16. Buaque

1039 Words
Eu ainda sentia o sangue dos dois desgraçados nas mãos quando entrei no carro. A raiva ainda pulsava nas veias, mas era outro tipo de raiva: fria, calculada, o tipo que não passa. Liguei o motor, mas não dirigi. Fiquei ali, parado na esquina, observando a viela onde ela morava. A porta ainda entreaberta, a luz fraca dentro da casa. Eu sabia que ela estava lá dentro, trancada, com o coração batendo do mesmo jeito que o meu estava agora: rápido, tenso, confuso. O problema é que eu não devia ter me importado. Era pra eu ter ido embora logo depois de resolver o que tinha pra resolver, largar os dois vagabundos no chão e seguir pra próxima operação. Mas o rosto dela, o jeito que ela tremia tentando disfarçar, o olhar firme quando me encarou, tudo aquilo me prendeu ali. A maioria das mulheres abaixa a cabeça quando vê uma arma. Ela não. Ela olhava pra mim como se estivesse pronta pra lutar, mesmo sabendo que perderia. E isso me irritava e me fascinava ao mesmo tempo. Peguei um cigarro e acendi, deixando a fumaça preencher o carro. O som do motor desligado e o cheiro de pólvora ainda na roupa me faziam lembrar que eu tinha passado do limite. Não era meu papel bater em ninguém sem ordem, muito menos me envolver em coisa pessoal. Mas, quando vi aquele nóia encostando nela, alguma coisa dentro de mim virou ferro quente. Caveira sempre diz que o morro muda a gente. Que o poder de decidir quem vive e quem apanha vicia. Talvez ele esteja certo. Mas o que eu senti ali não foi poder. Foi posse. E isso é pior. Ela disse que sabia que fui eu quem mandou a cesta. Claro que sabia. Aquela mulher é esperta, o tipo que vive farejando perigo, porque o perigo sempre ronda. Eu só não esperava que ela tivesse coragem de me jogar a verdade na cara daquele jeito, de olhar pra mim e dizer que não queria nada vindo de mim. Ninguém fala comigo assim. Ninguém me n**a. E foi aí que entendi o motivo da minha obsessão. Manuela não é como as outras. Ela não quer nada que venha fácil. E, quanto mais ela tenta me afastar, mais eu quero aproximar. É instinto. Caçador e presa, só que ela ainda não entendeu o papel dela na história. Dei um trago longo no cigarro, observando a fumaça se espalhar no ar. A rua estava quieta, e o vento quente da noite subia do asfalto. Do alto, o morro parecia calmo, uma mentira bonita. Lá dentro, tudo fervia: o crime, o medo, e agora, ela. Peguei o rádio e avisei que voltaria pra base mais tarde. Não disse pra onde ia, porque nem eu sabia direito. Só sabia que não conseguia sair dali. Ela me provoca sem nem abrir a boca. O jeito como fala comigo, tentando me reduzir, tentando fingir que não sente medo ou que sente e mesmo assim não foge. Isso me tira do eixo. Eu, que sempre soube controlar tudo, percebi que não consigo controlar o que quero fazer com ela. Pensei em voltar, só pra vê-la mais uma vez, mas me contive. Seria cedo demais. Eu precisava que ela sentisse a minha ausência, que ficasse com aquela mistura de medo e curiosidade que vi nos olhos dela quando me encarou antes de entrar. Joguei o cigarro pela janela, liguei o carro e desci o morro devagar, o farol iluminando as paredes pichadas e as crianças brincando descalças, s*******o do inferno que o mundo é. Enquanto dirigia, o rosto dela não saía da cabeça. A voz, o cheiro, o tremor da respiração. Tudo ainda grudado em mim como se tivesse deixado uma marca invisível. Eu sabia que ela ia tentar me evitar. Que ia me odiar mais a cada vez que eu aparecesse. Mas também sabia que, quanto mais ela tentasse resistir, mais eu ia querer testar o limite dela. E talvez fosse isso que me prendia tanto. O desafio. O olhar dela me desafiando a ser pior, e eu, aceitando. No fundo, eu já tinha decidido. Manuela podia dizer o que quisesse, podia jurar que não queria nada meu. Mas eu ia estar por perto. Ela querendo ou não. Porque no meu mundo, quem entra, não sai. E ela, sem saber, já tava dentro. (…) A delegacia estava silenciosa quando cheguei. A luz fria do corredor piscava, e o cheiro de café velho tomava o ar. Sentei na minha mesa, joguei o colete de lado e fiquei um tempo só encarando o nada. Caveira apareceu minutos depois, mancando e com aquele ar de quem já sabia que vinha problema. — Te viram no morro hoje. Dois vagabundos quebrados, uma mulher chorando no beco... e tu no meio. Quer me contar o que foi isso? Continuei quieto, girando o isqueiro entre os dedos. — Não inventa de dizer que foi coincidência, Buarque. Tu tá ficando obcecado. — Eu resolvi um problema. — Resolveu demais. — Caveira apoiou as mãos na mesa. — Tá deixando essa mulher mexer contigo. — Ninguém mexe comigo. — Mexe sim. E tu sabe. Tua cabeça tá nela, não no serviço. — Ele riu, seco. — Eu só tô controlando o território. — Fiquei um tempo em silêncio antes de responder. — Território com nome e filho pequeno? — balançou a cabeça. — Isso não é controle, é fraqueza disfarçada. Me inclinei pra frente, o olhar firme. — Eu não erro, Caveira. — Todo homem erra. O problema é quando o erro tem rosto. As palavras ficaram no ar, cortando o silêncio. Ele me olhou por um tempo, depois suspirou. — Só toma cuidado, irmão. Mulher assim... é o tipo que faz a gente esquecer quem é. Peguei o cigarro, acendi e dei um trago lento, sem tirar os olhos dele. — Eu sei exatamente quem eu sou. — É. — Caveira deu um passo pra trás, abrindo um meio sorriso cansado. — Mas será que ela sabe? Ele saiu, e eu fiquei ali, sozinho. A fumaça subia devagar, se espalhando no ar. E, pela primeira vez em muito tempo, eu não tinha certeza se ainda era eu quem tava no controle.
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