Por ironia do destino acabei chegando atrasada no ponto de ônibus, perdi o ônibus e em consequência, cheguei atrasada no meu trabalho de meio período na cafeteria.
Estava ofegante quando entrei na loja, quase desmaiando com a blusa de frio que ainda usada e sentindo uma dor tão grande entre minhas pernas que era quase insuportável.
Passei apressada pelo o balcão recebendo um olhar do atendente que estava, não consegui identificar, porém sabia e sentia que algo de r**m ia acontecer graças ao meu atraso. Meu julgamento se mostrou certo quando abri a porta da sala dos funcionários e encontrei a minha gerente mexendo no celular em uma postura elegante juntamente com o vestido justo na cor azul marinho.
— M-Me desculpe... — Comecei a falar acelerando meus passos até o meu armário.
— Está demitida! — Ela disse com uma tranquilidade que me deixou desnorteada por alguns segundos.
— Eu p-perdi o ônibus, sinto muito pela a minha demora! — Exclamei contendo as lágrimas que queria brotar em meus lábios. Aquele dia estava sendo carregado de acontecimentos ruins um atrás do outro.
— Por isso que sempre te disse pra comprar um carro ou uma moto. — A mesma tranquilidade continuou firme em sua voz. — E não me venha com a desculpa de que não tem carteira de motorista, todos na sua idade tem!
— Todos que tem uma família e não precisam trabalhar tanto pra ter algo em suas vidas... — A resposta saiu antes que eu pudesse controlar a minha boca, e quando ela ergueu a cabeça, me arrependi profundamente de ter dito aquilo.
Não esperei que ela dissesse mais nada, pois sai da sala no exato momento em seus lábios se abriram.
Do lado de fora da loja comecei a me desesperar e pensar no que tinha que fazer, se eu deveria voltar, me humilhar e pedir desculpas ou se deveria começar a procurar por um emprego imediatamente.
Eu precisava muito daquele emprego pra poder me sustentar e ter uma vida mais ou menos agradável e aconchegante, a boate pagava bem, mas ainda assim era pouco pra viver uma vida boa.
Coloquei minha mente pra funcionar, mas o calor misturado com a blusa, a dor entre minhas pernas e o choque de ter sido demitida por ter chegado trinta minutos atrasados, era praticamente impossível e o único local que eu podia ser eu mesmo era o meu quarto no dormitório.
Caminhei de volta para o ponto de ônibus aguardando por longos minutos até que o meu passou e eu adentrei. Pessoas murmuraram coisas a respeito de mim estar com aquela roupa naquele tempo enquanto eu estava quase morrer por estar usando aquela blusa.
Não demorou muito para o ônibus parar no ponto em frente a faculdade e eu descer. Os alunos do período da tarde estavam em cada canto do campus o que deixou com que a minha caminhada ao meu dormitório fosse mais lenta e cheia de obstáculos carregados de olhares de nojo ou surpresa, comentários de pena, dó ou até mesmo nojo. Tantos anos que convivo com isso que parou de me afetar depois de acabar com toda a estima, confiança e orgulho que eu tinha de mim mesmo.
Destranquei a porta do meu quarto e m*l fechei a porta quando retirei a blusa de frio. Um gemido de alivio soou dos meus lábios, sendo seguida por um de dor quando comecei os tênis e a calça que usava.
Deitei no chão no meio do quarto e meus olhos encararam o teto ao mesmo tempo que colocava a minha mente para trabalhar. Meu celular começou a tocar e eu virei minha cabeça na direção dele, dentro da mochila, se eu esticasse minhas mãos poderia pegar ele, mas naquele momento em específico, eu só queria ficar sozinha e pensar antes do meu trabalho na boate.
— Cortar os gastos com comidas fora da faculdade... — Exclamei erguendo minhas mãos na frente do meu rosto. Abaixei um dedo. — Remédios também, dependendo pra que serve e o preço... — Abaixei outro e desistir de pensar e cortar meus gatos.
Novamente meu celular começou a tocar e dessa vez, eu estiquei minhas mãos e puxei a mochila em minha direção. De dentro dela peguei-o a tempo de ver um número desconhecido, ou seja, era ninguém menos que o novato.
— Trocar a tranca da porta também é uma boa antes de meus recursos ficarem mais fracos... — Murmurei abrindo uma das mensagens que ele tinha enviado pra mim.
Meus dedos pararam na tela enquanto pensava se era uma boa ideia salvar o número dele, e não era nenhuma ideia agradável, por isso nem fiz questão e salvar, mas sim decorar alguns números para não confundir.
Não esquece de salvar meu número não viu?
Meu nome é Kalel Toyosaki, caso tenha esquecido!
