Vendedora de mulheres.

1107 Words
Capítulo — Vendedora de Mulheres. " O mar que carrega pétalas de rosas na superfície, esconde os espinhos por baixo de suas águas escuras. " Açucena Vendedora de mulheres, foi assim que minha mãe a chamou. Foi assim que começou minha trajetória. Recordo, com dor, que estava chorando quando minha mãe surgiu, vinda de algum lugar, usando apenas roupas íntimas. Seu batom estava borrado, o cabelo bagunçado e ela fedia a álcool. Lembro que se colocou entre mim e a mulher de longos cabelos escuros. Eu me escondi atrás das pernas de minha mãe, tremendo de medo; meus joelhos batiam um contra o outro, meus dentes faziam o mesmo movimento e meu maxilar não conseguia ficar parado. — Quem é essa menina, Ana Rosa? — perguntou a mulher. Minha mãe ficou muda, abaixou a cabeça, e logo atrás vi um homem passar, dando um sorriso estranho para o lado dela, enquanto terminava de abotoar a camisa toda amarrotada. — Eu lhe fiz uma pergunta! Quem é essa menina, Ana Rosa?! — a mulher gritou, chamando a atenção de algumas pessoas que passavam. Como minha mãe não respondeu, a mulher de cabelos escuros estalou os dedos no ar. De repente, surgiu um homem enorme, cuja expressão no rosto dava medo. Ele me segurou, arrancando-me dos braços da minha mãe. Ela implorou para que não me levasse, começou a chorar, agarrando-se a mim. No entanto, levou um empurrão, caiu e bateu com as costas em uma mesa. Para que eu não fizesse escândalo, o homem tampou minha boca com a mão. Minha mãe começou a gritar: — Ela é minha filha! Minha filha! Não faça nenhuma maldade com ela, faça comigo, por favor! Não maltrate a minha filha! Eu fiquei com pena dela, que chorava ainda mais, caída ao chão. A mulher, então, fez um gesto para que outro homem fosse até minha mãe, e assim ele obedeceu. Recordo que fomos arrastadas, levadas para os fundos do corredor e jogadas dentro de um quarto enorme e luxuoso, muito diferente dos demais. Aquela porta sempre fora proibida para mim e para qualquer um que morasse ali. Minha mãe dizia que não podíamos entrar porque, dentro daquele quarto, morava um monstro. Eu morria de medo daquela porta, sequer chegava perto. Mas, assim que o homem a abriu e nos jogou lá dentro com violência, vi que não havia monstro algum. Apenas luxo. Parecia um quarto de novela, desses onde as famílias ricas costumam dormir. A mulher entrou, pisando firme com seus saltos finos. Reparei em suas unhas enormes, pintadas de vermelho, e no vestido azul de um tecido que brilhava muito. Hoje sei que era seda pura. Ela andava em círculos enquanto eu me agarrava à minha mãe, e minha mãe a mim. Nós duas chorávamos, desesperadas. — Você sabe muito bem, Ana Rosa, que ninguém tem nada aqui. Quem tem alguma coisa aqui sou eu. Então você não tem filha. Essa menina é minha. E eu quero muito entender como foi que você fez para esconder a gestação. — a mulher perguntou. Senti o corpo de minha mãe tremer; suas mãos, que me seguravam, estavam frias. — Não pude evitar. Quando descobri, já estava com cinco meses. Foi de um... — disse minha mãe rapidamente. Eu não entendia nada, só queria sair dali, estava com muito medo. — Cinco meses e a barriga não cresceu? Acha mesmo que vou acreditar nisso? — disse a mulher, olhando bem na minha direção. — Estou sendo sincera. Os últimos quatro meses as meninas me ajudaram. Foi bem na época em que a senhora fez uma cirurgia e não pôde vir à casa. A senhora Marilda foi boa comigo, ela cuidou de tudo na época em que a senhora se ausentou.— respondeu minha mãe, engolindo em seco, olhando para mim como se pedisse perdão. Hoje entendo aquele olhar, mas naquela noite não entendia absolutamente nada, nem a gravidade da situação. Era muito pequena e inocente, sentia apenas o medo corroer meus frágeis ossos e saculejar meu corpinho franzino. — Ela tem que idade? — perguntou a mulher, apontando a unha enorme para mim. — Sete... ela só tem sete anos. — respondeu minha mãe, com a voz trêmula e a respiração entrecortada. — Olha só... não bastava mentir e esconder uma gestação, ainda escondeu uma criança dentro da minha propriedade. E, pior, uma pequena que come, bebe e dorme de graça. Você acha que eu sou o quê? Uma casa de caridade, Ana Rosa? Lembre-se de que, quando você chegou aqui, teve conhecimento que tem que pagar pelo que come, bebe e usa. Não estou aqui para sustentar ninguém. Quem enche ců de Judas é mulambo. Olhei para minha mãe, ouvindo aquelas palavras horríveis. No meu coração, achava que tudo era mentira, mas, mais tarde, descobriria todas as verdades espinhosas por detrás. Minha mãe não respondeu. A mulher ergueu uma sobrancelha e fez um gesto para que eu fosse até ela. Minha mãe tentou me segurar, mas, quando um dos homens se aproximou, ela soltou minha mão e eu caminhei, cheia de medo, aterrorizada, na direção daquela mulher. Ela tocou em meus cabelos, olhou meus dentes, avaliou minha pele, levantou meu vestido, examinou minha barriga e me fez virar de costas. Eu não entendia que estava sendo avaliada como se fosse uma peça de roupa, um objeto a ser comprado. — Essa menina agora é minha. — disse a mulher. Minha mãe começou a balançar a cabeça em negação, chorando. Caiu de joelhos, implorando, pedindo por favor que reconsiderasse. No entanto, a mulher pisou na mão dela com o salto, apertando contra o chão, girando a ponta do pé até fazê-la soltar gritos de dor. Eu comecei a gritar também, mas levei um tapa na boca, caí sentada e bati a cabeça na borda da cama. A dor foi lancinante. Minha visão ficou embaçada e achei que fosse desmaiar. — Ela agora é minha. Mais tarde pagará por todas as despesas que tem me dado. Pegue a garota e vá. Se tentar fugir, já sabe o que acontece. — disse a mulher. Ela retirou o pé de cima da mão da minha mãe. Eu vi o sangue e os ferimentos. Minha mãe me segurou no colo e saiu correndo comigo pelo corredor. Entramos no quartinho, onde ela fechou a porta e se ajoelhou, abraçada a mim, chorando muito. — Mamãe, quem é aquela mulher? — perguntei, na minha inocência. — Aquela mulher é uma VENDEDORA DE MULHERES. — foi o que minha mãe respondeu. E hoje isso se consagra com o meu leilão. AVISO: CONTRIBUA COM 100 COMENTÁRIOS PARA AJUDAR ESSA ESTÓRIA.
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