O barulho do helicóptero ainda cortava o céu quando eu percebi que não tinha mais pra onde correr. O beco parecia menor, o ar mais pesado, o coração martelando no peito como se quisesse fugir antes de mim. Segurei a sacola com força, mas os dedos escorregavam de tanto suar.
Os gritos ecoavam lá embaixo, misturados ao estalo seco dos tiros e às vozes firmes dos policiais.
Cada comando era uma sentença:
— Fecha a viela!
— Revista todo mundo!
— Olho vivo, tem movimento no alto!
Encostei na parede fria e respirei fundo, tentando não desabar. O corpo tremia, o medo subia feito febre. E quando o som das botas pesadas chegou perto, soube que era minha vez.
— Mão na cabeça!
Levantei os braços antes mesmo de olhar. Dois deles apontavam as armas na minha direção. A luz do helicóptero refletia no metal do fuzil e cegava por um segundo.
— Eu moro aqui! — a voz saiu embargada. — Eu só tava voltando do mercado, moço, pelo amor de Deus...
Um deles chutou a sacola. O barulho foi seco, plástico rasgando, comida rolando no chão. O arroz se espalhou, o feijão rasgou o pacote, a carne caiu na poeira. Fiquei olhando, parada, com as mãos ainda no alto, sentindo um nó apertar o estômago.
— Limpa, capitão.
O tal capitão apareceu. Era grande, farda preta, olhar duro. O tipo de homem que não precisa levantar a voz pra ninguém obedecer. Ele parou, me olhou de cima a baixo, e por um segundo pareceu pesar a cena.
— Qual o seu nome?
— M-Manuela.
— Mora onde, Manuela?
— Na quatorze, lá em cima.
— Sozinha?
— Com meu filho.
Ele ficou em silêncio por um momento, depois soltou seco:
— Volta pra casa. Fecha a porta.
— Eu preciso buscar meu filho! Ele tá na creche lá embaixo!
— Ninguém sobe, ninguém desce até a operação acabar.
— Mas ele é só uma criança...
O olhar dele gelou tudo. Não teve piedade. Não teve espaço pra isso. Apenas repetiu:
— Vai pra casa.
Engoli o choro, baixei devagar as mãos e me abaixei pra pegar o que restou. O feijão tava sujo de pó, a carne com terra, o macarrão rasgado. O dinheiro de ontem e de hoje, transformado em nada.
Minhas mãos tremiam. Não sabia se era de raiva, de medo, ou da sensação horrível de impotência.
Ali, no meio do beco, com os olhos ardendo e a garganta fechada, eu só conseguia pensar no Ítalo.
Na creche. No barulho dos tiros chegando mais perto de onde ele devia estar.
Fiquei de pé, respirando fundo pra não desabar ali mesmo. O capitão já tinha virado as costas, falando com outro homem, a voz firme, fria. Pra eles, eu era só mais uma. Mais uma mulher no morro, mais uma moradora, mais um rosto anônimo entre centenas.
Apertei o resto das compras contra o peito e comecei a subir. O chão cheirava a pólvora. O ar, a medo.
E no meio daquela confusão, com o som do helicóptero rugindo sobre o telhado, eu entendi o que o morro queria dizer naquele dia: a gente pode lutar, trabalhar, juntar moedinha por moedinha...
mas basta um passo errado, uma operação errada, pra ver tudo se perder no chão.
Subi devagar, o corpo doendo, o peito queimando.
Cada passo era um esforço pra não chorar.
Porque o dinheiro tinha ido embora. A comida tinha virado pó e o meu filho ainda tava lá embaixo, no meio de tudo.
E eu não podia fazer nada.
Subi o morro com o peito travado, o som do helicóptero ainda zunindo por cima das casas como uma praga que não ia embora. As pessoas se enfiavam dentro dos barracos, portas se batendo, janelas fechando.
O medo tem um som que a gente aprende a reconhecer, é o silêncio de quem tá vivo, tentando continuar.
Segurei o resto das compras com força, o plástico cortando a pele dos dedos, e tentei respirar fundo. O ar tava quente, misturado com o cheiro de fumaça, de suor, de gás. Cada passo parecia um peso a mais nas costas. O morro era uma ferida aberta, e a gente caminhava por cima dela como se não doesse.
