Capítulo 15 – O peso do silêncio

955 Words
Capítulo 15 – O peso do silêncio "Há verdades que libertam. Outras chegam tarde demais para apagar a dor, mas ainda a tempo de impedir que ela continue a crescer." A viagem de regresso foi feita em silêncio. As cartas permaneciam sobre o banco de trás, cuidadosamente guardadas dentro do envelope de Amélia. Nenhum dos dois voltou a lê-las. Não era preciso. Bastava saber que tinham existido. Que tinham sido escritas. Que nunca tinham chegado ao destino. Tomás conduzia com as mãos firmes no volante, mas a cabeça estava longe da estrada. A chamada da irmã repetia-se-lhe na memória. "O pai quer falar convosco. Aos dois." Nunca o pai pedira para falar com Margarida. Nunca. Quando chegaram à pequena casa junto ao porto, o coração de Tomás acelerou. Era ali que crescera. Ali aprendera a fazer nós, a remendar redes e a distinguir o mar calmo do mar traiçoeiro. Na varanda estava a irmã, Leonor. Assim que os viu, desceu os dois degraus apressadamente. Abraçou Tomás primeiro. Depois sorriu, com alguma timidez, para Margarida. — Obrigada por teres vindo. — Não precisava de agradecer. Leonor abriu a porta. — Ele está lá dentro. Mas avisou-me que queria falar sozinho convosco. Entraram. O cheiro a café acabado de fazer misturava-se com o da madeira antiga e do sal que parecia viver para sempre dentro daquela casa. O pai de Tomás estava sentado à mesa da cozinha. Parecia mais velho do que apenas dois dias antes. Os olhos estavam fundos. As mãos tremiam ligeiramente enquanto segurava uma chávena. Quando Margarida entrou, levantou-se imediatamente. — Obrigado por teres vindo. Ela respondeu apenas com um pequeno aceno. Ainda não sabia o que sentir. Tomás puxou uma cadeira. — Pai... O homem respirou fundo. — Antes de dizer seja o que for... preciso de vos pedir desculpa. O silêncio caiu sobre a cozinha. — Durante anos convenci-me de que fiz a coisa certa. Repeti isso tantas vezes... que acabei por acreditar. Mas nunca foi verdade. Baixou os olhos. — O medo faz-nos cometer as maiores cobardias. Tomás permaneceu imóvel. — Medo de quê? O pai demorou alguns segundos a responder. — De vos perder. Margarida franziu a testa. Ele continuou. — Quando vocês começaram a namorar, vi em vocês a mesma intensidade que tinha visto noutras pessoas... pessoas que acabaram destruídas por escolhas precipitadas. Passou a mão pelo rosto. — Achei que vos estava a proteger. Tomás apertou os punhos. — Proteger? — Sim. — Separando-nos? O homem fechou os olhos. — Sim. A palavra saiu quase num sussurro. — Fui eu quem disse ao Tomás que tinhas ido embora porque já não querias saber dele. Margarida sentiu um nó na garganta. O pai continuou. — E o teu pai... disse-te que o Tomás tinha desistido de ti. Ela ficou imóvel. — O meu pai sabia? O homem assentiu lentamente. — Falámos muito naquela altura. Achávamos que era o melhor. Pensávamos que vocês ainda eram demasiado novos. Que um dia nos agradeceriam. A voz falhou-lhe. — Nunca imaginei que deixassem de se falar durante tantos anos. Tomás levantou-se. Começou a andar pela cozinha. Precisava de respirar. Precisava de perceber. — E as cartas? O pai olhou para ele. Sabia que aquele momento chegaria. — Foram parar às minhas mãos. Ninguém respondeu. Ele continuou. — Li as duas. Depois escondi-as. Achei que, se nunca as lessem... acabariam por seguir em frente. O silêncio tornou-se quase insuportável. Margarida olhou para Tomás. Nunca o tinha visto tão magoado. Nem sequer zangado. Apenas profundamente desiludido. O pai passou lentamente a mão pelos olhos. — Quando a Amélia descobriu, obrigou-me a mostrar-lhe tudo. Discutimos como nunca. Ela queria entregar-vos as cartas. Eu pedi-lhe que não o fizesse. Disse-lhe que só vos voltaria a abrir aquela ferida. Baixou novamente a cabeça. — Ela nunca concordou comigo. Tomás voltou a sentar-se. A raiva continuava lá. Mas agora misturava-se com outra coisa. Tristeza. — Foi por isso que desapareceste ontem? O pai demorou a responder. — Passei pela casa da Amélia. Vi os trabalhadores. Percebi que as paredes estavam abertas. Soube imediatamente que iam descobrir tudo. Sorriu, sem alegria. — Tive medo de olhar para o meu filho depois de tantos anos a esconder a verdade. Margarida compreendeu finalmente. Não fugira por maldade. Fugira porque a culpa, ao fim de tantos anos, se tornara demasiado pesada. Tomás levantou-se. Aproximou-se do pai. Durante alguns segundos nenhum dos dois falou. Depois perguntou, com a voz embargada: — Se pudesses voltar atrás... O homem nem sequer hesitou. — Entregava as cartas nesse mesmo dia. Tomás fechou os olhos. Respirou fundo. Quando voltou a abri-los, abraçou o pai. Não era um abraço de perdão. Ainda não. Era apenas o abraço de um filho que compreendia que o homem à sua frente já estava a cumprir a pior das penas. Viver todos os dias com aquilo que tinha feito. Margarida desviou discretamente o olhar. Sentia que aquele momento não lhe pertencia. Pouco depois, despediram-se. Já no exterior, caminharam lentamente até ao carro. Nenhum dos dois falava. Foi Margarida quem quebrou o silêncio. — Sabes uma coisa? Tomás olhou para ela. — Passei anos a imaginar que um de nós tinha deixado de amar o outro. Ela sorriu, com os olhos ainda húmidos. — Afinal... nenhum deixou. Tomás aproximou-se. Pegou-lhe na mão. Desta vez não houve hesitação. Os dedos entrelaçaram-se naturalmente. Como se conhecessem aquele caminho desde sempre. — Perdemos muitos anos. — Perdemos. Ele sorriu. — Então temos muito tempo para recuperar. Margarida apertou-lhe a mão. Pela primeira vez desde que regressara ao Algarve, percebeu que o futuro deixara de ser uma incógnita. Não porque todas as respostas tivessem sido encontradas. Mas porque, dali em diante, já não precisavam de as procurar sozinhos.
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