Cobra narrando - continuação Ela suspirou, virou o rosto pra janela e respondeu sem me olhar, como quem escolheu cada palavra com cuidado: — Não é isso, não. A casa é linda, tem sua cara… Mas… é meio estranho, né? Você morava lá com a sua ex… com a sua filha. Eu não quero tocar nesse assunto porque sei que é delicado pra você, mas… sei lá… é estranho pra mim também. Silêncio. Fiquei quieto. Só o som do motor, das marchas trocando, da rua passando. Não era sobre ela não gostar da casa. Era sobre tudo o que a casa representava. E ali, no fundo da mente, um gatilho puxou o outro. Porque talvez… talvez o que também me sufocava tanto naquele lugar era justamente isso. As lembranças que estavam nas paredes, no cheiro do travesseiro, nos porta-retratos que eu nunca mais tive coragem de tocar.

