A madrugada caiu pesada, abafada, o tipo de calor que gruda na pele e não deixa dormir. Ítalo dormia ao meu lado, o corpo pequeno espalhado pela cama, respirando fundo. Lá fora, o morro estava quieto, quieto demais. Nem os cachorros latiam.
Eu devia estar dormindo também, mas o sono vinha e ia, leve como quem espera alguma coisa. O silêncio era quase um zumbido, e quando finalmente fechei os olhos de verdade, o barulho veio.
Um estrondo seco. A porta batendo contra a parede.
Levantei num pulo, o coração disparando. A primeira coisa que fiz foi puxar o filho pro colo, o instinto mais rápido do que o raciocínio. E então, a voz dele.
— Tá de s*******m comigo, Manuela?!
Aquela voz rouca, firme, cortando o ar da sala.
Buarque.
Ele entrou como um furacão, a farda meio aberta, o peito suado, os olhos escuros de raiva e cansaço.
Eu congelei, abraçando o Ítalo, o corpo inteiro em alerta.
— O que é isso?! — gritei, tentando manter o tom firme. — Ficou maluco?
Ele ignorou a pergunta.
— Por que você voltou pra essa merda de lugar?! — o som da voz dele ecoou pelas paredes pequenas, o eco misturado com a respiração pesada. — Eu te tirei daqui, Manuela! Tirei você e o garoto desse lixo!
— Aqui é minha casa! — rebati, o peito subindo e descendo. — Você acha que pode mandar em tudo, é isso?!
— Eu te botei em segurança! — ele deu um passo à frente, o olhar incendiado. — E você volta pro meio do perigo como se não valesse nada? Como se eu tivesse feito tudo à toa?
— Eu não pedi pra você fazer nada por mim!
— Pior ainda. — Ele riu, um riso curto, quase incrédulo. — Nem pediu e mesmo assim eu fiz. Sabe o que isso significa? Que eu sou i****a. Que eu devia ter deixado você aqui, presa nesse inferno.
As mãos dele tremiam de raiva, mas o olhar denunciava outra coisa: preocupação, medo, desespero contido. A mistura era tão intensa que me deixou sem fôlego.
— Você devia ter deixado, sim — murmurei, firme, ainda abraçada no filho. — Eu não pertenço ao seu mundo, Alex.
Ele respirou fundo, aproximando-se até a distância ser mínima.
— E o que você pertence, hein? Isso aqui? — Ele apontou ao redor, o barraco simples, o chão de cimento, o ventilador quebrado. — A miséria? O abandono?
— Isso aqui é real.
— Isso aqui vai te matar.
— E você não vai?
O silêncio que veio depois foi mais pesado que a briga. Os olhos dele travaram nos meus, o peito subindo devagar, e por um instante o soldado desapareceu. Ficou só o homem, o mesmo que eu tinha deixado no hotel, o mesmo que eu tentei esquecer.
— Você não devia ter voltado — ele disse, num tom mais baixo, rouco. — Agora eu vou ter que te tirar de novo.
— Você não manda em mim.
Ele soltou um som baixo, entre o riso e o desespero.
— Mando sim. Pelo menos nisso. Vai lá. Arruma as suas coisas e as do garoto. Só o necessário. Em dez minutos a gente sai daqui.
— Eu não vou a lugar nenhum, Buarque. Pode vir com essa ordem que não vou.
— Você vai. — A voz dele saiu como um prego cravado.
— Não vou.
Avancei para ele, furiosa, pronta para empurrá-lo para fora da minha casa, da minha vida. Mas ele foi mais rápido. Com um movimento brusco, sua mão forte agarrou meu pescoço.
Não era uma pegada para machucar. Era para paralisar, para dominar. Seus dedos se fecharam na lateral do meu pescoço, o polegar pressionando minha mandíbula, forçando meu rosto para cima.
Meu corpo inteiro travou. O choque foi um choque quente, percorrendo cada veia. Eu conseguia sentir a pulsação acelerada batendo contra a palma da mão dele.
— Vai — repetiu, o sussurro saindo entre os dentes, o rosto a centímetros do meu. — Porque se eu tiver que carregar você pra fora daqui, vai ser pior.
O olhar dele era fogo n***o. Desafiador. E, Deus me perdoe, eu senti um calafrio percorrer minha espinha, uma resposta involuntária e profunda àquela demonstração crua de poder.
Antes que eu pudesse soltar qualquer palavra, qualquer protesto, ele puxou meu rosto para o dele e capturou meus lábios num beijo.
Era um beijo de posse. De fúria e desejo se misturando. Sua boca era dura, exigente, e a mão ainda no meu pescoço me impedia de recuar, me mantendo ali, presa naquele contato que era ao mesmo tempo uma punição e uma afirmação violenta de tudo que existia entre a gente. Era a mesma pegada do hotel, mas agora sem luxo, sem cortesia. Era puro instinto.
Eu devia odiar. Devia morder, empurrar, lutar.
Em vez disso, meu corpo arqueou em direção ao dele, uma resposta traidora e imediata. Um gemido baixo ficou preso na minha garganta, e minhas mãos, que deveriam golpeá-lo, se agarraram aos braços dele, sentindo os músculos tensos sob a camisa suada.
Ele quebrou o beijo tão abruptamente quanto começou, ofegante. Seus olhos escaneavam o meu rosto, procurando por algo.
— Agora arruma as malas, Manuela — ordenou, a voz rouca, mas agora com uma nota triunfante e sombria. Ele tinha sentido minha resposta, tinha visto minha resistência ruir.
Soltei-me dele, trêmula, o sabor dele ainda na minha boca, o calor da sua mão ainda fantasma no meu pescoço. Virei-me, sem conseguir olhá-lo nos olhos, e fui até o canto do barraco onde ficavam as mochilas. Meus dedos tremiam enquanto eu começava a juntar algumas roupas.
Não era uma rendição. Era um reconhecimento. A guerra entre a gente tinha muitas batalhas, e aquela... aquela ele tinha vencido. E o pior de tudo era que uma parte de mim, profunda e perigosamente, tinha gostado.