Na manhã seguinte, Mary acordou com o celular vibrando. Assustada, hesitou antes de atender. Na tela brilhava o nome “Dona Neide” — a mãe de Theo, famosa por passar pano para o filho.
— Alô? — disse ela, com a voz rouca de sono.
— Sua cretina! O que você e sua amiguinha fizeram com meu filho? — gritou Neide do outro lado da linha. — Acha lindo fazer ele passar humilhação na rua?
— Ah, pelo amor de Deus, a senhora nem sabe o que aconteceu para vir me questionar! — retrucou Mary, quase gritando.
— Sei muito bem, sim! Ele chegou todo machucado dizendo que você e essa sua amiga o humilharam na frente de todo mundo. Disse que a culpa é sua, que colocou essa garota contra ele. Que tipo de namorada deixa o próprio namorado apanhar de uma menina?
Aquelas palavras atiçaram ainda mais a raiva de Mary. Ela já estava de pé às sete da manhã, cansada daquele ciclo sem fim.
— A senhora ainda vai defendê-lo depois de ele quase me agredir? Vocês dois se merecem! — gritou, tomada pela ira.
— Isso é culpa sua! Se tivesse obedecido a ele, feito tudo que mandava, nada disso teria acontecido!
Mary desligou antes de dizer algo de que pudesse se arrepender. Logo o celular vibrou outra vez: uma mensagem de Neide.
> “Você e essa amiguinha vão se arrepender de ter agredido meu filho.”
Ela atirou o aparelho sobre o colchão, as mãos trêmulas de raiva. Já sabia que Neide o defenderia — sempre fora assim.
Apesar disso, sentiu-se estranhamente aliviada: finalmente dera voz a sentimentos guardados havia muito tempo. O coração ainda acelerado não era pânico, mas libertação.
Suspirou, levantou-se e foi ao banheiro. Encarou o próprio reflexo: olhos inchados, expressão exausta. A água quente do chuveiro escorreu pelo corpo, levando um pouco do peso das palavras de Neide.
> Tenho de me valorizar de novo... Não há nada de errado comigo.
Repetiu a frase mentalmente até acreditar nela. Neide era conhecida no bairro pela língua venenosa e por tratar Theo como um anjo — mas Mary não aceitaria mais aquilo.
Saiu do banho, vestiu uma roupa confortável, pegou o celular na cama e sentou-se na beirada. Respirou fundo. Não viveria mais com medo.
Abriu o aplicativo de mensagens e escreveu ao irmão, que dava aulas de jiu-jitsu:
> “Oi, maninho! Ainda tem vaga para eu voltar ao jiu-jitsu? Faz tempo que parei, mas estou pronta para recomeçar.”
Ao enviar, o coração disparou — mas, pela primeira vez, ela tinha o controle.
Alguns minutos depois, chegou a resposta:
> “Claro que tenho, mana! Fico feliz por você querer voltar. Passa aqui hoje mesmo pra gente conversar.”
Mary sorriu, sentindo-se, enfim, em primeiro lugar. Aquela mensagem era um sopro divino, dando-lhe forças para enfrentar os medos.
Preparou um café simples, pensando em como seria pisar novamente no tatame: reencontrar rostos conhecidos, transformar medo em técnica. Terminou o café, procurou o antigo kimono dobrado na gaveta — junto vieram lembranças dela tentando derrubar o irmão.
Guardou tudo na bolsa. Iria à academia naquele mesmo dia. Inseguranças ainda existiam, mas, agora, importava apenas superar cada uma delas.
O celular vibrou de novo no bolso: duas novas mensagens de Theo.