes da explosão, o que sai porque se eu não rir, eu quebro alguma coisa.
— Ela sumiu, Buarque — ele disse. — Saiu com o garoto do hotel, os cara acabou de avisar que viu ela de noite na casa dela.
Bati a mão na mesa com tanta força que o café voou. O som ecoou pela sala, e todo mundo calou. Fiquei quieto por alguns segundos, olhando pro nada. Caveira, com aquele jeito dele, ainda tentou aliviar:
— Tu se envolve demais, cara. Era só pra tirar do fogo cruzado. Tu tá deixando o pessoal do morro morar na tua cabeça.
— Cala a boca.
Peguei as chaves e saí. Não esperei relatório, não dei satisfação. Só entrei no carro e deixei o motor rugir.
O caminho até o morro foi um borrão. A cidade dormia, mas dentro de mim nada estava quieto. Eu não pensava, agia. Cada curva era uma decisão, cada farol vermelho um obstáculo que não existia pra mim. E quando finalmente vi as luzes do alto do morro, o sangue já estava fervendo.
Subi sem ligar pra nada: olhares, cochichos, gente se escondendo. Aquele morro sabia o que significava quando eu aparecia com essa cara. E, ainda assim, ela teve coragem de voltar pra esse lugar, de me desafiar, de me jogar no rosto que não precisava da minha proteção.
A verdade é que eu não tava com raiva porque ela desobedeceu. Eu tava com raiva porque ela me fez sentir. E sentir, pra mim, sempre foi um problema.
Quando entrei na casa dela e vi aquele barraco, aquele chão de cimento, o cheiro de sabão e pobreza misturado ao perfume leve dela, eu entendi o que realmente me irritava: Manuela não queria ser salva.
Ela queria ser livre. E eu... eu não sabia lidar com gente que não abaixa a cabeça.
Mas ela ia aprender.
Nem que fosse à força.
Enquanto ela juntava as roupas do garoto, eu observava. O jeito como as mãos dela tremiam, o olhar dividido entre medo e orgulho, o silêncio que gritava mais alto que qualquer palavra.
Era isso. Era sempre isso. A mulher mais teimosa que eu já conheci. E, mesmo assim, a única que me fazia perder o controle.
Quando o sol começou a nascer lá fora, eu já tinha tomado minha decisão. Nada de hotel, nada de esconderijo. Dessa vez, ela ia pra minha casa.
Longe do morro, longe do barulho, longe de tudo.
Ia ficar onde eu pudesse ver, onde ninguém encostasse, onde nenhum desgraçado ousasse lembrar o nome dela.
E se tentasse fugir de novo, eu trancava a p***a da porta.
Manuela achava que me desafiando me vencia. Mas não entendia que, quanto mais ela lutava, mais fundo ela cavava o buraco onde eu e ela íamos cair juntos.
E eu juro que quando botei o carro pra rodar de novo, descendo aquele morro, o único pensamento que me atravessava era esse:
"Quero ver pra onde ela vai fugir quando a casa for minha."
A noite tinha caído densa quando o carro parou diante do prédio. O portão de ferro se abriu com um estalo, e o som do motor ecoou pela garagem silenciosa.
Manuela não disse uma palavra durante o caminho, olhava pela janela, o rosto iluminado pelos postes, o maxilar travado, e as mãos apertando a mochila no colo.
Eu também não falei nada. O silêncio entre nós era mais barulhento que qualquer discussão.
Quando saí do carro, ela continuou sentada. O Ítalo dormia, encolhido no banco de trás, e por um segundo eu hesitei. Ela olhou pra mim, os olhos cheios de raiva e alguma coisa que eu não sabia nomear.
— Pode me dizer o que é isso agora, Alex? — A voz dela cortou o ar. — É sequestro? Porque eu não vim por vontade própria.
— Chama do que quiser — respondi, abrindo a porta de trás pra pegar o menino. — Mas agora você tá segura.
