2. Buarque

1377 Words
A delegacia cheira a café requentado e pólvora velha. É um cheiro que eu aprendi a gostar, o tipo de perfume que lembra poder. São sete da manhã e o sol já bate torto nas janelas sujas da Central. Os moleques da base passam apressados com colete no braço, o rádio chiando com metade da Zona Sul chamando reforço. Eu só observo. De braços cruzados, farda preta ajustada no corpo, o distintivo pendurado no pescoço. Sou o capitão Alex Buarque. Dez anos no BOPE, vinte e três operações que viraram manchete e nenhuma bala perdida que me atingisse. Alguns chamam de sorte. Eu chamo de controle. Encosto na mesa, acendo um cigarro e espero o som conhecido: o passo arrastado e o ranger do joelho ferrado do Caveira. Ele aparece no corredor, mancando como sempre, com o mesmo sorriso torto e o mesmo deboche de quem já viu o inferno e pediu uma dose a mais. — Tá fumando de novo, Buarque? — ele pergunta, largando o capacete sobre a pilha de papelada. — A nicotina é o menor dos meus pecados, parceiro. — E qual é o maior? — A lista é longa. Ele ri. A risada rouca de quem já não teme nada. A gente trabalha junto há dez anos. Já arrastamos corpo, invadimos barraco, desarmamos moleque com fuzil e já quase morremos mais vezes do que eu consigo contar. Caveira é o único que ainda me chama de "Alex". Pro resto, eu sou "Capitão Buarque", e quando entro numa sala, o ar muda. A verdade é simples: o BOPE é o exército do caos, e eu aprendi a comandar o caos. Sou grande, forte, treinado pra matar com precisão e, sim, gostoso demais pra ter paz. As meninas da recepção acham que eu não percebo os olhares, mas percebo. Só não me importo. O corpo é ferramenta, igual a pistola. Serve pra impor respeito e pra garantir silêncio. — O novo comandante quer relatório das últimas batidas — diz Caveira, folheando o papel. — E quer que tu suba o Vidigal amanhã. — O morro do poeta, hein? — murmuro, soltando a fumaça. — Faz tempo que aquele lugar tá calado demais. — É. E quando o morro tá quieto, é porque tem merda grande vindo. Fico em silêncio, encarando o mapa preso na parede. O traçado das vielas, o caminho do alto até o asfalto. Conheço cada curva. Cada beco. Já prendi, já bati, já comprei silêncio naquele chão. Não sou o tipo de policial que acredita em herói. O BOPE não salva. O BOPE domina. E quem acha que eu sou limpo demais pra isso, nunca olhou direito. Sou linha dura. Corrupto, se quiserem chamar assim. Vendo paz pra quem pode pagar, vendo guerra pra quem merece sentir. Tudo tem preço. — Vai subir tu e tua equipe, né? — Caveira pergunta, ajeitando o joelho. — Eu, tu, e o resto da tropa. — A gente podia aposentar, sabia? Comprar uma casinha no interior, plantar couve. — Couve é verde, parceiro. Verde me dá alergia. Ele gargalha. Eu apago o cigarro na borda da mesa e pego o colete. Não falo, mas ele sabe. Eu não nasci pra paz, não combina comigo. A rua é meu campo. O morro, meu tabuleiro. E amanhã, quando o helicóptero sobrevoar o Vidigal, vai ser mais um dia em que eu visto a farda, aponto o fuzil, e tento lembrar que ainda tenho alma. Nem sempre lembro. Mas o que importa é que, enquanto o BOPE subir, o medo desce. E eu sou o homem que carrega esse medo nas costas: grande, gelado, perigoso. O resto da manhã passa entre relatórios, risadas abafadas e o cheiro de suor e café queimado que parece impregnado nas paredes da delegacia. O tipo de rotina que a maioria chamaria de inferno, mas pra mim é conforto. O barulho do rádio, o som metálico das armas sendo limpas, o telefone tocando sem parar, tudo isso é música. Caveira tá sentado na minha frente, com o joelho estendido sobre uma cadeira, limpando