Eu estava de frente para o espelho, tentando me reconhecer naquela imagem refletida e tão diferente da Mary que eu conhecia. Eu não sabia o que fazer para me sentir bonita. Minha pele é pálida e minhas unhas todas quebradas e escuras.
— O que deseja fazer nesse cabelo? — Aurora perguntou, passando a mão nos fios.
— Não sei. — Dei de ombros. — Eu gosto dele assim.
— Não mesmo — ela respondeu, torcendo o nariz. — Você vai cortar.
Ela me levou até um salão de beleza, onde depois de muitas discussões, cortei meu cabelo na altura dos ombros e gostei do resultado. Meu cabelo nunca esteve tão curto e diferente.
— Gostou? — Perguntei, ajeitando o cabelo novo.
— Uau! — Aurora sorriu com satisfação. — Você quebraria o coração de qualquer um em um piscar de olhos.
Pensei em Klaus, meu desejo é ter esse resultado sobre ele. Eu farei com o coração dele a mesma coisa que ele fez com o meu.
Voltamos para sua casa e ela ligou para alguém, o mesmo confirmou que estava chegando em alguns minutos.
— As bruxas da cidade estão a nosso favor. Elas querem tanto quanto nós acabar com os Mikaelson. Sabia que o seu irmão também está entre elas?
— James? — Questionei surpresa. — Se faz mesmo mil anos então ele deveria estar morto.
— Ele estava. As bruxas canalizaram magia dos ancestrais e trouxeram ele de volta no corpo original.
— Aonde ele está? — Perguntei ansiosa.
— No cemitério das bruxas, ele virá em breve. — Examinou as unhas sorrindo. — Meus amigos estão chegando para colocar o plano em ação.
A campainha tocou e dois homens entraram sorrindo, me analisando cuidadosamente.
— Esse é meu irmão — ela apontou para um dos homens —, Tristan. O outro é Lucien Castle.
— Eu sou Mary Stuart. — Acenei com a cabeça, sorrindo sem mostrar os dentes.
— É mais bonita do que eu imaginava — Lucien disse, retribuindo o sorriso.
Me surpreendi com o modo como ele falou. Eu não estava acostumada a receber elogios dessa forma.
— Obrigada, eu acho. — Franzi a testa.
— Klaus transformou o Lucien e Elijah, Tristan — Aurora explicou.
— Mas claro que eu tenho um jeito de desligar a ligação entre mim e Klaus — Lucien disse. — Não se preocupem.
A campainha tocou outra vez e a porta se abriu, soprando um vento frio e revelando James.
Meus olhos se arregalaram em surpresa e corri abraçá-lo. Fazia tanto tempo, sentir seu cheiro característico era aconchegante.
— Você está viva — ele disse incrédulo, me abraçando forte.
— E você também. — Abracei ele com força.
— Vocês têm muito o que conversar. — Aurora saiu, puxando os dois homens pela mão.
Sentei no sofá, ao lado de James e não consegui conter a emoção, derramando algumas lágrimas que estava segurando na frente dos outros.
— Como você está? — Perguntei. — Ainda é bruxo?
— Sim, sou.
Ele sorriu com felicidade, então fez uma mágica estalando os dedos e fazendo as velhas janelas abrir com um rangido.
— Eu sinto tanta saudade da magia. — Suspirei com tristeza.
— Ela ainda está em você, eu posso sentir, só está bloqueada. — Segurou minha mão, percebendo a minha tristeza. — Sobre essa Aurora, eu não confio nela. As bruxas e os ancestrais falam sobre uma profecia que deverá se cumprir e modo como ela vai acabar não me agrada. Você sabe que isso é errado.
— Eu também não confio nela, mas ela me ajudou. Então acho que lhe devo o beneficio da dúvida. — Mordi o lábio inferior, pensando com raiva em tudo o que eu passei. — E no final disso tudo aquele maldito bastardo vai implorar para ficar vivo.
— Mary... — James segurou meu braço, me tirando dos pensamentos. — Sua boca...
Passei o dedo em meu lábio e ele sangrava com pressão que fiz com os dentes, mas logo sarou, deixando só o gosto metálico do sangue. O lado do bom do vampirismo era a cura acelerada.
— A conta vai chegar algum dia — falou calmo, tentando me convencer. — Talvez devêssemos perdoar ele, deixar nossa vingança para Deus.
— Nunca! — Fechei os punhos. — Eu não esqueço e não perdoo! Deus não fez nada esses últimos mil anos e ele ainda continua causando mortes e destruição. Deus não existe, mas o meu ódio e o desejo de vingança sim.
— Você está cega de ódio e raiva.
— É porque não foi você quem sentiu seu coração sendo arrancado pela pessoa que mais amava.
— Mary, eu acho...
— Não, James! A minha decisão está tomada. — Respirei fundo. — Eu vou ter o que eu quero e se alguém quiser me parar terá que me m***r!
Vi olhar decepcionado de James. Eu não sou mais aquela que ele conheceu, eu nunca mais vou ser ela e sinto muito por isso. Aquela Mary era tão boa e ingênua.
— Vamos mudar de assunto. — Segurou minhas mãos. — Enquanto estava morta, o que você viu? Para mim parecia o paraíso, era um campo, como o da aldeia, porém as pessoas eram tão amigáveis e gentis. É muito clichê isso, talvez fosse um "sonho", mas foi tão real para mim. Só faltou você lá.
Desviei o olhar e lembrei sem querer do que parecia um pesadelo sem fim.
Meu corpo estava todo coberto por sangue pegajoso e grosso. Eu estava no escuro e havia uma enorme escada, na qual eu desci e cai na escuridão. A queda nunca tinha fim e era tão amedrontador. Minha mente estava pesada, eu não conseguia gritar ou respirar e a falta de ar foi a pior coisa, meus pulmões queriam explodir. Parecia que mesmo com todos os esforços para chegar a algum lugar, aquilo só piorava e ficava mais escuro, até no final eu era engolida totalmente pela escuridão. E esse ciclo se repetia, um após o outro, sem fim e cada vez pior.
— Não lembro. — Menti, olhando para as minhas mãos. — Acho que foi parecido com o seu.
James percebeu a mentira, mas não tocou mais no assunto, respeitando o meu silêncio e minha dor.
Agora eu só conseguia pensar em como estava vazio e escuro, sem ter ninguém para me ajudar.