Já passava da uma da madrugada.
As garrafas vazias ocupavam metade da mesa.
O bar continuava cheio, mas Henrique olhou o relógio e soltou um suspiro.
— Bom, Caio... nós já vamos.
Caio arregalou os olhos.
— Ah, não. Que isso, p***a? Tá cedo!
Rafael soltou uma risada curta.
— Cedo? É uma da manhã.
— Cara, nós temos trabalho amanhã — explicou Henrique, levantando-se.
Caio apontou para si mesmo.
— Eu também.
Rafael arqueou a sobrancelha.
— Não parece.
Caio abriu os braços.
— Irmão, porra... tá cedo!
Henrique pegou a carteira.
— Não é mais faculdade, Caio. A gente não tem vinte anos.
Caio estava prestes a responder quando uma voz feminina surgiu ao lado da mesa.
— Desculpa a demora, amor. O táxi demorou, mas viemos.
Os três viraram ao mesmo tempo.
Uma mulher bonita sorriu para Caio.
Atrás dela, outras duas mulheres também sorriram, ajeitando os cabelos.
O silêncio caiu sobre a mesa.
Henrique olhou para as mulheres.
Depois para Caio.
Depois voltou a olhar para as mulheres.
Rafael ficou completamente imóvel.
— Caio... — começou Henrique, incrédulo.
— Essa p***a é séria? — completou Rafael.
Caio deu uma risada nervosa.
— Bora curtir, irmãos. Hoje a noite é nossa.
Rafael o encarou.
— Você chamou mulheres pra cá?
— Qual o problema? Eu tô solteiro.
Henrique respirou fundo.
— Você terminou faz pouco tempo.
— E daí?
— E a Milena está grávida do seu filho — respondeu Henrique, sem alterar o tom.
O sorriso de Caio vacilou.
As mulheres trocaram olhares desconfortáveis.
— Cara, não começa — disse Caio. — A gente já falou disso.
— Não, Caio — respondeu Rafael. — Você pediu pra não falar sobre isso. É diferente.
A mulher que havia chamado Caio de amor pareceu confusa.
— Espera... grávida?
Caio passou a mão pelo rosto.
— Não é da conta de vocês.
Rafael deu um passo para trás.
— Não é da conta delas. Mas é da sua.
— Eu tenho direito de seguir minha vida!
— Tem — concordou Henrique. — Assim como a Milena tem direito de seguir a dela.
Ele fez uma pausa antes de continuar:
— O problema é que, enquanto você está aqui chamando mulheres para uma noitada, a mãe do seu filho saiu de casa com uma mala sem saber para onde ir.
As palavras atingiram Caio em cheio.
— Vocês não entendem! — ele respondeu, irritado. — Eu estou tentando não enlouquecer!
— E acha que ela não está? — perguntou Rafael.
O silêncio voltou.
Uma das mulheres olhou para Caio.
— Você não tinha me falado que ia ser pai.
Caio desviou os olhos.
— Porque eu não quero falar sobre isso.
Rafael pegou as chaves do carro.
— Acho que isso responde muita coisa.
Henrique olhou para o amigo de infância.
Havia tristeza em seu olhar.
— Eu ainda acho que você está com medo, Caio.
— Então para de me julgar!
— Mas medo não te dá o direito de agir como se nada estivesse acontecendo — respondeu Henrique. — E é isso que você está fazendo agora.
Caio ficou parado.
Olhou para os dois melhores amigos.
Depois para as mulheres ao lado da mesa.
Por fim, encarou a cerveja à sua frente.
— Então vocês vão embora?
Rafael respondeu primeiro:
— Sim.
— Porque amanhã a gente trabalha — disse Henrique.
Rafael completou:
— E porque eu não estou com clima para fingir que tudo isso é normal.
Caio apertou a mandíbula.
— Beleza.
Henrique colocou a mão no ombro dele.
— Você ainda é nosso irmão.
Os olhos de Caio se encheram de emoção por um breve instante.
— Mas você precisa decidir quem quer ser daqui para frente — continuou Henrique.
Rafael assentiu.
— Porque o cara que conhecemos desde a escola era imperfeito, fazia besteira, mas assumia quando errava.
Ele olhou diretamente para Caio.
— E, nesse momento, parece que você está correndo de tudo o que não quer enfrentar.
Os dois começaram a se afastar.
Caio permaneceu parado entre a mesa cheia de garrafas e as mulheres que o aguardavam.
