31. Buarque

1262 Words
O sol ainda nem tinha nascido direito quando eu encostei o carro na frente da base. A cidade acordava devagar, o trânsito começando a se formar, e o som distante das motos subindo o morro se misturava com o barulho do rádio policial que nunca desligava. Entrei no pátio com o café na mão e um sorriso que eu nem tentei disfarçar. Era leve, quase imperceptível, mas estava ali, e sinceramente, nem eu sabia direito o porquê. Dormi pouco, quase nada, mas por algum motivo o corpo parecia mais solto, a cabeça mais clara. Talvez fosse alívio. Talvez fosse aquela mulher ainda na minha pele. Caveira me viu primeiro, encostado na viatura com o cigarro entre os dedos e o colete aberto. O olhar dele me mediu de cima a baixo antes de abrir aquele sorriso de canto, malicioso. — Ih, rapaz... olha a cara desse aí — disse, jogando a bituca fora. — Tu tá com o sorriso de quem saiu da seca, hein, safado. Revirei os olhos, passando direto por ele. — Vai te catar, Caveira. — Eu que não, tô ocupado demais rindo da tua cara. — Ele veio atrás de mim, o som das botas ecoando no piso. — Nunca vi o homem chegar na base de bom humor. Até café tu trouxe, olha só! Daqui a pouco me diz que vai escrever poesia. — Cala a boca. — Tomei um gole do café e entrei na sala, mas ele continuou me seguindo. — Fala a verdade, Buarque... foi ela, né? — — Ela quem? — — A menina do morro. — Ele se jogou na cadeira, o sorriso ampliando. — Eu sabia que essa história ia dar merda, mas tu... tu foi além. Joguei o colete na mesa e encarei ele por cima da caneca. — Fala baixo. — Tá vendo? — ele provocou. — Fala baixo, não conta pra ninguém, disfarça... típico de quem foi pego de jeito. Deixei escapar um sorriso involuntário, rápido demais pra conter. Caveira arregalou os olhos, teatral. — Eu sabia! Tu tá fodido. — Cala a boca, Caveira. — Tá fodido e sorrindo. — Ele riu alto, batendo palmas. — Essa é nova. Sentei na cadeira e comecei a folhear os relatórios da operação, fingindo que o assunto tinha acabado. Mas ele não era do tipo que deixava barato. — Tu sabe que não pode misturar, né? — perguntou, mais sério agora. — Tua cabeça tá no campo errado. Mulher e BOPE não combinam. — Eu sei o que tô fazendo. — Sabe, é? — Ele arqueou a sobrancelha. — Porque, do jeito que tá falando, parece até que acredita nisso. — Caveira, eu só quero um dia sem gente morta, sem tiroteio e sem político enchendo o saco. — Dei um gole no café, o olhar voltando pros papéis. — E se pra isso eu tiver que sorrir um pouco, deixa eu sorrir. Ele ficou em silêncio por um instante, me observando com aquele olhar que via além do que eu mostrava. Depois deu de ombros. — Beleza, capitão. Só não esquece que sorriso demais às vezes vem antes da queda. — Tô acostumado a cair. — É. Mas dessa vez, tu vai cair macio. — Ele sorriu de novo, malicioso. — E eu quero estar vivo pra ver. Levantei, pegando o colete de volta. — Bora trabalhar, palhaço. — Bora, safado. Enquanto saíamos, ele ainda ria, e eu fingia que não ouvia. Mas por dentro, o sorriso dele ecoava junto com o meu. Era irritante admitir, mas ele estava certo, algo tinha mudado. E, pela primeira vez em muito tempo, o caos dentro de mim parecia ter encontrado um tipo de sossego perigoso. Mas sossego nunca dura muito pra gente como eu. E eu sabia que, com Manuela, o que vinha depois desse sorriso não era paz. Era tempestade. O sol já tinha subido, queimando o asfalto e refletindo na lataria da viatura. O dia prometia ser longo, e quente. Eu dirigia em silêncio, o braço esquerdo apoiado na janela aberta, o vento entrando e bagunçando o ar abafado do carro. Caveira, do lado, falava sem parar, o rádio chiando no fundo com as comunicações da base. — Tá ouvindo, Buarque? — ele dizia, rindo. — Parece que os caras do 22 tão com problema de novo lá no Alemão. Tô te falando, se dependesse de mim, mandava todo mundo pra lá sem colete. — E tu ia junto, né? — falei, sem olhar. — Eu? — ele riu alto. — Tô aposentando, parceiro. Agora só fico de colete moral. Eu dei um meio sorriso, ainda olhando pra rua. Era assim: Caveira falava, eu dirigia. O equilíbrio perfeito pra não perder a sanidade no meio daquela rotina que comia a alma. Viramos a esquina de uma rua movimentada, cheia de barraquinhas, camelôs, o som de funk vindo de um bar. Foi quando ela apareceu, uma mulher alta, pele dourada pelo sol, vestido colado, cabelo solto que balançava como em câmera lenta. Caveira, lógico, reagiu na hora. — Ave Maria, olha isso, Buarque! — Ele se endireitou no banco, inclinando-se pra fora da janela. — Ô, princesa, me prende que eu confesso tudinho! A mulher olhou por cima do ombro e deu um risinho antes de seguir andando. Caveira bateu no painel, rindo. — Tá vendo? Ainda sou um charme ambulante. — Um constrangimento ambulante, isso sim. — Ah, para, capitão! Tu que tá de coração mole. — Ele me olhou de lado, malicioso. — A mulher mais bonita da rua passa e tu nem vira o pescoço. Desde quando o senhor é monge? — Desde sempre. — Mentira. — Ele acendeu um cigarro e tragou fundo. — Eu te conheço há dez anos. Nunca vi tu ficar tanto tempo calado depois de uma noite boa. Tá diferente, Buarque. — Diferente, não. — Dei de ombros. — Só cansado. — Cansado o c****e. — Ele riu. — Tá é amansado. E a culpa tem nome, endereço e provavelmente tá na tua cama. Não respondi. Só continuei dirigindo. — Olha essa tua cara, irmão. — Caveira balançou a cabeça, rindo sozinho. — Tu, o terror das mulheres do Batalhão, agora tá com o olhar perdido igual adolescente depois do primeiro beijo. — Termina o cigarro, Caveira. — Ah, não foge. — Ele se inclinou pra frente, ainda debochado. — A menina do morro mexeu mesmo contigo, né? Soltei um suspiro, o olhar fixo no trânsito. — A menina do morro, como tu chama, quase morreu por minha causa. É o mínimo eu garantir que não aconteça de novo. — Garantir ou se esconder atrás dessa desculpa pra continuar vendo ela? Fiquei em silêncio. Caveira deu uma risada curta. — É isso mesmo. Tá apaixonado, capitão. — Tu fala demais. — E tu sente demais. O rádio chiou, cortando o ar pesado entre nós. Uma voz anunciou um chamado de apoio no Engenho Novo. Eu aproveitei a deixa. — Bora trabalhar, poeta. Caveira soltou uma gargalhada e bateu no painel. — Aí sim! Agora falou o velho Buarque! Enquanto acelerava a viatura, o som da sirene cobriu o resto das provocações. Mas, no canto do olho, eu ainda via o sorriso dele, aquele sorriso de quem tinha visto mais do que eu gostaria de admitir. E, por um instante, a imagem da mulher na rua desapareceu. A que ficou na cabeça não usava vestido colado, nem salto. Usava a voz firme e os olhos que me enfrentavam como ninguém. Manuela Souza. O nome que, sem eu querer, já tinha virado minha fraqueza.
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