Apenas visualizei e como se ele estivesse observando se eu iria visualizar as mensagens, abaixo do número apareceu que ele estava online, e do online passou pra digitando.
— Não quer me matar... — Exclamei bastante surpresa com a insistência dele. — Sei!
Quando vamos nos encontrar pra começar o trabalho?
Estralei minha língua olhando pra tela do celular pensando no que poderia responder ao mesmo tempo que questionava como ele conseguiu entrar no último ano da faculdade de arquitetura.
Eu estou na frente do dormitório feminino, será que pode me falar o número do seu quarto, por favor? Tem muitas meninas aqui comigo, perguntando várias coisas sem lógica!
Levantei-me rapidamente do chão sibilando de dor quando me aproximei da janela do quarto de maneira discreta. Meus olhos se arregalaram quando eu o encontrei realmente na frente do dormitório com um largo sorriso para as meninas enquanto olhava para o celular várias e várias vezes.
Onde já se viu perguntar o tamanho do p4u da pessoa? Ele e seus centímetros é só pra conhecidas!
Soltei o ar pelo o nariz como se fosse uma espécie de risada que queria soar dos meus lábios, mas logo minha atenção voltou para a situação complicada em que eu estava e que tinha que me livrar o mais rápido possível.
Só vai embora, por favor!
Enviei observando-o olhar pra tela do celular e em seguida encarar as janelas, fazendo-me esconder no mesmo instante.
Vai arrumar mais problema pra mim e eu já vou ter consequências de fazer grupo com você...
Com cuidado olhei pra janela ao tempo de ver a expressão dele se fechar e ele falar algo para as meninas fazendo com que elas fossem embora.
— Droga, dois abusivos em minha vida não... — Exclamei pra mim mesmo enquanto observava ele ir embora sem nem responder ou olhar para as janelas, mas o celular estava ao ouvido.
As horas se passaram tão rápido e quando me dei conta estava atrás do balcão da boate, trocando de lugar com o outro funcionário, já que aquela boate em específica funcionava vinte e quatro horas por dia.
A funcionária que trabalharia comigo naquela noite já estava preparada atrás do balcão. O local em si estava bastante movimentado pelo o fato de ser uma sexta-feira anoite, sendo a maioria dos clientes universitários das faculdades próximas.
A música soava alta deixando-me inquieta mesmo não sendo o meu primeiro dia de trabalho ali. A roupa social que usava me incomodava da mesma maneira que a blusa de frio que usei mais cedo.
As portas se abriram e meu olhar pairou sobre ela encontrando Carter acompanhado de outra menina na maior i********e. Não sentir ciúmes e nem fiquei incomodada, na realidade nunca me senti de tal maneira quando se tratava dele, porém acha injusto ele se relacionar com outras pessoas e eu, só de mencionar, apanho.
Minha atenção desviou para outro casal, ouvindo os pedidos, fazendo-os e entregando para eles.
— HEY! — Um grito soou fazendo meus pelos se arrepiarem, mesmo com toda aquela música, pude reconhecer a quem ela pertencia. Suspirei baixo e me virei encarando Carter sorrindo vitorioso enquanto a menina gargalhava.
— O que vão pedir hoje? — Indaguei vendo o sorriso aumentar. Ele pediu as duas bebidas mais caras que fazíamos, e eu as entreguei torcendo que ambos fossem para longe, porém eles continuaram sentados na bancada.
Fora preciso muito esforço da minha parte não vomitar quando eles começaram a trocar carícias em meio as conversas.
“Qual a necessidade disso tudo?”, pensei comigo mesmo realizando uma breve expressão de nojo.
Gritos de comemoração soaram em cada canto da boate ao mesmo tempo que a funcionária que trabalhava comigo se aproximou de mim.
— Hoje é uma festa de boas-vindas, viu? — Indagou e eu concordei sem nem fazer questão de perguntar quem era, pois suspeitava que era dedicada a Kalel Toyosaki, que chegou com tudo em seu primeiro dia na faculdade.
As vibrações aumentaram quando as portas da boate se abriram revelando o novato. Observei seus olhos se arregalarem, porém logo um sorriso surgiu em seus lábios e ele começou a comemorar com os demais enquanto a música aumentava e a multidão se aproximavam dele, arrastando-o em direção a pista de dança.
O dia seria longo e bastante cansativo, e com a sensação de que iria durar até as cinco da manhã, o que significava que não importasse se eu estivesse cansada, teria que continuar trabalhando até o momento que eles fossem embora.
Todo o tipo de bebida era feito pela as mais diferentes pessoas, algumas com pouco álcool, outras com muito álcool e em alguns momentos, sem álcool, e enquanto isso, Carter e a menina continuavam firmes e fortes na minha presença, e eu trabalhando no automático.