A música continuava alta.
As pessoas riam.
A noite prometia diversão.
Mas, pela primeira vez desde que havia chegado ao bar, Caio não sentiu vontade de sorrir.
Porque, apesar de repetir para si mesmo que estava solteiro e livre, uma pergunta insistente não saía da sua cabeça:
Se eu estou tão feliz... por que parece que estou perdendo tudo o que realmente importa?
A casa estava em silêncio quando Henrique e Rafael chegaram.
Já passava das duas da manhã.
Os dois entraram sem fazer barulho, largando as chaves sobre a bancada da cozinha.
Por alguns segundos, nenhum deles falou.
A conversa com Caio ainda pesava nos ombros dos dois.
Henrique passou a mão pelo rosto, cansado.
— Eu não reconheci ele hoje.
Rafael ficou parado, olhando para o chão.
— Nem eu.
Sem dizer mais nada, os dois caminharam pelo corredor.
A porta do quarto de hóspedes estava entreaberta.
Henrique empurrou delicadamente.
A luz fraca do abajur iluminava o cômodo.
Milena dormia profundamente.
Abraçada a um travesseiro.
O rosto ainda mostrava sinais do choro das últimas semanas, mas, dormindo, parecia mais tranquila. Uma das mãos repousava sobre a barriga, em um gesto inconsciente de proteção.
Os dois ficaram em silêncio, observando aquela cena.
Rafael foi o primeiro a falar, em voz baixa:
— O Caio não merece essa mulher.
Henrique desviou o olhar para Milena.
— Nunca mereceu o amor e a confiança dela desse jeito.
Rafael engoliu em seco.
— Ela é tão meiga... tão educada. Mesmo depois de tudo, ainda ficou preocupada em não atrapalhar a nossa amizade com ele.
Henrique assentiu.
— E o que mais me dói é que ela ainda ama aquele i****a.
Os dois olharam para Milena novamente.
Rafael respirou fundo.
— Ela chegou aqui pedindo desculpas por existir. Achando que era um peso.
Henrique apertou a mandíbula.
— E ninguém deveria se sentir assim por causa das escolhas de outra pessoa.
O silêncio voltou.
Milena se mexeu um pouco durante o sono, abraçando ainda mais o travesseiro.
Rafael abaixou o tom da voz.
— Nós vamos cuidar dela.
Henrique olhou para o amigo.
— Vamos.
— Não importa o que aconteça.
— Não importa.
Rafael encostou-se na porta.
— Quando o Caio descobrir que ela está aqui, ele vai surtar.
Henrique soltou um suspiro.
— Vai.
— E aí?
Henrique voltou a olhar para Milena.
— Aí a gente conversa com ele.
Rafael cruzou os braços.
— Porque, sinceramente, eu não estou nem aí para o que ele vai achar.
Henrique concordou devagar.
— Enquanto ela não tiver para onde ir, daqui ela não sai.
— Nós vamos protegê-la.
— E ajudar ela a reconstruir a vida dela — completou Henrique. — Mas sem tomar as decisões por ela. Se um dia ela quiser conversar com o Caio, essa escolha será dela.
Rafael assentiu.
— Só não vou permitir que ela seja tratada daquele jeito de novo.
Os dois permaneceram mais alguns instantes observando Milena dormir.
A menina que havia chegado naquela manhã com uma mala na mão e sem saber para onde ir agora tinha um quarto, uma cama e pessoas dispostas a ajudá-la.
Henrique puxou a porta cuidadosamente.
— Vamos deixar ela descansar.
Antes de sair, Rafael lançou um último olhar para Milena.
— Você não está sozinha, ouviu? — murmurou, mesmo sabendo que ela não podia escutar.
Então os dois fecharam a porta devagar.
No corredor, Henrique encostou na parede e fechou os olhos.
— Nunca pensei que a nossa amizade com o Caio chegaria nesse ponto.
Rafael ficou em silêncio por alguns segundos.
— Eu ainda amo aquele i****a como irmão.
— Eu também.
— Mas amar alguém não significa passar a mão na cabeça quando ele machuca os outros.
Henrique assentiu.
No fim do corredor, atrás daquela porta fechada, Milena finalmente dormia em segurança.
E, do lado de fora, dois amigos tomavam uma decisão silenciosa:
independentemente do que acontecesse quando Caio descobrisse a verdade, eles estariam ao lado dela até que ela pudesse voltar a caminhar com as próprias pernas.