"Oi, nós precisamos conversar pessoalmente. Tá em casa?"
Era uma mensagem de Theo. Ao encarar aquelas palavras, ela ainda sentiu um leve arrepio — não de medo como antes, mas de um desconforto que ainda insistia em permanecer. Doía, mas agora era diferente. Pela primeira vez, ela estava fazendo algo por si mesma. Respirou fundo e desligou o celular.
Pegou sua mochila, colocou nas costas e saiu do apartamento. O sol já estava forte, mas havia uma brisa no ar. A academia do seu irmão não era muito longe. A cada passo que dava, sentia-se mais livre daquilo que a machucava emocionalmente.
Quando chegou, ficou parada por alguns segundos, observando a porta fechada. O som das pancadas no tatame ecoava lá de dentro — uma mistura de gritos de incentivo e disciplina.
Ela empurrou a porta devagar.
O recepcionista a reconheceu de imediato e sorriu.
— Mary? Nossa, quanto tempo! Achei que tinha desistido.
Mary sorriu timidamente de volta.
— Oi, Elias. Como vai? Sim, já faz um tempinho que não venho aqui… Não mudou nada. Eu já vou indo, vim conversar com meu irmão, porque quero me inscrever de novo nas aulas de jiu-jitsu.
Seu Elias ajeitou os óculos no rosto e sorriu com calma, confiante, como se dissesse: "Eu acredito em você."
— Que notícia maravilhosa, menina. Fico feliz em ver você de volta ao tatame. Tenho certeza de que vai se sair bem, como sempre.
Mary sorriu sem graça, mas com o coração aquecido.
— Eu tô precisando me reencontrar de novo.
— Eu sei bem como é. Às vezes, a gente se perde da gente mesmo — disse ele, apoiando os braços na mesa. — Mas o bom é que sempre dá pra recomeçar. O importante é não parar. É continuar.
Mary assentiu, emocionada com as palavras de Elias.
— Muito obrigada, seu Elias. O senhor sempre sabe o que dizer.
Nesse momento, a porta da academia se abriu. Era seu irmão, que entrou sorrindo ao vê-la.
— Maninha! Que bom que você veio! — disse ele com a voz acolhedora.
Mary sorriu, um pouco tímida.
— Mas e aí, tá pronta pra voltar de onde parou? — ele continuou. — Mas me conta: por que resolveu voltar de repente? Você tinha dito que não queria mais lutar...
— Eu preciso me reencontrar. Me perdi de mim mesma faz tempo...
Ela desviou o olhar, sentindo um nó na garganta por esconder tudo o que estava passando. Mas não queria preocupar o irmão com seus problemas — eram dela, e ela precisava resolvê-los.
— Entendo, maninha. Então vamos começar do começo. Sem pressa. Um passo de cada vez, tá bom? — disse ele com a voz suave.
Mary assentiu, respirando fundo, com um leve sorriso. Ela precisava daquilo. Não só externamente, mas por dentro também.
Preparou-se como nos velhos tempos. O irmão a guiava com paciência, ajustando sua postura, relembrando os movimentos básicos. Mas quando o primeiro golpe foi dado, algo dentro dela se libertou.
Mary começou a treinar com intensidade. Cada golpe parecia carregar uma dor que ela tentava esconder há muito tempo — frustração, raiva, mágoa. Ela chutava, girava, caía e se levantava. Cada queda era uma lembrança r**m; cada subida, uma promessa de recomeço.
Suas mãos tremiam. Seu corpo suava. Mas ela não parava.
Era como se estivesse expulsando tudo que estava guardado dentro de si — as palavras não ditas, os gritos sufocados da alma, o medo que sentia cada vez que Theo levantava a mão. Agora, tudo isso estava no tatame.
Quando o treino acabou, ela caiu sentada, ofegante. O irmão a observava com orgulho, mas também com um brilho nos olhos — como se, finalmente, entendesse que algo estava acontecendo dentro dela.
— Você treinou como se tivesse colocado a alma aí dentro — disse ele, se aproximando e oferecendo a mão.
Mary riu, cansada e emocionada ao mesmo tempo.