Olhei em volta quando a movimentação deu uma reduzida contemplando o novato caminhando em direção ao bar com o rosto vermelho, blusa que antes estava abotoada aberta até a metade do seu abdômen definido e também tatuado, cabelos completamente bagunçados e em seu pescoço, estampava um chupão.
Ele se sentou em uma das cadeiras e seus olhos se arregalaram quando seu olhar se fixou nos meus. Fora peculiar ver ele tentar arrumar seus cabelos bagunçados enquanto fechava os botões da camisa.
Meus lábios se abriram pra realizar a pergunta habitual de sempre, mas a funcionária que estava comigo agiu primeiro e tomou frente de atender ele. Rapidamente arqueei minhas sobrancelhas e me virei para ouvir o pedido de uma pessoa que me chamou, porém em todo momento sentia um olhar sobre mim, mas não sabia dizer se era o Carter ou o Kalel.
— Como você está aguentando usar essa roupa fechada até em cima? — A voz de Kalel se sobressaiu a música, chamando a minha atenção para ele ao mesmo tempo que Carter franzia o cenho. — A pergunta é pra você mesmo! — Apontou pra mim quando eu olhei para a minha companheira.
— Costume... — Exclamei e com a fala dei de ombros.
— Os seus machucados estão bem? — Ele indagou e eu no mesmo instante engoli o seco quando Carter me olhou surpreso. Não sabia dizer se Kalel não tinha visto Carter, ou se viu preferiu agir como se não tivesse visto.
— Cuidado pra não pegar alguma doença! — Carter disse olhando pra Kalel, e eu por alguns segundos vi a surpresa nos olhos dele mostrando que não sabia que meu namorado abusivo estava presente. — Não dela... — Encarou-me brevemente. — Mas sim das outras meninas!
Kalel me encarou e seu rosto se contorceu em uma expressão que eu sempre via em todos os rostos que me encarava, um pedido de desculpas silencioso, porém o dele aparentava ser verdadeiro.
Dei de ombros mostrando que não seria novidade o que poderia acontecer depois quando saísse do meu trabalho e voltasse para o dormitório.
— Kalel Toyosaki! — Ele disse estendendo a mão para Carter que retribuiu no mesmo instante.
— Carter McConnor! — Exclamou sorrindo largamente antes de soltar a mão dele. — Conhece ela?
— A professora me colocou pra fazer trabalho com ela. — Mentiu e eu duvidava muito que Carter fosse acreditar.
— Sério? — Ele acreditou! — Pensei que todos os professores tivessem desistido dela, isso é uma boa surpresa tanto pra mim quanto pra você. — Encarou-me com um sorriso enquanto Kalel olhava para ele friamente e de maneira intensa, porém quando Carter olhou para ele novamente, a expressão assustadora que vi antes sumiu no mesmo instante.
Minha atenção fora para outro casal que queria pedir bebidas, e eu por mais que quisesse ouvir o que eles iriam falar em seguida, tive que os atender e usar toda a minha capacidade pra ouvir o que eles falavam por cima da música ao mesmo tempo ouvir os pedidos e os fazer.
Eu só podia esperar e orar para que Kalel não mencionasse que me viu nua da parte de superior, que não foi ao dormitório feminino horas antes e que forçou a ideia de fazer trabalho em grupo ao ponto de mim sucumbir. Tudo isso em um dia só, tudo isso em seu primeiro dia de aula na faculdade.
“Ele pode matar o Carter pra nós!”, uma voz soou no fundo de minha cabeça fazendo-me fechar os olhos com força espantando aquela ideia.
— Você é namorado dela mesmo? — Captei Kalel perguntando a ele diretamente.
— Sim, mas antes que você acredite em todos os comentários que rolam de mim a solto na faculdade, ela que pede... — Meu estomago se revirou ao ouvir a resposta dele, em como soou parecendo que eu sou uma put4. — Ela é uma v***a na cama! — Uma risada fria soou dos lábios de Kalel.
— Eu não gosto de ouvir esses tipos de coisas, entende? Expor sua vida s****l da sua e de sua parceira é muito errado, ainda mais usar esse tipo de linguajar quando falar dela com outra pessoa... — O ar começou a fazer falta em meus pulmões, forçando-me a aproximar da menina que trabalhava comigo avisando que iria ao banheiro.
Caminhei em passos rápidos ao banheiro dos funcionários que ficavam no segundo piso. Tranquei a porta logo atrás de mim ficando automaticamente aliviada quando o barulho da música diminuiu e o ar se tornou mais limpo, sem o cheiro de bebidas e em alguns momentos, cheiro de vômitos.
