Sombras e Correntes

603 Words
PRÓLOGO ELA Meu nome é Açucena como um sussurro doce que se perde no vento. Foi minha mãe quem escolheu, acreditando — talvez ingenuamente — que o mundo me trataria com delicadeza. “Um nome de flor”, dizia, passando os dedos pelos meus cabelos, tentando me proteger da aspereza da vida. Mas flores não nascem apenas em jardins. Algumas crescem no concreto, no frio… no escuro. Eu fui uma dessas — uma flor que ninguém plantou, mas que simplesmente brotou onde a inocência não tinha espaço. Nasci atrás de uma porta trancada, enquanto do lado de fora risos falsos, passos pesados e vozes masculinas se misturavam a uma música alta. Minha mãe não era daquele estado. Promessas a levaram para longe de casa, correntes invisíveis a mantiveram ali. Nunca contou tudo, mas aprendi a ler silêncios: ela havia sido vendida. Cresci entre paredes vermelhas e fumaça de cigarro. As mulheres daquele lugar foram minhas professoras, minhas protetoras. Me ensinaram a me esconder atrás das cortinas e embaixo da cama, a reconhecer um olhar bêbado ou perigoso, a sobreviver. Aos doze anos, a morte levou minha mãe. Silenciosa. Quase gentil. Eu não chorei. Lágrimas custavam caro demais. Com dezenove, a dona do lugar decidiu que meu corpo tinha valor. Um leilão. Homens bem vestidos, olhares que me despiram antes mesmo de me tocarem. Eu estava ali — um objeto. Uma mercadoria. Foi então que ela apareceu. Uma mulher feita de silêncio e inverno. Alta, cabelos longos e loiros, pele pálida e olhos frios demais para pertencerem a alguém vivo. Ela não sorriu. Não hesitou. Apenas fez uma oferta — e naquele instante, eu deixei de existir para o mundo e passei a pertencer a ela. A viagem foi muda. Ela olhava o horizonte como se eu nem estivesse ali. Quando chegamos, a estrada nos levou até uma mansão cercada por montanhas e vento. Bela. Intimidante. Isolada. Um castelo… ou uma prisão. Ao entrar, senti algo frio tocar minha alma. Aquele lugar não tinha vizinhos. Não tinha vozes. Só silêncio. Silêncio profundo demais. Naquela noite, deitada em uma cama macia demais para uma vida dura como a minha, eu me perguntei se tinha sido salva… ou apenas transferida para uma escuridão mais elegante. E eu ainda não sabia — mas aquela mansão guardava mais fantasmas do que paredes. ELE Dizem que o tempo cura tudo. Eu descobri o contrário: existem feridas que nunca param de sangrar. Eu fui traído. Não por um inimigo… mas por alguém que dividia comigo segredos, planos, confiança. Antes da lâmina atravessar a pele, a alma reconhece a traição — e essa dor… essa é a pior. Vieram torturas. Longas. Precisas. Feitas para quebrar não o corpo, mas o espírito. Perdi tudo — inclusive partes de mim que nunca recuperei. Quando meu corpo finalmente voltou a obedecer, restou apenas um propósito: vingança. E eu a cumpri. Metódica. Lenta. Intimista. Bebi o medo dele como vinho e observei a vida se esvair dos olhos que um dia ousaram me trair. Pensei que aquilo me libertaria. Mas não libertou. Então retornei ao único lugar onde o mundo não podia me tocar: a mansão nas montanhas austríacas. Silenciosa. Escura. Um refúgio e uma sentença. Anos passaram. Me tornei pedra. Vazio. Um homem condenado a vagar entre memórias quebradas. Até o dia em que eu a vi — frágil, quebrada, tão solitária quanto eu. Não comprei beleza. Não comprei obediência. Comprei silêncio. Mas quando seus olhos encontraram os meus pela primeira vez… Algo que eu acreditava morto se mexeu. Não era amor. Não era compaixão. Era destino. E ele sempre cobra sua parte.
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