— Eu estava mesmo.
Levantou-se devagar, pegou sua garrafinha de água e caminhou até o vestiário. Ao abrir a mochila para pegar o celular, notou duas mensagens não lidas de Aurora.
"Ei, vai fazer o que hoje à tarde? Bora na sorveteria com a gente. Precisamos te apresentar um amigo nosso."
Mary deu um sorriso leve.
"Oi! Tudo bem? Não vou fazer nada hoje à tarde, então tô dentro."
Depois de responder, trocou de roupa rapidamente e foi até o irmão.
— André, já vou. Muito obrigada por hoje… de verdade.
André apenas sorriu e a abraçou apertado.
— Sempre que você precisar, eu tô aqui, maninha. Sempre. Tchau.
Mary saiu da academia se sentindo mais leve, como se tivesse deixado todas as mágoas no tatame. Aquela sensação sufocante tinha desaparecido.
O sol ainda batia forte quando ela caminhou até o ponto de ônibus. Colocou os fones de ouvido e deixou a música preencher o silêncio entre ela e o mundo. Pela primeira vez em semanas, o barulho da cidade não parecia incômodo.
Ao chegar em casa, largou a mochila no sofá e foi até a cozinha preparar algo para comer. Abriu a geladeira, pegou um pouco de arroz da noite anterior, um pedaço de carne e um tomate.
Enquanto o arroz esquentava e a carne fritava, ela se apoiou na pia, olhando pela janela. O celular estava em silêncio sobre a mesa — e isso a deixava aliviada. Nenhuma mensagem de Theo.
Serviu-se e sentou sozinha à mesa, como sempre fazia. Mas, naquele dia, o silêncio não parecia solitário. Era um silêncio bom, que deixava espaço para ela ouvir a si mesma.
Após almoçar, lavou a louça, tomou um banho demorado e se jogou no sofá, enrolada na toalha. Ligou a TV e assistiu a dois episódios de uma série. Quando pegou o celular de novo, eram 14h30.
Ela pulou do sofá num susto.
— Ai, meu Deus! A sorveteria! — disse em voz alta, rindo de si mesma.
Correu para o quarto, escolheu um vestido leve e tropical, calçou uma papete prateada e deixou os cachos soltos, ainda um pouco úmidos. Pegou a bolsa, fechou o apartamento e saiu correndo.
Às 15h10, já estava a caminho da sorveteria.
Quando chegou, avistou Emma e Hana sentadas em uma mesinha do lado de fora, rindo de algo no celular. Aurora e seu amigo ainda não tinham chegado. Mary se aproximou com um sorriso tímido, mas feliz por estar ali.
— Olha quem apareceu! — brincou Emma. — Achei que não vinha mais!
— Eu meio que perdi a hora, desculpa — disse Mary, rindo. — Mas e aí, cadê a Aurora e o amigo misterioso?
— Ah, ela já tá vindo com ele. Mas senta aí, vamos esperar juntos.
Mary se sentou, sentindo que ali era um lugar seguro. Pela primeira vez em muito tempo, ela estava onde queria estar — com quem queria estar.
Alguns minutos depois, Aurora apareceu acompanhada de um rapaz. Ele era alto, de cabelos negros, pele clara e olhos escuros. Tinha um sorriso tranquilo, que transmitia segurança. Mary sentiu o coração acelerar levemente ao perceber que ele a observava com curiosidade e gentileza.
— Oi, Mary — disse Aurora, sorrindo. — Esse é o Arthur, meu amigo de infância.
Arthur acenou com a cabeça, mantendo o olhar em Mary, que desviou timidamente.
— Prazer, Mary — disse ele, com a voz calma e suave.
Sentaram-se à mesa e a conversa fluiu naturalmente. Gabriel parecia notar algo no olhar de Mary, como se um peso estivesse escondido por trás daquele sorriso discreto.
— A gente não chamou você só pra apresentar o Arthur — disse Emma de repente. — Queríamos também saber se você está bem... A Hana comentou que você tem passado por algumas coisas sozinha.
Mary engoliu seco...