Quando cheguei na viela da minha casa, a Dona Inês, a vizinha do barraco da frente, me chamou baixinho da janela.
— Menina, entra logo, tão subindo até a parte alta agora.
— A creche, Dona Inês... o Ítalo tá lá embaixo ainda.
— Não desce, pelo amor de Deus. Eu vi o tiroteio vindo daquele lado.
Engoli em seco. Me apoiei na parede pra não cair.
A vontade era sair correndo, descer o morro e pegar meu filho no colo, nem que fosse no meio da confusão. Mas as pernas não obedeciam. O medo prendia mais do que qualquer arma.
Entrei em casa e fechei a porta. O som do tranco foi pesado, cortando o ar. O barraco tava abafado, quente, o chão sujo de pó e areia que o vento trouxe.
Coloquei a sacola em cima da mesa, e fiquei olhando pro arroz espalhado, tentando entender como o mundo podia ser tão c***l com quem já tem tão pouco.
Sentei no chão, o corpo mole, as mãos ainda tremendo. O barulho dos tiros vinha e ia, ora longe, ora perto. E eu ali, parada, pensando no Ítalo. No cheiro dele, no jeito que ele dormia agarrado no travesseiro, na voz doce dizendo "te amo, mãe" antes de ir pra creche.
As lágrimas vieram sem aviso. Molharam o colo, caíram sobre o chão de cimento. Chorar não resolve, mas às vezes é a única coisa que sobra.
Peguei o celular, com o coração apertado, tentando ligar pra creche. Sem sinal. Aquele maldito "sem serviço" piscando na tela como deboche. Tentei de novo, e de novo. Nada.
Bati o punho na perna, raiva e desespero misturados. Eu fazia tudo certo: trabalhava, estudava quando dava, cuidava dele, me afastava do que podia dar errado. E mesmo assim o mundo insistia em me arrancar o pouco que eu conseguia construir.
Senti o chão tremer com outro disparo, mais próximo dessa vez. Fechei os olhos e abracei as próprias pernas.
— Só isso que eu peço, meu Deus… só deixa meu filho voltar pra casa vivo...
Fiquei ali por um tempo que não sei medir, minutos, talvez horas. Até o som dos tiros começar a diminuir, e o helicóptero se afastar, deixando o morro num silêncio estranho. Silêncio de quem sobreviveu.
Levantei devagar. As pernas ainda bambas, o coração acelerado. Peguei a bolsa, enfiei o celular dentro e saí. A rua tava coberta de fumaça e cascas de bala. Um cachorro latia ao longe, uma mulher chorava encostada na parede. Os policiais começavam a descer.
O medo não passou, mas a urgência falou mais alto.
Apertei o passo, ignorando as vozes que diziam pra eu esperar. Desci o morro com o coração quase saindo pela boca, o suor frio escorrendo pelas costas, o corpo inteiro tremendo.
Quando vi a creche ao longe, o portão ainda fechado, minhas pernas fraquejaram. Comecei a correr.
— Ítalo! — gritei, a voz falhando. — Ítalo!
A diretora veio ao meu encontro, o rosto tenso, suado.
— Tá tudo bem, Manu! As crianças tão bem, a gente ficou trancado no refeitório até o barulho passar!
E antes que ela terminasse de falar, eu vi. Lá dentro, perto da janela, o rostinho dele. Ítalo me viu e correu, sorrindo, os cachos pulando.
— Mãe!
Me ajoelhei no chão e abri os braços. Ele pulou em mim, e o mundo inteiro pareceu respirar de novo.
Abracei ele com força, tão forte que doeu. O corpo pequeno, o cheiro de sabão da creche, o coração dele batendo contra o meu.
— Tá tudo bem, meu amor... tá tudo bem. —
Mas não tava. Nada tava. Porque o morro ainda queimava, e eu sabia que o amanhã podia ser igual, ou pior.
E mesmo assim, segurei ele mais forte. Porque às vezes sobreviver é o máximo que a gente consegue fazer.