Propriedade

1048 Words
Capítulo — Propriedade. " Quanto vale uma vida? Não se engane, algumas tem preço em cifrão." Açucena Meu estômago está gelado. O capuz cobre meu rosto, mas não consigo erguê-lo. É aterrador encarar a visão daquele salão repleto de homens e mulheres, todos com interesse em mim. Respiro devagar, puxando o ar pelos dentes, com medo de me engasgar com o próprio vento. Nos anos que se passaram, tudo regrediu para incertezas e tristezas. Desde que minha mãe faleceu, tornei-me, além de um tipo de propriedade, uma escrava branca nas mãos da vendedora de mulheres. Afirmando estar protegendo a minha pureza, ela me colocou para trabalhar nos serviços domésticos da casa dos prazeres, além de servir aos frequentadores repugnantes daquele antro. Tive que suportar piadas, mãos ousadas deslizando pelo meu corpo. Nem sempre fiquei calada: certa vez, acertei uma bandeja na cabeça de um atrevido que apertou meu seio. Foi uma confusão. O homem queria me bater, mas quebrei algumas garrafas em sua cabeça antes disso. O castigo veio logo: três dias sem comer, apenas água. Perdi alguns quilos, o que, para mim, foi um martírio, mas para a vendedora de mulheres, motivo de alegria. Ela dizia que homens preferem magras, que as gordas os enojam. Verdade ou não, eu não sabia. Nunca estive com nenhum homem, jamais soube o que é um beijo. A vendedora de mulheres nunca permitiu que eu tivesse tais experiências. Depois da partida precoce da minha mãe para os braços do Pai eterno, ela se encarregou de mim. Não posso chamar isso de cuidado, mas sim de prisão. Fui retirada da escola antes mesmo de minha mãe morrer. A desculpa dada à direção foi que estávamos de mudança para outro estado. Assim, não haveria riscos de descobrirem os planos maquiavélicos dela. O plano era simples: transformar-me em um monte de notas. Ela sempre quis me vender. Seus olhares eram calculistas, e eu, uma menina ingênua, confundia aquilo com proteção. Na realidade, ela me fez acreditar nisso, deturpando meu coração e minha mente. Sempre me chamava de “menina bonita”, dizendo que eu valia muito. Eu pensava que se referia a sentimentos, ao coração. Ledo engano. Ela falava de dinheiro, do bolso dela. E agora, nesta noite, na Divine Camélia — escondida entre as elegantes mansões do Jardim Paulista — estou diante da concretização desse plano. Algo que jamais pensei que chegaria a acontecer. Estou no centro de um salão iluminado, cercada por rostos desconhecidos, cada um carregando desejos e expectativas. O ar é pesado, quase sufocante, impregnado de curiosidade e avareza. A vendedora de mulheres está me leiloando. Leiloando minha pureza, minha carne, como se faz com gado. Meu coração dispara, o som ecoa nos meus ouvidos. Sei o que eles desejam de mim, o que represento. Sou uma mercadoria, um prêmio num leilão ao qual nunca escolhi participar. Aquilo que sempre considerei uma bênção — minha inocência — tornou-se uma maldição. Os sussurros e as risadas me reduzem a nada. Ignoram que sou humana, que sou apenas uma menina de dezoito anos. Certa vez, ouvi a vendedora dizer a um homem, que lançava olhares gulosos sobre mim: “Ela vale o que você não pode pagar.” Hoje, entendo o peso dessa frase. Amedrontada, ergo a cabeça rapidamente, mas quase não consigo enxergar. Um facho de luz acende sobre mim, deixando o restante do ambiente mergulhado em escuridão. No palco, o leiloeiro se prepara. Um homem velho, com idade para ser meu avô, exibe um sorriso cínico, como se estivesse prestes a vender uma relíquia antiga. Mas o que sou eu, afinal? Uma jovem escrava? Uma relíquia maldita em tempos onde a escravidão é crime? Aperto o tecido da túnica branca. Minhas mãos estão encharcadas de suor. — Boa noite, senhores! — a voz dele ecoa. — Vamos iniciar o leilão. Temos aqui um belo exemplar. Uma jovem de dezoito anos, virgem, com saúde perfeita, todos os dentes, um metro e sessenta de altura, cinquenta e sete quilos. Vamos aos lances! Quem dá oitocentos mil? Eu ouvi oitocentos mil? Placas se erguem. Homens e mulheres disputam como se o valor de uma vida pudesse ser medido em moedas. — Vamos, senhores! — insiste o leiloeiro. — Uma bela jovem, corpo tonificado, jamais tocada, sequer beijada. Pele branca, cabelos em tom natural. Eu ouvi novecentos e oitenta mil? — Eu! — A voz vem de um senhor gordo, cabelos brancos e barba longa. Olho em sua direção e meu estômago se revira. Ele sorri com malícia; em seu rosto está estampado tudo o que deseja fazer comigo. Quem sou eu para ele? Uma fantasia? Um desejo oculto? Ou apenas um capricho? A ideia de ser desejada é intoxicante, mas também apavorante. O que acontecerá quando a venda se concretizar? O que acontecerá comigo? — Um milhão! — Dessa vez é a voz de uma mulher que se destaca. Veste-se como homem, mas seus s***s fartos transparecem sob a camisa justa. — A senhora de paletó cinza oferece um milhão! Quem dá mais? Uma... duas... — Dois milhões! — grita um homem, exatamente no momento em que alguém arranca minha capa, deixando-me quase nua, já que a túnica é transparente. Se pudesse, eu gritaria. Gritaria por liberdade, por um futuro que não me transformasse em objeto. Mas permaneço em silêncio. Uma sombra à espera de ser escolhida. Meu corpo é meu, mas o que existe por trás dele? Minhas esperanças, meus sonhos, minhas histórias... metade morreu com minha mãe. E o pouco que resta, a vendedora de mulheres destroça agora, diante de todos. — Eu ouvi um milhão e duzentos e cinquenta? Quem dá mais? Quem dá mais? Observem senhores que o rosto dela possuo traços finos, feição angelical. - o leiloeiro continua com sua saga de arrancar mais valores dos bolsos dos nojentos aqui presentes. — Três milhões e quinhentos! - uma voz feminina com sotaque gringo, caminha por entre as cadeiras, os saltos finos estalando contra o piso. Surge uma mulher alta, cabelos loiros preso em cascata, vestido vermelho . Ela desfila elegância, é alvo de olhares dos demais e burburinhos formam-se pelo salão. Engulo em seco. " Quem é essa mulher e o por qual razão quer me comprar? AVISO: CONTRIBUA COM 100 COMENTÁRIOS PARA AJUDAR ESSA ESTÓRIA.
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