Teste

1487 Words
Eduardo narrando. O que explicar? Como expressar tudo o que eu senti nessa tarde por essa... mulher? Que fala mais do que tudo, come muito — pelo que percebi —, pensa rápido demais, e também... também é linda. Educada com todos, falou olhando em meus olhos sem receio, debatendo e argumentando seu ponto de vista com firmeza e uma importância que eu não esperava ver em alguém daquele cargo. Lorena. Um nome forte, decidido, quase impetuoso. Um nome que parece carregar o som de quem não se dobra fácil. Um nome teimoso demais pra caber numa mulher só. E, mesmo assim, cabe nela — exatamente nela. De início, eu senti raiva pela sua presença, no instante em que a vi, na verdade. Raiva. Surpresa. Espanto. Rejeição. Quem come na mesa de trabalho? Quem coloca tanta comida na boca sem cerimônia? E quem come tanto? Em menos de uma hora, eu a vi comer, mascar chiclete, beliscar uvas... ela simplesmente não parava. E eu, que deveria estar concentrado, me vi observando cada movimento, cada gesto, cada careta nervosa enquanto mastigava. Parecia ansiosa com a minha presença. Era irritante. E, ao mesmo tempo, fascinante — de tão anormal. Mas tudo mudou quando ela entrou na sala de Joaquim. Quando aquele corpo perfeito cruzou a porta, vestido num tom de verde escuro que realçava cada curva, cada traço. O tecido marcava o quanto precisava, e o resto… o resto ficava por conta da imaginação. O vestido terminava nos joelhos, e dali pra baixo, as pernas torneadas se estendiam até o salto vermelho escuro que batia firme no chão — como se marcasse território. Os cabelos, soltos, caíam como uma cascata escura sobre as costas — um movimento leve, natural, quase hipnótico. As mãos, delicadas e polidas, exibiam unhas pintadas num tom quase idêntico ao dos sapatos, como se cada detalhe tivesse sido pensado pra provocar, sem precisar tentar. E então, o perfume. Doce, floral, envolvente. Não daqueles fortes e cansativos — era o tipo de aroma que se mistura ao ar, que se insinua e permanece mesmo depois que ela sai. Quando ela entrou, o ambiente pareceu respirar diferente. Ela conversava com naturalidade, olhava todos nos olhos, sorria nervosa, ouvia, respondia. E todos a ouviam. Ela me olhava a todo momento. Percebi que tentava ao máximo ser polida, agradar, evitar uma frustração que eu já sentia por ter que esperar. Eu não sou acostumado a isso. Nem lembro a última vez que esperei por uma reunião. Confesso: ao entrar na sala de Joaquim, eu já imaginava sua demissão. Que tipo de funcionário não estaria me esperando? Eu estava adiantado, sim, mas o meu tempo é precioso — e eu queria acabar logo com aquilo. Mas desde o instante em que ela adentrou o cômodo do chefe, eu parei. Nem pensei mais em demiti-lo. Eu... eu só conseguia vê-la. A cada palavra, a cada movimento de lábios, algo dentro de mim se remexia. Não era desejo simples — era algo mais bruto, mais profundo, como se eu precisasse dela ali, sempre à vista. Lorena me encantou. Com o jeito, com a voz, com a postura, com tudo o que eu jamais esperaria admirar em alguém. Tentei ignorar, tentei me distrair, mas a verdade é que, desde aquela tarde, não houve um só instante em que eu não tenha pensado nela. E talvez isso seja o começo de algo que eu não sei se quero sentir… Mas que, de algum modo, já é impossível conter. Durante a reunião, eu tentei focar. Mas oitenta por cento da minha atenção estava longe, em outro espaço daquele mesmo andar. Só conseguia pensar em maneiras de tê-la próxima de mim — do meu lado, minha, para ver e observar. E então eu decidi. Eu a quero. Quero que seja minha secretária. Quero que cuide de mim, das minhas ligações, dos meus dias, do meu tempo. Joaquim se atrasou, não tem compromisso. Não merece ela. E assim eu planejei. Avisei a ela, tentei ser o mais simples possível para evitar questionamentos. E como foi difícil... falar em sua frente que agora ela seria minha sem assustá-la, sem deixar que o medo a percorresse — e, em vez de uma