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1384 Words
A noite caiu, e o bar de sempre estava movimentado. As luzes amareladas, o som de conversas misturado à música ambiente e o cheiro familiar de comida frita fizeram Henrique e Rafael trocarem um olhar silencioso antes de entrar. Caio já estava lá. Quando os viu, abriu um sorriso enorme. — Aí, p***a! — levantou-se imediatamente. — Vocês vieram! Ele abraçou Rafael primeiro e depois Henrique, como fazia desde os tempos da escola. — Tava com saudade de vocês, c*****o! Henrique retribuiu o abraço, mas sem o entusiasmo de antes. Rafael deu alguns tapinhas nas costas do amigo. — E aí, cara. Caio sentou-se novamente. — E aí? O que vocês querem beber? Hoje eu pago. Tô feliz pra c****e! Rafael puxou a cadeira devagar. — Feliz, é? Caio abriu um sorriso despreocupado. — Tô, p***a. O garçom se aproximou. — Três cervejas — pediu Caio. Assim que ficaram sozinhos novamente, ele recostou na cadeira. — Cara... vocês não têm noção da sensação de liberdade. Henrique ficou olhando para ele. — Liberdade? — Sim! — respondeu Caio, animado. — Tô solteiro. Bora beber! Rafael apertou a mandíbula. — Então é isso? Caio deu de ombros. — O quê? — Você terminou um relacionamento longo, descobriu que vai ser pai e está comemorando porque está solteiro? O sorriso de Caio diminuiu um pouco. — Não é assim. — Então explica — disse Henrique, calmo. Caio passou a mão pelos cabelos. — Vocês não entendem. Eu tava me sentindo sufocado. Eu tinha uma vida planejada. Queria viajar, crescer profissionalmente, fazer especialização... de repente aparece uma gravidez. — "Aparece"? — repetiu Rafael. — Vocês sabem o que eu quero dizer. — Não, Caio — respondeu Rafael. — Explica direito. Caio suspirou. — Eu não queria ser pai. Nunca quis. Sempre falei isso. Henrique apoiou os cotovelos na mesa. — E vocês se protegiam? Caio desviou o olhar. — Às vezes. Rafael o encarou. — Às vezes? — Ela tomava remédio. — Ela tomava porque queria ou porque você insistia para não usar preservativo? — perguntou Henrique. Caio ficou em silêncio por alguns segundos. — Eu não gostava de camisinha. Rafael soltou uma risada sem humor. — Você não gostava. — Não é tão simples! — É simples, sim! — respondeu Rafael, pela primeira vez elevando a voz. — Você não queria filho, mas não se protegia adequadamente. Agora age como se alguém tivesse feito isso sozinho com você. As cervejas chegaram à mesa. Ninguém tocou nelas. Caio ficou sério. — Vocês estão me julgando. Henrique respondeu: — Estamos tentando entender. — Eu entrei em pânico. — Pânico faz alguém terminar? Sim — disse Henrique. — Faz alguém dizer coisas horríveis? Às vezes. Mas me responde uma coisa. Ele olhou diretamente para o amigo. — Você deixou a Milena sozinha durante uma semana? Caio engoliu em seco. — Eu precisava pensar. — Tinha comida em casa? O silêncio durou alguns segundos. — Não sei. Rafael fechou os olhos por um instante. — Você sabe que não tinha. — Eu não pensei nisso. — Ela tinha dinheiro? — perguntou Henrique. Caio não respondeu. Rafael bateu a mão na mesa. — Ela tinha, Caio? — Não! A resposta saiu mais alta do que ele pretendia. Os três ficaram em silêncio. Rafael olhou para o amigo que conhecia desde os treze anos. — Então você sabia que ela estava grávida, sozinha, sem comida... e mesmo assim foi embora? Caio parecia menor na cadeira. — Eu... eu só queria fugir daquilo tudo por alguns dias. Henrique falou com tristeza, não com raiva. — E enquanto você fugia, quem cuidava dela? Caio abriu a boca para responder. Mas não havia resposta. Porque ele nunca tinha pensado nisso. O sorriso de homem "livre" desapareceu completamente. Rafael encarou o amigo. — Você sabe qual é a pior parte? Caio ergueu os olhos. — Não é o fato de você não querer continuar com a Milena. Ninguém é obrigado a permanecer em um relacionamento. Nem mesmo a desejar a paternidade. Mas abandonar uma pessoa vulnerável, sem o básico, é uma escolha. E essa escolha machuca. Henrique assentiu devagar. — Você pode estar com medo, Caio. Pode