Aspereza

1162 Words
Capítulo — Aspereza. " A vida é a lixa sobre a existência humana." Açucena Me pergunto: o que eu sou? Um número? Uma oferta? Um suspiro perdido nessa noite rica, diante de uma multidão faminta que despreza a minha dignidade humana. Desde o início, torci pela rejeição. Acreditava nessa possibilidade. Afinal, a esperança é a última que morre… mas também é a que mais engana. O que acontecerá quando a poeira assentar? Quem serei eu, então? — Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três... Vendida para a senhora do vestido vermelho! Ouvem-se protestos. Muitos reclamam, frustrados, como se estivessem desesperados para colocar suas mãos sujas sobre mim. A mulher se aproxima. Dou um passo para trás. Ela sobe pela escada lateral do pequeno palco, montado para esse espetáculo de horrores. É alta e, de salto, parece uma girafa. Diante dela, eu me sinto pequena, subjugada. Dou mais dois passos para trás, mas sinto a cutucada firme de um dos seguranças da vendedora de mulheres. Aqui, eu sei que não sou nada. Apenas um rastro do que restou de uma das prøstitutas que serviram a essa casa — que se autointitula casa de massagem, mas na verdade não passa de um antro de prazeres masculinos. Até os meus nove anos, eu não entendia nada do que acontecia dentro daquelas paredes, que eu chamava de lar. Meu entendimento começou quando vi mulheres sentadas no colo de homens. Eles vestidos, elas nuas. Vendiam seus corpos em troca de dinheiro. Foi então que percebi: sempre há homens dispostos a pagar por aquilo que lhes confere prazer, mesmo que seja sujo e esmagador de almas alheias. Com o tempo, compreendi algo ainda mais c***l: para sobreviver nesse meio e lucrar com a dor alheia, é preciso avidez, rancor e cinismo. A vendedora de mulheres tinha todos em abundância. Eu sentia isso irradiar dela como ondas de uma tempestade. Para uns, tristeza e humilhação; para ela, bonança e lucro. Os corpos que lhe traziam dinheiro não despertavam nela piedade alguma. Desde então, todas as ilusões que eu carregava ruíram. Dentro daquelas paredes só havia espaço para duas moedas: s*x̌o e dinheiro. A mulher do vestido vermelho se aproxima. Seus passos são curtos, calculados, e o perfume adocicado invade o ar. Ela ergue a mão para me tocar. Instintivamente, encolho-me. A resposta é imediata: uma cutucada dura de caĉetete em minhas costelas. O olhar da mulher se volta para o segurança, afiado: — Não ouse tocar no que eu comprei. No que é meu. Eu quero essa menina em perfeitas condições ou terei de me queixar com sua chefe. Sinto a dor latejando nas costelas e não consigo esconder a careta. O segurança abaixa a cabeça, submisso. Como dizia minha mãe: a formiga sabe a roça que come. Mais uma vez, a mulher estende a mão. Mais uma vez, eu me encolho. É estranho: uma pessoa que nunca vi querer me tocar… parece que o simples contato me deixará suja. Que ser humano compra outro ser humano? Isso é imoral, c***l, leviano. Percebo sua pele branca, tão pálida que parece de porcelana. Os cabelos, loiros e finos, têm reflexos prateados sob a luz. Os olhos, de um azul claro e profundo, são duros, impositivos. Ela sabe o que quer. E neste momento, ela me quer. — Não tenha medo. Agora eu sou sua dona, e você será minha serva. Instantaneamente ergo a cabeça, olho para seu rosto. Meus olhos estão esgazeados, minha boca seca. Suas unhas longas deslizam pelo meu queixo. — Realmente, você é uma menina muito bonita — sussurra, avaliando-me como se eu fosse uma peça rara. Ela recua um passo e toca meus cabelos. O leiloeiro se aproxima, acompanhado da vendedora de mulheres. Hoje, entendo o real nome dela: cåfetina. — Que sorte eu tive esta noite. Estava mesmo precisando — comenta a loira. Olho rápido para ela. A cåfetina responde, com um sorriso enviesado: — Não foi sorte, querida. Foi uma boa jogada. Ela fala e se move com perfeição ensaiada, cheia de artimanhas. — Nossa linda menina foi o destaque desta noite — murmura, olhando diretamente para mim. A multidão se aglomera em torno do palco, tentando me observar melhor. Sinto-me exposta, como um peixe em aquário, ou como animais retirados de seus habitats e exibidos em zoológicos. Os olhares são vulgares, carregados de pretensão. Não conheço de fato o pecado, mas consigo sentir o desejo impregnado em cada um deles. Tenho quase certeza de que não serei a última a ser leiloada como se fosse um filhote de animal cuja a espécie está prestes a entrar em extinção. A loira me puxa pelo ombro, coloca-me diante dela, tampando meu corpo dos olhares cobiçosos. Pede ao segurança a capa que havia sido arrancada de mim. O homem, cabisbaixo, obedece. Ela mesma a veste sobre meu corpo. Deveria chamá-la de “senhora”, pois deixou claro: agora sou sua serva, sua posse. — A “menina bonita” que era de vocês, agora é minha. Lembrem-se disso. A c******a sorri, fria, e encara a nova compradora. — Ainda não, querida. Ela só será sua quando o dinheiro estiver em minhas mãos. A loira abre um sorriso ainda mais frio e perturbador do que o da c******a. — Que juízo faz sobre mim? – ela pergunta, e a c******a fica sem saber onde enfiar a cara. Ri, tentando disfarçar, mas desta vez falha. Eu sei que tudo o que está envolvido aqui é uma questão muito maior, dinheiro, negócios que funcionam no mercado n***o, um mundo paralelo ao mercado do mundo “normal”. — Ô, minha querida, não me leve a m*l, mas negócios são negócios. A menina só será sua se pagar o valor total. Só então poderá levá-la. Naquele momento, pensei em fugir para qualquer lugar. Seria apenas mais uma tentativa, dentre tantas que já fiz e que sempre fracassaram. Cheguei a levar surras por causa da minha “rebeldia” — era assim que a vendedora de mulheres se referia a minha tentativa de obter a minha liberdade. Passei a usar uma pulseira que emitia sinais de localização e fui proibida de sair da casa. O único banho de sol permitido era nos fundos, num solário improvisado acima de um dos quartos. O resto dos dias, eu era trancafiada lá dentro. Meu único refúgio era ficar em pé na janela, observando, através do vidro, a vida passando. São Paulo se movimentava, vibrava, mas eu não fazia parte dela. Agora, não sei nem para onde irei. Lá dentro, eu trabalhava como faxineira, limpando sem parar até altas horas — sempre antes de a casa abrir, por volta das dez da noite. Talvez aquela mulher me queira apenas para trabalhos escravos. Mas só de pensar nisso, meu coração arde. Imagino as escravas de tantas épocas que se foram, todas sofrendo os mais diversos tipos de humilhação. Pensar sobre faz minha barriga doer. AVISO: CONTRIBUA COM 100 COMENTÁRIOS PARA AJUDAR ESSA ESTÓRIA.
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