Fiquei lá por alguns segundos antes de inspirar e sair. Meus olhos se estreitaram quando contemplei somente Kalel sentado em uma das bancadas, e onde Carter deveria estar, se encontrava vazio. A menina se aproximou de mim e como eu antes, avisou que iria ao banheiro.
— Me desculpe ter dito aquilo sem olhar em volta direito... — Ele disse enquanto eu a observava ir em direção a pista de dança e não ao banheiro como tinha dito.
Incrivelmente, pela a primeira vez desde que comecei a trabalhar na boate, o bar estava completamente vazio e todos estavam na pista de dança onde a música soava.
— Nos conhecemos em menos de um dia, não precisa de toda essa preocupação e culpa... — Exclamei apoiando na bancada tentando entender o motivo de estar tão vazio assim a parte do bar. — E como você iria saber também?
— Ele vai tentar alguma coisa com você? — Indagou fazendo meus olhos e minha atenção se virar em sua direção.
— Esperamos que não! — Dei de ombros saindo de trás da bancada e me sentando em uma das cadeiras.
Minha atenção se voltou à pista de dança ao mesmo tempo que me perguntava internamente como seria, como era a sensação de dançar com outras pessoas e sem medo de ser julgada.
— Quer ir dançar? — Encarei-o com uma sobrancelha arqueada arrancando uma risada baixa dele. — Carter! — Concordei.
— Porque não está aproveitando a sua festa de boas-vindas? — Indaguei desviando a atenção da pista, mandando para longe a inveja que sentia de cada uma das pessoas que dançavam nela.
— Eu aproveitei! — A sua resposta fez com que meu olhar pairasse no chupão em seu pescoço, ao mesmo tempo que as mãos dele foram para o local, tampando.
— Claro que aproveitou! — Uma gargalhada sem graça soou dos seus lábios.
— Você não quer passar anoite no meu apartamento não? — Automaticamente minha sobrancelha se arqueou com aquele convite. — Pra evitar o seu namorado essa noite! — Justificou diante da minha expressão enquanto o rosto se tornava mais avermelhado.
— Porque? — Indaguei e ele piscou algumas vezes confusos. — Sua vontade de me ajudar tanto!
— Por que somos amigos! — Pensei em negar, mas aquilo com certeza iria estragar o dia dele, além de o deixar sem graça. — E também porque eu conheci alguém que passou por isso... — Realizou uma breve careta.
— Obrigada pelo o convite, mas eu recuso! — Tentei sorrir em agradecimento, mas não consegui e o meu gesto não passou despercebido por Kalel. — Não vai adiantar nada eu fugir dele essa noite e no dia seguinte ter que encarar ele.
— Você... — Começou a falar, mas nada saiu. Seu cenho se franziu ao mesmo tempo que seus lábios se comprimiram. — Nada não! — Sorriu brevemente. — Absolutamente nada! — Encarei-o atentamente desde as suas tatuagens até o seu rosto e suas expressões, com a breve sensação de que o conhecia de algum lugar.
— A pessoa que você conheceu, ela morreu? — A pergunta saiu mais rápido do que a minha capacidade de pensar.
— De certa maneira sim, a sua versão antiga morreu e uma nova versão apareceu. Uma digna de respeito e de admiração! — Um sorriso bobo surgiu em seus lábios, e aquilo me deixou bastante intrigada.
— Ela foi salva por um príncipe encantado ou ela mesmo se salvou? Se for a segunda opção preciso de umas dicas! — Exclamei deixando com que ele analisasse cada parte do meu rosto com tanta atenção que me deixou bastante constrangida.
— Bem... — Pigarreou arrumando a sua postura no banco. — Foi um trabalho em equipe, ela e o príncipe encantado, mas se quiser umas dicas eu posso te dar!
— O que isso significa? Quer ser o meu príncipe encantado e me salvar o meu namorado abusivo! — Retruquei e ele maneou a cabeça de um lado para o outro com um sorriso de lado em seus lábios.
— Se permitir... — Deu de ombros deixando-me bastante surpresa, mas não o suficiente, pois homens como ele, como Kalel, são acostumados a retribuir os retruques como flertes. — Poderei ser o seu Lee Shang!
— Sério? O namorado da Mulan? — Indaguei e ele começou a rir concordando. Peguei-me admirando o riso rouco e grave que soou dos seus lábios.
— Ele tem olhos puxados e eu também, é uma boa comparação, não é? — Neguei com o cenho franzido fazendo com que o seu riso aumentasse. — Ah, pensa melhor, uma comparação como essa não existe!
— Realmente não existe, pois é muito, muito r**m! — Murmurei vendo-o se inclinar na bancada rindo horrores.
“O riso verdadeiro de alguém é gostoso e calmo de ser ouvir pessoalmente!”, pensei observando-o atentamente.