Capítulo — Segredo
" A proteção da inocência é algo raro em dias que a maldade humana domina."
Açucena
O mundo de toda e qualquer criança deveria ser lúdico, bonito e sem dores. Mas não foi bem isso que aconteceu comigo.
Em meus dezoito anos de vida tive apenas uma casa, um lugar que chamava de lar — embora de lar não tivesse quase nada.
Na minha inocência pequenina, acreditava ter uma família grande, formada em sua maioria por mulheres. Minha mãe dizia que eram suas irmãs, e eu acreditava. Por que não acreditaria? Afinal, era a minha mãe quem dizia, e mães não mentem... pelo menos eu pensava assim.
Para mim, minha mãe era um exemplo. Todos os domingos íamos juntas a uma igreja bem distante de casa. Pegávamos três conduções até chegar lá. Uma vez perguntei por que não íamos em alguma das igrejas próximas. Mamãe respondeu que aquelas não tinham a unção de Deus. Dei de ombros. Se ela dizia, quem era eu para discordar?
Confesso que eu adorava os domingos: era o tempo em que minha mãe era só minha e não precisava dividi-la com ninguém. Esse pensamento pequeno enchia meu peito de alegria. Eu não tinha ideia do trabalho que minha mãe fazia, muito menos do que se tratava. Ela me poupou o quanto pôde... até que, aos sete anos, cheguei em casa emburrada.
Naquele dia, eu queria saber quem era o meu pai e o que significava a palavra “půta”. Nunca vou esquecer a forma como ela me olhou: havia choque em seus olhos e desespero na forma como buscava ajuda, os olhos inquietos.
— Quem te falou essas palavras, Açucena? — perguntou, piscando devagar.
— Foi a Tamara, mãe! Ela disse que eu não tenho pai porque sou filha de půta.
Ouvi um muxoxo vindo das “irmãs” da minha mãe.
— Então, mamãe... eu tenho pai, né? Ela mentiu porque é uma garota má e bobona! — falei cruzando meus bracinhos franzinos. Minha mochila de unicórnio pendia de um lado só, pesada com cadernos e meu estojo de pintura.
Foi quando tio Giorgio bateu palmas e pediu licença às minhas tias. Mamãe tentava segurar as lágrimas, mas seus lábios trêmulos não conseguiram pronunciar nada — apenas se permitiu deixaram escapar pequenas gotas salgadas de seus olhos.
Tio Giorgio se abaixou até ficar da minha altura. Ele usava saltos enormes e tinha a boca pintada de batom vermelho. Falou com carinho:
— Açucena, minha flor desse sertão, aqui todos nós temos pais. Não somos filhos de chocadeiras. Você também tem o seu, só que ele mora com Jesus, lá no céu. Virou uma linda estrelinha.
Fiquei em silêncio, mas antes que eu pudesse reagir, ele continuou, exaltado:
— E quando essa Tamara vier falar alguma coisa, você prepara o punho e dá um soco na boca dessa misér...
— Giorgio! — gritou mamãe, horrorizada.
Ele ergueu as mãos, rindo:
— Tá bom, tá bom, o tio exagerou. Não precisa socar, dá só um puxão de cabelo, joga a cabrita no chão e depois você...
— Giorgio, por favor! — interrompeu tia Mary, indignada.
Ele se levantou sob os olhares bravos de todas. Eu reconhecia bem quando estavam zangadas.
— O que foi, gente?! Ora essa! Só estou ensinando a flor a se defender dessas crianças ruins, que já nascem com a semente do m*l no coração!
— Mas não assim, Giorgio. — disse tia Mary. — Açucena pode acabar indo parar na direção da escola. Devemos ensinar o bom caminho, não o r**m.
Ele bufou, mas sorriu para mim.
— Então, florzinha, sabe o que você faz? Samba na cara da inimiga! Assim ó...
E começou a sambar de forma engraçada, arrancando de mim gargalhadas. De repente, a raiva que eu sentia se desfez. Por um instante, tudo em mim era paz... ainda que agora eu soubesse que meu pai não passava de uma estrelinha no céu, mas um cliente frequentador da casa.
Aquele dia passou, mas vieram outros em que fui repelida como um cão sarnento pelas crianças da escola. Elas não gostavam de brincar comigo ou de fazer algum trabalho. Suas mães me olhavam torto, e cheguei a ouvir de algumas que eu era uma má influência.
Sequer sabia o significado de “influência”, apenas de “má”. E elas estavam erradas: eu não era má. Mamãe me ensinou a não falar palavras feias e a respeitar o próximo.
Todos os dias naquela casa cheia de quartos eram bons, porém, à noite, eu não podia sair do quarto, não podia andar pelo corredor. Tinha que ficar quieta e não fazer nenhum barulhinho que fosse. Na maioria das vezes eu dormia ouvindo música ou histórias infantis nos fones de ouvido.
Mamãe se pintava toda, saía usando uns vestidos brilhantes. Eu a achava linda, uma princesa.
— Mamãe, quando eu crescer quero ser igual à senhora. — falei cheia de orgulho.
Minha mãe apertou fortemente o cabo do pincel que segurava entre os dedos. Ela se abaixou, ficando com os olhos na mesma direção que os meus.
— Você será bem diferente de mim, Açucena. Vai ser alguém que não terá vergonha de se olhar no espelho.
Ela tinha vergonha de se olhar no espelho, antes eu em minha tenra idade, não entendia. Hoje a realidade me aplica diversos golpes, um mais dolorido que o outro.
Recebi um beijo. A porta do quartinho se fechou e depois ouvi apenas o barulho da fechadura me trancando. Era o momento de ouvir minhas histórias infantis e orar para que os porquinhos não abrissem a porta para o lobo mau.
Essas memórias ainda estão frescas em mim, iguais a muitas outras.
Por exemplo; certa noite mamãe esqueceu de trancar a porta, sai sorrateira do quartinho correndo nas pontas dos pés. Fui parar perto da escada, meus olhos ficaram enormes ao ver as minhas tias andando de trajes intimos nos meio de vários homens, algumas estavam com os s***s ao vento.
Tentei voltar correndo para o meu cantinho e sem prestar atenção por onde ia, colidi com uma senhora de longo cabelos pretos, dona de um olhar duro. Ela me segurou pelo braço.
— Ora, o que temos aqui? Uma pequena intrometida. - falou abrindo um sorriso perverso, meu coração pequeno sacudiu as minhas costelas. Estremeci sobre sua avaliação.
— De onde você veio, menina? - perguntou em tom seco.
Não consegui responder o medo não deixou.
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