— Segura? — Ela deu uma risada curta, amarga. — Segura do quê? De viver a minha própria vida?
— Segura de morrer no meio de um tiroteio, Manuela.
— Você acha que me entende, né? — Ela desceu do carro, batendo a porta com força. — Acha que sabe o que é viver com medo. Mas não sabe. Você passa por cima de tudo e todo mundo e chama isso de proteção.
Eu encostei a porta devagar, o olhar fixo nela.
— Proteção é o que eu faço.
— Proteção é o que meu filho precisava e o pai dele dizia que dava. — O tom dela subiu, carregado de dor. — Era isso que ele falava também. Que tava cuidando de mim, que me mantinha segura, que eu não precisava sair de casa, que ele tava fazendo o certo.
— Não me compara com ele.
— Por quê? — Ela deu um passo à frente, o peito subindo e descendo rápido. — Porque você usa farda e ele usava bermuda e chinelo? Porque o seu crime é legalizado?
A raiva me subiu num impulso.
— Não fala do que você não entende.
— Eu entendo sim! — gritou, a voz embargada. — Eu entendo o que é um homem achar que tem o direito de mandar, de decidir, de trancar. Você pode ter um distintivo, Alex, mas é igualzinho a ele. No fundo, é a mesma coisa. Quer mandar, quer possuir, quer me transformar em mais uma coisa sua.
Fiquei em silêncio por alguns segundos, tentando não explodir. O peso das palavras dela caiu como chumbo. E, no fundo, doeu porque tinha verdade.
— Eu não sou ele — falei por fim, a voz baixa, rouca. — Eu não bato, não uso você, não te deixo sozinha. Eu só tô tentando te tirar da linha de tiro.
— E me botando em outra — respondeu, firme. — A sua.
Os olhos dela estavam marejados, mas ela não piscava. Eu podia ver o medo, a mágoa, e um tipo de coragem que me desmontava.
— Você acha que eu pedi pra você me salvar? — perguntou. — Porque eu não pedi, Alex. Não pedi pra ser tirada de lá, nem pra ser jogada no meio da sua vida bagunçada. Eu só queria ter um lugar onde o meu filho pudesse dormir em paz. E eu tava conseguindo isso, do meu jeito.
Ela respirou fundo, e quando voltou a falar, a voz era mais baixa, mas ainda firme.
— Você não tem o direito de decidir o que é certo pra mim.
— E se eu disser que eu não consigo deixar você lá? — perguntei, o tom entre raiva e desespero. — Que toda vez que eu penso em você naquele morro, eu vejo o que pode acontecer, e eu não aguento?
Ela balançou a cabeça, as lágrimas finalmente caindo.
— Então o problema é seu. Não meu.
Fiquei parado, sem saber o que dizer. O ar parecia espesso, e o som distante da cidade lá fora era a única coisa que quebrava o silêncio entre nós.
— Sobe — falei, por fim. — Lá em cima é mais seguro.
— Eu não vou morar com você, Alex.
— Vai. — A voz saiu baixa, mas sem hesitação. — Porque agora eu não confio nem em você mesma pra se proteger.
Ela me olhou como se quisesse me atravessar com o olhar. E mesmo sem dizer nada, eu soube que tinha ultrapassado uma linha.
Mas eu também sabia: não ia recuar.
Peguei o Ítalo no colo, ainda dormindo, e comecei a subir as escadas. Ela veio atrás, relutante, os passos lentos, mas veio.
No topo, a porta do meu apartamento se abriu com o estalo do trinco. O espaço era limpo, organizado, uma diferença gritante com o barraco dela. Ela parou na entrada, olhando em volta, sem dizer nada.
— Esse é o lugar — falei, colocando o menino no sofá. — Por enquanto, vocês ficam aqui.
O silêncio ficou denso de novo. E eu fiquei ali, sem saber se tinha acabado de protegê-la, ou de destruí-la mais um pouco.