24. Buarque

1281 Words
O toque do celular cortou o ar como uma sirene. Um som metálico, insistente, que arrancou o mundo de volta para o lugar. Fiquei parado por um segundo, o corpo ainda colado ao dela, o coração disparado, a respiração presa entre raiva e desejo. A mão dela ainda segurava a minha camisa, o olhar confuso, o peito subindo e descendo rápido. Olhei pra ela, depois pro bolso da calça, de onde o som continuava vindo, urgente. Afastei um pouco, a contragosto, tirando o celular. O nome piscava na tela: Caveira. — Merda. — Passei a mão no rosto e atendi. — Fala. A voz dele veio rouca, cheia de ruído e fumaça do outro lado da linha. — Buarque, deu r**m. O morro não tá limpo como a gente pensou. Tem movimentação no alto, e parece que alguém vazou informação. — Quem? — Ainda não sei. Mas a tropa quer resposta até o meio-dia. Tem imprensa na porta, civil rondando. Tá um inferno. Fechei os olhos por um segundo, tentando conter o impulso de esmurrar a parede. A respiração dela, ainda ofegante, era o único som além da minha própria raiva. — Me espera trinta minutos — respondi. — Eu tô indo. — Trinta? — Caveira bufou. — Tu tá onde, c*****o? — Resolvendo outro tipo de problema. — Entendi. — Ele riu, um som curto e cansado. — E aposto que tem nome e cabelo cacheado. — Só faz o que eu mandei. — Desliguei antes que ele dissesse mais alguma coisa. O silêncio voltou, pesado. Ela me olhava com o corpo ainda encostado na porta, os olhos em chamas, mas agora havia algo diferente: confusão, talvez medo, talvez lucidez. — Trabalho? — perguntou, a voz rouca. — Sempre é. — Então vai. — Não é simples assim. Ela ergueu o queixo, o orgulho voltando. — É sim. Você sai, resolve, e eu fico. A vida toda foi assim pra mim. — Não comigo. — Ah, é? — Ela cruzou os braços. — E o que muda, Alex? Que você me tira do morro pra me deixar presa num quarto? A pergunta acertou em cheio. E o pior era que ela tinha razão. Eu estava fazendo exatamente o que sempre critiquei: criando uma prisão diferente, com paredes brancas e cheiro de sabão caro. — Eu volto — disse, firme. — E quando eu voltar, a gente conversa direito. — Direito não é o seu forte. Dei um meio sorriso sem humor, peguei o casaco e abri a porta. Antes de sair, olhei pra ela mais uma vez. O rosto estava tenso, mas havia algo nos olhos dela, algo que me puxava de volta, mesmo quando tudo mandava ir embora. — Tranca a porta — falei. — E se alguém bater, não abre. Ela não respondeu. Apenas ficou me olhando, até eu atravessar a soleira. O corredor estava frio, o chão de carpete abafando meus passos. Enquanto o elevador descia, o corpo ainda pulsava com o que tinha acontecido, e o que quase aconteceu. Quando o visor chegou ao térreo, Caveira já estava na minha cabeça, junto com o som da voz dela, o gosto dela, o caos que me esperava lá fora. E pela primeira vez em anos, eu sabia que nenhum tipo de guerra, nem a das ruas, nem a do morro, era tão perigosa quanto a que eu estava começando a travar dentro de mim. O motor do carro rugia feito bicho solto. A pista deslizava sob os faróis, o som do pneu comendo o asfalto abafando o resto dos pensamentos. Eu dirigia com a raiva no volante e o coração em combustão. Cada semáforo, cada curva, era só uma desculpa pra descarregar o que tava preso no peito. O celular ainda vibrava no painel: mensagens, chamadas perdidas, Caveira tentando me alcançar outra vez, e eu ignorei todas. A cidade ainda dormia em parte, o céu tingido de um cinza sujo que combinava perfeitamente com o meu humor. Ela ainda estava na minha cabeça. A respiração dela. O gosto da pele. Aquela maldita sensação de quase perder o controle. Caveira tinha o timing de um tiro no pé. Se tivesse esperado cinco minutos, talvez o mundo tivesse mudado de eixo. Acelerei de novo, o ronco do motor ecoando nas ruas vazias. Quando estacionei em frente à delegacia, joguei o carro de qualquer jeito, a porta batendo com força demais. Entrei já com o sangue quente, o colete aberto, o olhar pronto pra matar quem me olhasse torto. A base estava viva, o barulho de telefones e vozes misturado com o cheiro de café queimado e papel velho. Caveira me viu antes mesmo de eu abrir a boca, e o sorriso torto no rosto dele me fez querer rir ou socar ao mesmo tempo. — Aí vem o homem do inferno. — Ele cruzou os braços, mancando de leve. — Julgando pelo estado, interrompi coisa boa, foi? — Tu não faz ideia, Caveira. — Passei a mão no rosto e soltei um suspiro carregado de raiva. — Tu conseguiu estragar o melhor lanche da minha vida. — Lanche? — Ele arqueou uma sobrancelha, o sorriso crescendo. — É esse o nome que tu dá agora? — Chama do jeito que quiser. — Fui até a cafeteira, peguei um copo e servi o resto do que tinha, preto e frio. — Só sei que tu ligou no momento errado. — Eu ligo no momento certo. O morro tá fervendo, irmão. Os caras tão dizendo que foi dedo dentro da tropa. Informação vazada. — Já esperava. — Dei um gole no café, o gosto amargo grudando na língua. — Todo mundo quer um pedaço da glória, mas ninguém segura a bronca quando o sangue escorre. — E tu? — Caveira se aproximou, abaixando o tom. — Tá com a cabeça no trabalho ou ainda lá na pretinha? Olhei pra ele devagar, o olhar duro. — Tô onde eu sempre tô. No meio do fogo. Ele riu, mas o som saiu sem graça. — No teu caso, o fogo tem nome e endereço, né? Ignorei. Peguei o cigarro amassado do bolso e acendi. O primeiro trago queimou o pulmão de um jeito bom, o tipo de dor que te faz lembrar que ainda tá vivo. — Preciso do relatório da operação. Tudo. Nome, ponto, armamento, quem subiu e quem desceu. — Já tá na tua mesa. E, pra tua informação, o comandante quer tua presença às nove. Disse que o BOPE tá sendo pressionado por causa das mortes civis. — Pressionado por político? — Dei uma risada seca. — Quero ver algum deles subir o morro pra entender o que é guerra. — A guerra tu entende bem demais, Buarque. O problema é que agora parece pessoal. Soltei a fumaça devagar, olhando pro nada. — Tudo é pessoal quando você carrega no corpo o cheiro da pólvora e da pele de alguém. — Isso é filosofia ou confissão? — É aviso. — Joguei o cigarro no chão e pisei. — Se mexerem comigo agora, eu devolvo em dobro. Caveira balançou a cabeça, ainda sorrindo. — A mulher te virou do avesso, hein? — Ela só me lembrou o que é perder o controle. E eu não gosto de perder. — Falei, firme. — Eu não posso gostar. Peguei o colete de volta, fechei as fivelas com força e caminhei até minha sala. O barulho das botas ecoou pelo corredor, o som metálico misturado à tensão que me perseguia. Quando fechei a porta atrás de mim, fiquei por um segundo encarando a parede coberta de mapas e fotos. O rosto dela apareceu na minha mente, nítido, como se tivesse me seguido até ali.
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