a pistola com um pano sujo. — Cê viu o noticiário, Buarque? — ele pergunta, sem levantar os olhos. — Tão dizendo que tem criança sumindo lá no Vidigal. Eu ergo o olhar, impassível. — E quando é que o noticiário acerta, hein? — Dessa vez parece que é verdade. A amante do sargento da PM mora lá embaixo, falou que o povo tá apavorado. Dou um trago no cigarro e fico observando a fumaça subir. É engraçado como a cidade muda de tom dependendo de onde você tá. Lá de cima, o morro parece uma ferida aberta. Aqui de baixo, é só mais uma notícia. — Se tiver criança sumindo, a gente descobre. — digo por fim. — Mas não porque eu acredito em justiça. É só pra manter o equilíbrio. Caveira ri baixo, um som rouco, cansado. — Tu devia escrever um livro, sabia? "Filosofia de um filho da p**a fardado." Ia vender bem. Sorrio de canto. — E tu ia comprar a primeira cópia. — Óbvio. Ia pedir autógrafo. Ele me encara, e eu sei que ele tá tentando ler o que se passa por trás do meu silêncio. Só ele tenta. Só ele tem essa ousadia. — Às vezes eu fico pensando, Buarque... — ele fala devagar, apoiando os cotovelos na mesa. — Se tu lembra como era antes da farda. — Antes da farda? — repito, com um meio sorriso. — Antes da farda, eu era só mais um filho de ninguém, tentando não morrer cedo demais. Agora eu sou o homem que decide quem morre. O silêncio que vem depois é denso. A gente se encara por um instante, e o rádio estala, quebrando o ar. Uma voz rouca pede reforço numa operação na Penha. Eu desligo o som com um toque firme. Não é meu setor. Me levanto, alongando o corpo. O colete estala, o tecido tenso moldando nos ombros largos. Passo a mão no cabelo e olho meu reflexo no vidro da sala. Olhos escuros, duros. Nenhum traço de arrependimento. — Bora comer alguma coisa, Caveira. — Bora, chefe. Mas se tu me levar naquele boteco da esquina de novo, eu te denuncio por maus-tratos. — Cala a boca e anda logo. A gente sai da delegacia com o sol do meio-dia cortando o asfalto. O calor gruda na pele e o cheiro de gasolina se mistura com o sal do mar que vem lá de longe. Caminhamos lado a lado, e eu percebo como ele manca mais quando o tempo esquenta. — Tá pior esse joelho, né? — Velho de guerra, parceiro. Fura a carne, mas não dobra. — Já te falei pra operar. — Já te falei que não confio em bisturi. No boteco, o garçom já sabe o que a gente vai pedir: dois pratos feitos e duas garrafas de água. A mulher do caixa sorri, ajeita o decote, e eu ignoro. Caveira ri. — Tu devia aceitar um pouco de carinho, Buarque. Vai acabar virando pedra. — Pedra não sente dor. — Mas também não sente prazer. — É o preço da paz. Ele balança a cabeça, rindo. — Tu fala essas merdas e ainda acha que é normal. — Eu nunca disse que era normal. O almoço chega. Arroz, feijão, bife duro. Eu como rápido, em silêncio, observando as pessoas ao redor. A cidade vive num ritmo que não combina com o meu. Tudo é barulho, pressa, sobrevivência. Quando terminamos, pago a conta com uma nota amassada e deixo gorjeta generosa. O garçom agradece com os olhos, e Caveira me cutuca com o cotovelo. — Cê é corrupto, mas tem coração. — Não confunde culpa com generosidade. De volta à rua, o sol já começa a cair, dourando o concreto. Eu olhei pro alto, pro morro e sinto aquela velha pulsação nas veias. O chamado. A linha invisível que puxa quem nasceu pra guerra. Caveira percebe. — Tu tá pensando na operação de amanhã, né? — Sempre penso um dia antes. — Acha que vai dar merda? — Sempre dá. E mesmo assim, um canto da minha boca se ergue. Porque, no fundo, é ali que eu me sinto vivo. No limite. No risco. No caos.
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