A madrugada já ia alta, o relógio marcava quase três da manhã, e o silêncio do apartamento era estranho demais. Eu ainda estava na sala, sentada no sofá, tentando colocar os pensamentos em ordem. Mas ele não saía da minha cabeça.
O som dos passos dele vinha baixo, compassado. O tipo de homem que preenche o ambiente só por existir. Ele apareceu na cozinha, com uma camiseta preta simples e calça de moletom, descalço, o corpo ainda carregando o peso da farda mesmo sem ela.
A luz fria da cozinha cortava o rosto dele em sombras, realçando o maxilar, a rigidez dos ombros, o olhar de quem não dorme há dias.
— Não conseguiu dormir? — perguntou, a voz grave, meio rouca de cansaço.
— Não. — Cruzei os braços, sem conseguir disfarçar o tom. — Lugar novo. Difícil relaxar quando não se sabe se tá presa ou protegida.
Ele encostou-se no balcão, cruzando os braços também. O olhar dele percorreu meu rosto, depois o ambiente, voltando pra mim.
— Eu te falei que era pro seu bem.
— Eu já ouvi isso antes.
— Não de mim.
— Isso muda alguma coisa?
Ele não respondeu. Só ficou ali, me olhando. E aquele silêncio... aquele silêncio era o problema.
Porque nele tinha tudo: a raiva, a confusão, o desejo contido e o medo de admitir o que a gente sentia desde o primeiro dia.
— Você sempre faz isso? — perguntei, quebrando o clima. — Mandar, decidir, entrar na casa dos outros, arrumar a vida deles como se fosse dono?
— Eu faço o que precisa ser feito.
— E o que te faz achar que eu preciso de você?
Ele se endireitou, o olhar firme.
— O fato de você ainda estar viva.
As palavras caíram entre nós feito pedra. E por um instante, eu não soube se queria bater nele ou agradecer.
— Você é impossível — sussurrei.
— E você é teimosa. — Ele deu um meio sorriso, um sorriso pequeno, cansado. — Péssima combinação.
— Pro seu azar, eu não sou das que abaixam a cabeça.
— E pro meu azar, eu gosto disso.
O tom dele mudou. Ficou baixo, quase um murmúrio, mas pesado o bastante pra me deixar sem ar.
O olhar dele ficou preso no meu, e o tempo pareceu desacelerar. Um segundo. Dois. Três.
A distância entre nós parecia menor a cada piscada.
— Você devia parar de me olhar assim — disse ele, ainda sem se mover.
— E como é que eu tô te olhando?
— Como se soubesse que eu sou o erro e mesmo assim quisesse ver até onde ele vai.
O ar entre nós ficou elétrico. Eu engoli em seco, mas não respondi. O corpo dele era uma ameaça silenciosa: parado, firme, mas prestes a romper o limite.
Ele deu um passo à frente.
Lento. Calculado.
Meu corpo reagiu antes da minha cabeça. O coração disparou, o ar pareceu faltar. Eu devia recuar, devia dizer alguma coisa - qualquer coisa - mas fiquei ali, imóvel.
Ele parou perto, o suficiente pra eu sentir o calor que emanava dele, o cheiro leve de sabonete misturado com o de pólvora e café.
— Eu não vou te machucar — disse, a voz baixa, carregada de algo que parecia promessa e aviso ao mesmo tempo.
— Eu sei. — respondi, mesmo sem ter certeza.
A tensão ficou ali, viva, pulsando, como se o menor movimento fosse o bastante pra explodir tudo.
A tensão ficou ali, viva, pulsando, como se o menor movimento fosse o bastante pra explodir tudo. O olhar dele desceu da minha boca para o meu pescoço, para a curva dos meus s***s sob o tecido fino da minha roupa, e eu senti cada lugar que seus olhos tocaram como um choque de fogo.
Ele respirou fundo, mas não se afastou. Em vez disso, o som que saiu da garganta dele foi um rosnado baixo, quase animal.
— Chega, Manuela. Chega de joguinho.
Antes que eu pudesse responder, ele fechou a distância de uma vez. Sua mão agarrou a nuca, os dedos se enterrando no meu cabelo, puxando minha cabeça para trás até que nossos olhos se travassem novamente.
Seus olhos estavam completamente escuros, a pupila dilatada, consumindo a íris. Não havia mais raiva, nem dever, nem controle. Só fome. Uma fome crua e desesperada.
— Eu tentei ser o cara certo — ele sussurrou, a boca a um centímetro da minha, o hálito quente de cigarro me envolvendo. — Tentei te proteger, te manter longe. Mas você fica me olhando com esses olhos de desafio, como se quisesse que eu te quebrasse. É isso que você quer?
— Alex... — meu sussurro saiu trêmulo, mas meu corpo se arqueou contra o dele, me traindo.
— Fala — ele ordenou, a voz áspera, suplicante. A mão dele desceu das minhas costas, agarrando minha cintura e puxando com força contra ele, para que eu sentisse todo o peso duro e insistente do seu desejo. — Me fala pra parar e eu paro.
Ele parou, ofegante, esperando. Era a última defesa, a única concessão que um homem como ele poderia dar.
Eu olhei para aquela boca que conhecia cada curva da minha desgraça, para os olhos que me vigiavam há tanto tempo, e não consegui encontrar uma única mentira para me salvar.
Em vez de falar, eu fechei a distância final.
O beijo foi uma conflagração. Não foi doce; foi uma rendição mútua, uma batalha onde ambos se entregaram como prêmio. Suas mãos percorreram meu corpo com uma urgência possessiva, puxando a blusa para cima, os dedos encontrando a pele nua da minha cintura.
Ele quebrou o beijo, ofegante, e enterrou o rosto no meu pescoço, os lábios percorrendo a linha do meu pulso até o ombro.
— Por favor — a voz dele saiu abafada contra minha pele, um rugido abatido e vulnerável que eu nunca tinha ouvido. — Me deixa ter você. Só dessa vez. Me deixa esquecer tudo menos o gosto de você.
Era um pedido. Uma oração. Ele, o homem mais durão que eu conhecia, estava ali, tremendo, implorando como um cachorro no limiar. E naquele instante, eu soube que eu sempre tivera todo o poder. E que eu ia usá-lo para me perder com ele.
Minhas mãos encontraram a barreira da calça do moletom dele. Um puxão, um gemido abafado, e não havia mais nada entre nós a não ser a verdade nua e crua do nosso desejo.
— Então esquece — sussurrei no ouvido dele, antes de levá-lo para o chão.