O silêncio ainda pairava pesado entre eles.
Patrícia estava parada, os braços cruzados, tentando se proteger de tudo aquilo que sentia.
Cristiano respirou fundo. Dessa vez… não dava mais pra fugir.
Ele olhou pra ela — sério, vulnerável como nunca.
— Há quase quatro anos atrás… eu era casado — começou, a voz mais baixa — Minha mulher tava grávida… de seis meses.
Patrícia descruzou os braços devagar.
O tom dele… já era diferente.
— Invadiram minha casa… — continuou ele, engolindo seco — e metralharam ela.
O ar pareceu sumir do ambiente.
— Na minha frente.
Os olhos dele ficaram mais pesados, mais escuros… carregados de dor antiga.
— Eu não consegui fazer nada.
Patrícia levou a mão à boca, em choque.
— Foi ali que eu virei esse homem que todo mundo fala… — disse ele — Frio. Perigoso. Sem medo de nada.
Ele deu um passo lento na direção dela.
— Porque depois que você perde tudo… você não tem mais nada a perder.
Silêncio.
Pesado.
Doloroso.
— Depois disso… eu me fechei — continuou — Passei meses tentando esquecer. Até tentei ficar com uma mulher… depois outra… mas não deu certo. Era tudo vazio.
Ele soltou um riso fraco, sem vida.
— Parecia perda de tempo.
Os olhos dele voltaram pra ela.
— Fiquei dois anos sozinho. Sem querer ninguém. Sem deixar ninguém chegar perto.
Mais um passo.
Mais próximo agora.
— Até que eu te vi naquele baile.
A voz dele mudou.
Ficou mais suave.
Mais viva.
— Você… me chamou atenção de um jeito que nunca tinha acontecido.
Patrícia sentiu o coração apertar.
— Seu sorriso… seu jeito… — ele continuou — Você não fazia ideia de quem eu era… e mesmo assim me tratou como… como um homem normal.
Ele parou na frente dela.
— E eu precisava daquilo.
Os olhos dele encontraram os dela, intensos.
— Eu sei que eu errei… — disse ele, com sinceridade — Sei que devia ter te contado.
A voz falhou levemente.
— Mas eu escondi pra te proteger.
Silêncio.
— Porque eu não queria que você tivesse o mesmo destino que ela teve.
As lágrimas de Patrícia já escorriam.
— Patrícia… — ele chamou, mais baixo agora — A gente tá junto há sete meses.
Ele levou a mão até o rosto dela, mas parou no meio do caminho, respeitando o espaço.
— E você é importante pra mim. Muito.
Um segundo de silêncio…
E então:
— Eu te amo.
Aquelas palavras ficaram no ar.
Pesadas.
Verdadeiras.
Sem volta.
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Patrícia fechou os olhos por um instante, tentando segurar a emoção que transbordava.
O medo ainda estava ali.
A dor também.
A confusão… enorme.
Mas agora… ela também via o homem por trás do “Dogão”.
Um homem quebrado.
Marcado.
E… apaixonado por ela.
Ela abriu os olhos, ainda com lágrimas.
— Você devia ter confiado em mim… — disse, com a voz baixa — não decidido por mim.
Ele assentiu, sem discutir.
— Eu sei.
Silêncio.
Mas dessa vez… diferente.
Não era só dor.
Era sentimento demais… dos dois lados.
O silêncio ainda carregava tudo o que tinha sido dito.
A dor.
O medo.
A verdade.
Patrícia respirou fundo, tentando organizar o turbilhão dentro dela. As lágrimas ainda escorriam, mas o olhar agora era mais firme.
Ela deu um pequeno passo na direção dele.
— Eu não vou fingir que isso não me deixou m*l… — disse, a voz baixa, mas sincera — porque deixou.
Cristiano não desviou o olhar.
Não tentou se defender.
Apenas ouviu.
— Eu tô assustada… confusa… — ela continuou — Tudo isso é muito pra mim. Esse mundo… você… o que aconteceu hoje…
A voz dela falhou por um segundo, mas ela se manteve firme.
— Mas…
O coração dele apertou.
Ela respirou fundo.
— Eu também te amo, Cristiano.
O tempo pareceu parar.
Os olhos dele suavizaram na hora, como se aquela fosse a única coisa que ele precisava ouvir… mas ao mesmo tempo, ele sabia que não apagava o resto.
Ela se aproximou mais um pouco.
— Só que amor não apaga tudo isso que eu tô sentindo agora.
Ele assentiu devagar.
— Eu sei.
— Eu não quero mentiras — disse ela, firme — nunca mais.
— Não vai ter — respondeu ele, sem hesitar.
— E eu não vou viver no escuro, sem entender o que tá acontecendo — continuou — Se eu vou ficar com você… eu preciso saber onde eu tô pisando.
Cristiano passou a mão pelo rosto, respirando fundo.
— Eu vou te contar tudo que você quiser saber.
Ela olhou pra ele, ainda com o coração apertado.
— E mais uma coisa…
Ele esperou.
— Eu não quero ser escondida como se fosse um problema.
Aquilo atingiu ele.
— Você não é um problema — disse ele, na hora — você é a única coisa boa que eu tenho.
Ela engoliu seco.
— Então me trata assim.
Silêncio.
Dessa vez… diferente.
Mais calmo.
Mais verdadeiro.
Cristiano se aproximou devagar, como se ainda pedisse permissão. Quando ela não recuou, ele finalmente tocou o rosto dela, limpando uma lágrima com o polegar.
— Eu vou fazer tudo certo com você… dessa vez — disse ele, baixo.
Ela fechou os olhos por um instante, se permitindo sentir.
E então… se aproximou.
O abraço veio primeiro.
Forte.
Necessário.
Como se os dois estivessem tentando se reconstruir ali.
E no meio de tudo aquilo — medo, dor, perigo — ainda existia algo mais forte.
Eles.