Ele entrou com o mesmo ar de quem carrega o mundo nas costas: pesado, firme, e com aquele tipo de presença que parece ocupar mais espaço do que o corpo permite. A casa ficou menor. O ar, mais denso. Eu tentei continuar mexendo na bolsa, fingindo que tava procurando o pano de chão, mas o som das botas dele se aproximando me fez gelar por dentro.
— Camila, quem é essa? — a voz dele veio baixa, mas cortante, do tipo que não precisa subir o tom pra assustar.
Camila riu, ainda inocente, sem entender o peso que aquela pergunta carregava.
— Essa é a Manuela, irmão. A moça que tá me ajudando com a limpeza. Ela vem uma ou duas vezes por semana, é ótima no que faz.
— É mesmo? — ele respondeu, olhando diretamente pra mim. O olhar dele era o mesmo do dia da operação: frio, firme, sem pressa. — E de onde é que você conhece a minha irmã, Manuela?
Engoli seco, tentando achar a voz.
— Eu... eu não conhecia, senhor. Só vim porque ela me chamou. Eu trabalho por dia.
Ele deu um passo à frente, e eu pude sentir o cheiro do couro do colete, o perfume forte misturado à fumaça e ao metal.
— Trabalha por dia... no asfalto?
— Onde me chamarem.
Ele inclinou um pouco a cabeça, o olhar ainda cravado em mim, como se procurasse uma mentira escondida em cada palavra.
— Cê é do Vidigal, não é?
— Sou. — Demorei um segundo pra responder.
Ele soltou um meio sorriso, sem humor.
— Que coincidência... o mesmo morro onde o BOPE subiu semana passada.
Camila o interrompeu, rindo nervosa:
— Alex, pelo amor de Deus, não começa. A moça só tá trabalhando, não tem nada a ver com isso.
Mas ele não tirava os olhos de mim. Deu mais um passo, até ficar perto o bastante pra que eu sentisse a sombra dele sobre mim.
— E se ela não tiver só trabalhando, Camila? — disse, sem olhar pra irmã. — Se for alguém mandado pra espionar? Pra ver quem entra e sai da minha casa?
— Que absurdo! — Camila rebateu, indignada. — Isso é paranoia sua! Ela é só uma menina tentando trabalhar, você tá vendo coisa onde não tem!
O olhar dele baixou pra mim outra vez.
E o silêncio entre nós pesou como chumbo.
— Tá me espionando, Manuela? — ele perguntou devagar, a voz baixa, ameaçadora. — Ou tá tentando se aproximar da minha família por outro motivo?
As palavras me atravessaram feito faca. Meu corpo inteiro tremeu, mas eu mantive o que restava da dignidade. Levantei o rosto, engolindo as lágrimas antes que caíssem.
— Eu só tô tentando trabalhar, senhor. Só isso.
Ele arqueou uma sobrancelha, desconfiado.
— Trabalhar?
— Sim — minha voz falhou um pouco. — Eu tenho um filho pequeno. Tô tentando colocar comida em casa, é só isso.
Camila olhou pra ele, irritada.
— Alex, por favor! Olha pra ela! Cê acha mesmo que essa menina tem cara de espiã?
Ele demorou a responder. Ficou me olhando em silêncio por longos segundos, como se tentasse me decifrar, e o que viu ali pareceu não servir pra nada.
Aos poucos, a rigidez no olhar dele virou desprezo.
— Você devia escolher melhor quem deixa entrar na sua casa, Camila. — A voz voltou gelada, controlada. — Gente do morro não deveria pisar aqui.
O chão sumiu dos meus pés. O rosto queimava, as mãos suavam, mas eu não deixei o choro escapar. Só abaixei a cabeça, respirei fundo e apertei a alça da bolsa.
— Eu... eu já tô indo. — murmurei, com a voz embargada. — Me desculpa se incomodei. Não vou voltar mais.
— Manuela, não precisa — Camila tentou segurar meu braço, mas eu recuei, sem coragem de olhar pra ela.
O capitão Alex, que agora eu sabia o nome, cruzou os braços, observando em silêncio, impassível. Nem um pingo de remorso. Nem um pingo de humanidade.
Peguei a bolsa, enfiei o pano dentro e caminhei até a porta. O som dos meus passos ecoou pela sala como se o chão fosse de vidro. Antes de sair, virei o rosto o suficiente pra falar, sem coragem de encará-lo de verdade.
— Não precisa se preocupar comigo, não, senhor. Eu não tenho tempo pra espionar ninguém. Só tô tentando todos os dias, não deixar meu filho passar fome.
Apertei os lábios pra conter o tremor, abri o portão e saí. O sol do asfalto me atingiu em cheio, quente, c***l. A rua parecia normal, mas dentro de mim tudo latejava: vergonha, raiva, impotência.
Caminhei rápido, com o coração pesado, o rosto molhado de suor e o gosto amargo das lágrimas presas na garganta.
E enquanto descia a rua de volta pro morro, uma verdade batia mais forte do que o calor: nessa cidade, a gente nasce condenado pelo endereço.
E por mais que tente, o asfalto nunca deixa esquecer de onde você veio.