25. Manuela

1075 Words
O quarto estava silencioso demais. A ausência dele parecia ecoar pelas paredes, preenchendo cada canto com um peso que não tinha som. O meu corpo ainda tinha o amasso do corpo dele, o cheiro da pele, o perfume leve misturado ao sabonete barato do hotel. E quanto mais o tempo passava, mais aquilo me sufocava. Eu não conseguia parar de pensar no que tinha feito. No que a gente tinha feito. Encostei na parede, as mãos tremendo um pouco. Fechei os olhos e respirei fundo, mas o ar parecia grosso, difícil de engolir. A lembrança do toque dele, da forma como me segurou, como me olhou, como tomou tudo de mim sem pedir, e o pior, sem que eu tivesse negado, vinha como um soco lento, dolorido, direto no peito. E, junto disso, a culpa. Porque eu ainda lembrava do rosto do pai do meu filho. Mesmo com tudo o que ele fez. Mesmo com as mentiras, com a traição, com as promessas que nunca cumpriu. Ele morreu cedo demais, e eu fiquei com o que sobrou: um menino com os olhos dele e a vida que a gente construiu nas sobras do morro. E agora eu me sentia suja. Como se tivesse apagado de vez o pouco de respeito que ainda restava por aquela história. Eu sabia que ele não era santo. Sabia que, nos últimos meses antes de morrer, ele vivia com outra, que me deixava sozinha com o Ítalo doente enquanto se escondia no bar ou no beco. Mas, mesmo assim, a lembrança dele era o que eu tinha de mais certo. E agora eu tinha misturado tudo: o passado, o presente, o medo e o desejo. Sentei na beira da cama, passei as mãos no rosto. O coração batia num ritmo estranho, entre o arrependimento e a saudade de algo que nem devia existir. Olhei pro Ítalo dormindo no sofá, o corpinho pequeno coberto pelo lençol branco. Ele era a única coisa pura que eu tinha. A única. — A gente não devia estar aqui, meu amor. — falei baixinho, pra mim mesma, mas como se ele pudesse ouvir. — Não é aqui que a gente pertence. Fui até a janela. Lá fora, o dia começava a se abrir por inteiro, o trânsito pesado, buzinas, o mundo girando como se nada tivesse acontecido. O asfalto brilhava molhado pela chuva da madrugada, e o sol refletia nas janelas dos prédios. Bonito e frio. Um tipo de beleza que não tinha nada a ver comigo. O hotel era limpo demais. Cheiro de desinfetante, de vida organizada, de gente que não precisa correr pra não passar fome. Eu me sentia um erro ali dentro. E, pior, sentia que o Ítalo também não pertencia àquele mundo. Comecei a juntar as coisas em silêncio. A mochila dele, o ursinho, as roupas. Peguei minhas coisas, vesti a blusa simples, amarrei o cabelo. A cada peça que colocava na bolsa, o peso no peito aumentava. O capitão disse que voltaria. Mas eu não podia esperar. Não podia continuar ali, presa num quarto que cheirava a pecado e lembrava o que nunca devia ter acontecido. Olhei de novo pro Ítalo. Ele acordou com o barulho suave do zíper. Os olhos sonolentos se abriram devagar. — A gente vai pra casa, mãe? — perguntou, a voz arrastada. — Vamos, meu amor. — sorri, mesmo com o nó na garganta. — Vamos pra casa. — E o moço? — Ele tem o trabalho dele. — Demorei pra responder. Ítalo assentiu, simples, sem entender a profundidade da resposta. Ele nunca entenderia o que aquele "trabalho" significava, nem o que aquele homem fazia comigo sem precisar tocar. Peguei o menino no colo e saí do quarto. O corredor estava vazio, o ar-condicionado frio demais pra mim. O elevador desceu lento, e cada andar parecia um aviso do que eu já sabia: ele ia voltar, e eu não ia estar lá. Na recepção, a moça do balcão me olhou com curiosidade, mas não disse nada. Eu iria pagar o que consumimos no hotel, porém a moça disse que tudo já estava pago por cinco dias. Como se eu fosse ficar cinco dias ali, como uma boneca de porcelana. Lá fora, o sol já era forte. Peguei um ônibus na esquina, as mãos firmes, o coração acelerado. A cada curva, a cidade mudava, os prédios altos deram lugar às casas espremidas, o concreto foi ficando mais gasto, o cheiro de asfalto deu lugar ao de comida feita na rua, fumaça e maresia. O morro apareceu no horizonte, recortado contra o céu, como um velho conhecido me esperando. E, pela primeira vez, eu não sabia se era consolo ou castigo. Quando subi os primeiros becos, o ar quente bateu no rosto, e a sensação era a de voltar pra uma ferida aberta. Gente olhando, cochichando, portas entreabertas. A mesma curiosidade de sempre. Cheguei na minha casa, a porta ainda marcada pela fumaça da última invasão. Entrei, coloquei o Ítalo na cama e me deixei cair na cadeira, o corpo inteiro tremendo. O silêncio ali era outro: familiar, dolorido, real. Olhei pro teto e deixei o ar sair devagar. Eu sabia que ele ia me procurar. E sabia que, quando ele aparecesse, nada mais seria igual. Mas, por enquanto, o morro era tudo o que eu tinha. E eu precisava lembrar a mim mesma quem eu era, antes de esquecer de vez. (…) O dia passou devagar, arrastado, como se o tempo tivesse esquecido de seguir. O morro parecia em silêncio, um silêncio estranho, daqueles que antecedem notícia r**m. O calor batia forte, o ar pesado, e nem o vento aparecia pra aliviar. Buarque não deu sinal. Nenhuma ligação, nenhum carro preto na rua, nenhuma sombra. Eu tentei ocupar a cabeça: lavei roupa, cozinhei, ajeitei o quarto do Ítalo, mas a cada vez que parava, o pensamento voltava pra ele. Era automático. O silêncio dele me incomodava mais do que a presença. No beco, ouvi os vizinhos cochichando sobre a operação, dizendo que ainda tinha corpo sendo achado no alto, gente desaparecida. E toda vez que o nome dele vinha na conversa, o peito apertava. Peguei o Ítalo pela mão e sentei na porta de casa, olhando o fim de tarde. O céu vermelho, o cheiro de feijão no ar, a vida tentando voltar ao normal. Mas dentro de mim nada era normal. E, no fundo, eu sabia, o sumiço do capitão não era descuido. Era aviso.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD