Lorena narrando.
Senhor Joaquim chega ansioso, quase sem ar, saindo do elevador. Eu corro até ele, ajeitando seus cabelos rapidamente, borrifando perfume em seu pescoço e colocando uma pastilha de hálito em sua boca.
— Obrigada, Lorena. Não tive tempo de me arrumar no banheiro ou no caminho, eu só corri quando vi suas mensagens e ligações
perdidas. Eles já estão na sala de reuniões? — ele pergunta, ofegante.
— Não, senhor. Ele aguarda em sua sala, com dois seguranças. É sério... e irritado. — faço uma breve pausa e completo, sem
conseguir segurar o pensamento. — Tem olhos lindos e um corpo forte.
Joaquim me lança um olhar de canto, e eu apenas dou um leve sorriso, sem retirar o que disse.
— Apenas recapitulando as informações para o senhor — justifico, tentando manter o profissionalismo.
— Sei... obrigada, Lorena. Espere um pouco. Vamos ver se seguimos para a sala de reuniões ou se manteremos tudo aqui no
escritório mesmo. Caso ocorra a mudança, quero que vá na frente e deixe a porta aberta.
— Certo, boa sorte, senhor. Arrasa. — digo, animando-o como sempre.
Ele apenas confirma com a cabeça, bate duas vezes na própria porta e entra.
Passam-se cinco minutos e nada muda. Nenhum som, nenhuma movimentação. O silêncio me deixa inquieta, e, sem perceber, já
estou mastigando a tampa da caneta. Para evitar estragar mais uma, troco pela minha salvação diária: meu potinho de uvas.
Bem nesse instante, a porta se abre — e é ele, o senhor Torres, na frente.
Congelo. Tento esconder as frutas, mas é tarde demais. Esse homem vai mesmo acreditar que sou movida a comida.
Vejo o olhar repreensivo do senhor Joaquim, aquele típico de “agora não, Lorena”, e fico ainda mais constrangida. Mas lembro do
que ele pediu — e obedeço. Vou na frente e abro a porta da sala de vidro.
Sirvo as garrafas de água lacradas, coloco os copos no lugar certo e entrego as garrafas aos seguranças. Faço tudo com gestos
rápidos, educados, tentando me esconder atrás da eficiência. Assim que termino, me retiro, voltando à minha mesa com o coração
apertado.
Sinto um peso enorme no peito. Fraquejei com o senhor Joaquim hoje. Ninguém poderia prever a chegada adiantada do senhor
Torres, mas, se for verdade esse incômodo dele com comida, eu rodei.
[...]
A reunião termina, e me levanto assim que os vejo saindo. O silêncio é quase absoluto. Joaquim me olha de cabeça baixa, e uma
pontada de dor me atravessa. Eu vou ser demitida, não vou?
Os dois homens importantes vêm até mim. Tento manter a calma, respirar fundo, e ouvir antes de me desesperar.
— Lorena — diz Joaquim, pausadamente —, o senhor Torres gostaria de conversar com você em particular. Pode acompanhá-lo até
minha sala?
— O senhor pode vir comigo? Digo... senhor. — me corrijo rápido, nervosa. Não queria enfrentar o CEO sozinha.
— Minha conversa é apenas com você. — o próprio Torres responde, a voz firme e grave.
Sinto o estômago revirar. Saio de trás da mesa, já imaginando a tragédia: a fatura do cartão vencendo, o aluguel, a busca por outro
emprego, o desespero de voltar a entregar currículos em balcões de loja.
— Estarei aqui fora — diz o senhor Joaquim, quando passo por ele. Seu toque firme no meu ombro me dá um mínimo de coragem. É
quase nada, mas naquele momento, é tudo.
Sigo o senhor Torres até a sala. Ele abre a porta para mim, um gesto cortês e imponente. Entro, e ele me indica a cadeira em frente à
sua. Assim que se senta, reclina-se um pouco e me encara por alguns segundos, com olhos verdes que parecem vasculhar meus
pensamentos.
— Você gosta de ser secretária, Lorena? — pergunta, sério.
— Sim, senhor Torres.
— Me chame de Eduardo. — confirma com um leve aceno. — Você parece considerar seu trabalho essencial, e realmente demonstra
isso. Mas me diga: qual é o verdadeiro benefício de se ter uma secretária?
Engulo seco, mas deixo as palavras fluírem naturalmente.
— Uma secretária transforma o caos em ordem, o improviso em planejamento e a rotina em estratégia. Eu aprendi a me comunicar
com clareza, antecipar necessidades e, mesmo quando as coisas fogem completamente do controle, tento reorganizar e fazer o
melhor. Eu sou a confiança que o senhor Joaquim precisa. Mesmo quando ele está sobrecarregado, eu cuido dos detalhes — peço o
almoço, resumo e-mails, organizo reuniões, alinho conversas. Eu sou a ponte, senhor Torres. A comunicação entre o caos e a calma.
Então sim, considero importante.
Quando percebo, já falei demais. Falei muito mesmo. Direta, empolgada, espontânea demais. Droga. Devia ter respondido só que
organizo agenda e rotina.
— O que mais? — ele continua, inclinado para frente. — Me comunicar e saber o que preciso é o básico. Todos já sabem o que precisam.
— Bem... — respiro fundo. — Eu também faço pesquisas de campo, descubro notícias, levanto informações sobre quem vai visitar o
escritório. A ficha pessoal ajuda o senhor Joaquim a lidar melhor com cada pessoa. Todos sabem o que querem, é verdade, mas nem
todos sabem como buscar. Pessoas importantes, como o senhor e o meu chefe, precisam usar o tempo de forma estratégica.
Organizar pequenos detalhes consome energia e horas preciosas. E tempo, para pessoas como o senhor, é um recurso caro.
Ele me observa em silêncio. Sinto o peso daquele olhar, como se me analisasse por dentro. Seus olhos — esmeraldas vivas — me encaram com atenção, como se revisassem cada palavra. Talvez eu devesse, de fato, aprender a ficar quieta.
— Vou testar — diz, por fim, levantando-se. — Amanhã, esteja no meu andar, Lorena. Será minha secretária por um dia.
— O quê? — arregalo os olhos. — Desculpe, senhor Torres, mas eu já tenho um emprego.
— Me chame de Eduardo — repete, com leve ênfase, afastando-se da mesa.
— Senhor Eduardo, eu já tenho um emprego. Não posso me ausentar, tenho obrigações a cumprir.
— Eu quero você amanhã no meu andar. Mostre sua “magia” de secretária e veremos. Até amanhã, Lorena.
— Senhor... — começo, mas ele já sai da sala, me deixando ali, confusa, tensa e sem ar. Tento processar o que acabou de acontecer,
mas nada faz sentido.
Algum tempo depois, o senhor Joaquim entra. Solto o ar num suspiro profundo enquanto ele fecha a porta e relaxa.
— O que ele disse a você, senhorita? A reunião correu bem, apesar do meu atraso. Fui escutado com atenção e sem julgamentos. Ele
não parecia irritado. Entendeu que o erro foi no aviso adiantado. Mas fiquei curioso quando ele perguntou se você era uma boa
secretária.
— Por onde começo a te contar, chefe? — pergunto, rindo nervosa.
Ele sorri cansado. Toda a correria o deixou exausto, e vejo que precisa de um café. Levanto-me para preparar um, junto com um
sanduíche natural — ele m*l almoçou, coitado.
— Comece pelo começo, Lorena. — diz calmo, se sentando sobre a própria mesa, afastando papéis e decorações.
— Ele chegou e eu... estava almoçando. Com a boca cheia de comida da minha marmitinha.
— p**a merda — xinga baixo, sem conseguir se conter.
— Pois é. E ficou bem claro que ele não gostou de não ser recebido com toda a fanfarra e o tapete vermelho.
— Lorena — me repreende, tentando não rir.
— Desculpa. É que eu estou nervosa. Eu tentei te ligar, te mandar mensagem, mas nada. Então fui lá tentar resolver, oferecer café,
dar um jeito... e aí, conversando, acabei comentando que a secretária dele não havia avisado sobre o adiantamento. Ele disse que não
tem secretária.
— Ele não tem? — Joaquim arqueia as sobrancelhas.
— Nenhuma. E aí... bem, o senhor chegou, a reunião aconteceu, e agora...
— O quê? Não vou deixar ele te demitir só porque te viu almoçando, Lorena.
— Ele... me chamou pra trabalhar com ele amanhã. Ser secretária dele por um dia.
— Ele quer te roubar de mim? — diz surpreso, e dou de ombros, desolada.
— Pelo que entendi, é só um teste. Ele quer ver se vale a pena ter uma secretária. Mas, chefe, não me deixa ir, por favor. Eu juro que
te trago três cafés por dia, não coloco mais florzinha nos slides, e atendo sua esposa sem chamá-la de linda. Eu me comporto!
— Lorena, não brinque. Talvez ele realmente queira te promover, é uma chance e tanto. — diz sério, e eu n**o com a cabeça.
— Mas ele é o CEO! O chefe dos chefes! Dono de tudo isso... e extremamente bravo, sério, poderoso. Eu não sobrevivo a um dia
inteiro ao lado dele.
— Bem, amanhã você vai descobrir como é passar um dia todo ao lado dele.
— Que Deus me ajude... e que eu não seja contratada.