se sentir despreparado. Só não use isso para fingir que não teve responsabilidade na situação. Caio ficou olhando para a cerveja intacta à sua frente. A felicidade exagerada com que chegara ao bar já não existia. O silêncio tomou conta da mesa depois das perguntas de Henrique e Rafael. Caio passou a mão no rosto, claramente desconfortável. Pegou a cerveja e tomou um gole longo antes de olhar para os dois amigos. — Será que a gente pode não falar dela hoje? Rafael o encarou sem dizer nada. Caio tentou forçar um sorriso. — Eu quero só beber com meus irmãos, p***a. A voz dele saiu cansada dessa vez. — Senti falta de vocês. Henrique ficou observando o amigo. Não havia a animação exagerada de antes. Parecia apenas um homem tentando desesperadamente fugir de uma conversa que não queria ter. — Você sabe para onde ela foi? — perguntou Henrique. Caio deu de ombros. — Não. Rafael franziu a testa. — Você não sabe? — Talvez tenha voltado pra roça, pra família dela. Sei lá. Depois eu vejo isso. Ele tomou outro gole. — Caras... deixa isso quieto um pouco. Henrique e Rafael trocaram um olhar. Porque, pela primeira vez naquela noite, eles não enxergaram maldade no rosto de Caio. Viram negação. Uma negação tão profunda que chegava a assustar. — Depois eu vejo isso — repetiu Rafael devagar. — É assim que você tá pensando? Caio apoiou os cotovelos na mesa. — Eu não sei o que vocês querem que eu faça. — Pensar nela seria um começo — respondeu Rafael. Caio fechou os olhos. — Eu tô tentando não pensar nisso. — E está funcionando? — perguntou Henrique, em voz baixa. Caio demorou alguns segundos para responder. — Não. Ele encarou a própria cerveja. — Eu acordo pensando nisso. Vou dormir pensando nisso. Fico imaginando se minha vida acabou. Se vou odiar ser pai. Se vou estragar a vida de uma criança porque nunca quis uma. Rafael o observou em silêncio. — Aí eu tento parar de pensar. — E por isso você veio beber — comentou Henrique. Caio deu uma risada amarga. — É. Ele olhou para os dois. — Eu só queria uma noite com vocês. Como antigamente. Sem gravidez, sem responsabilidade, sem essa merda toda. Henrique sentiu o peito apertar. Porque aquele era o Caio que conheciam: assustado, confuso, tentando fazer piada quando estava perdido. Mas também era o mesmo Caio que tinha deixado Milena sozinha. — A vida não volta a ser como antigamente — disse Henrique com sinceridade. — Não depois de certas escolhas. Caio abaixou a cabeça. — Eu sei. Rafael ficou em silêncio por alguns instantes antes de perguntar: — Se ela ligasse agora dizendo que precisa de ajuda... você iria? Caio não respondeu imediatamente. Os segundos pareceram longos demais. Ele apertou a garrafa entre os dedos. — Eu... A voz falhou. — Eu não sei. A honestidade da resposta atingiu Henrique e Rafael de maneiras diferentes. Rafael sentiu raiva. Henrique sentiu tristeza. Porque ambos perceberam a mesma coisa: Caio não era um vilão frio que não se importava com nada. Mas também não estava pronto para assumir o tamanho das consequências dos próprios atos. Ele estava paralisado pelo medo. E, enquanto tentava fugir dele, quem carregava o peso maior era Milena. Caio respirou fundo. — Me odeiam agora? Henrique olhou para o amigo de infância. — Não. Rafael demorou um pouco mais para responder. — Mas estou decepcionado. Caio abaixou os olhos. — Justo. O silêncio voltou à mesa. Depois de alguns segundos, Caio ergueu a garrafa. Os olhos estavam mais vermelhos do que antes. — Então... só por hoje... será que eu posso ter meus irmãos de volta por algumas horas? Henrique ergueu a própria garrafa devagar. Rafael hesitou, mas acabou fazendo o mesmo. Não porque tudo estivesse perdoado. Não porque concordassem com o que ele tinha feito. Mas porque amizades longas às vezes atravessavam momentos difíceis assim: com amor suficiente para permanecer, e honestidade suficiente para não fingir que estava tudo bem. E, naquela mesa, os três sabiam que a conversa sobre Milena ainda estava longe de terminar.
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