secretária, eu ganhasse um processo. Mas está resolvido. E eu m*l posso conter a ansiedade esperando o dia seguinte. [...] Olho para o relógio — já fazem cinco minutos. São sete e cinco da manhã. Onde está Lorena? Será que ela entendeu que era para vir até meu andar? Encaro as portas do elevador com raiva e impaciência. O andar, praticamente vazio, observa a minha inquietação. Apenas meus dois seguranças particulares e o segurança da cobertura me acompanham. O grande andar conta com quatro escritórios espaçosos, uma copa e uma imensa sala de reuniões. O motivo de termos quatro salas é por conta de meu pai. Ele foi o segundo CEO da empresa de meu avô e queria que o cargo fosse dividido entre os quatro filhos. Era pra liderarmos juntos, mas... bem, os outros até mandam — sendo sincero, apenas dois realmente fazem algo. Eu sou o mais velho. Os do meio têm seu interesse, mas não aparecem todos os dias como deveriam. Acham que trabalham por metas e eventos importantes. Acreditam que trabalhar de casa é mais produtivo. Eu não concordo. Gosto de estar presente — de mostrar autoridade, vínculo, interesse. O caçula ainda mora com meus pais, e eu acho que nunca deixará de morar. Nunca trabalhou na empresa. Já está na segunda faculdade, apenas para adiar o inevitável. Mas não é meu papel forçá-lo a se unir a nós. A luz à minha frente acende levemente, e então eu foco minha mente em Lorena, que, atrasada oito minutos, finalmente chega. No instante em que as portas se abrem, vejo suas pernas vacilarem. Ela treme levemente e, forçando um sorriso simpático, sai das portas de ferro. Aproxima-se dizendo “bom dia” quatro vezes — cada uma direcionada a um de nós. — Está atrasada. Bem atrasada. — Desculpa, mas é o horário de chegada. Eu não imaginava que era tão difícil subir tudo isso de elevador, com tantas paradas. — Amanhã chegue mais cedo — digo, observando a expressão automática que ela faz. É curioso o que acontece com suas sobrancelhas quando se irrita: elas se apertam de um jeito cômico, a boca franze num pequeno “bico” e o rosto se inclina levemente para a esquerda. É tudo muito rápido... e fascinante aos meus olhos. — Amanhã? Não era uma experiência de um dia? — pergunta confusa. Não, querida... porque não fazem nem dois minutos que você está à minha frente, e eu já tento decorar cada traço do seu rosto. — No final do dia conversamos. Venha para minha sala, faça sua magia de secretária. — Eu não devo buscar um café antes? Preciso guardar minha comida também... posso ir conhecer a copa, senhor Torres? — Me chame de Eduardo — digo, caminhando em direção à copa. Ela me segue, olhando em volta, surpresa pelo silêncio, pelo espaço, pelo tamanho — e, talvez, pelo fato de estar tão vazia e clara. Eu gosto disso. Me transmite calma. Uma calmaria que vira guerra quando desço aos outros departamentos. — Isso é a copa — digo, abrindo a porta de vidro. A geladeira quase vazia, o micro-ondas nunca usado, a cafeteira francesa — minha fiel companheira — e uma mesa redonda de seis lugares, lustrada, intacta. Nunca usada, ao menos não para se alimentar. Já flagrei meu irmão e uma colega dele aqui... não foi um bom dia de trabalho. Observo Lorena guardar sua marmita, analisar o espaço, curiosa. Há um leve sorriso em seus lábios, e a vontade de saber o que ela pensa quase me mata. Ela aceitaria ser paga para dividir seus pensamentos? — Gostou? — pergunto. Ela concorda com a cabeça. — Nunca presenciei uma copa de empresa tão limpa, vazia e arrumada. Parece recém-entregue após uma reforma, talvez. Já foi usada alguma vez? — Parcialmente. Ninguém a estreou de verdade. Podemos ir para minha sala agora? — Sim. Por onde o senhor prefere que eu comece? Sua agenda, e-mails, reuniões, rotina, gostos... eu pensei em descobrir quais funções o senhor precisa, para facilitar sua busca por uma secretária qualificada. — Eu já achei minha secretária — digo, calmo, enquanto caminho para minha sala. Seus saltos — hoje pretos — batem no chão apressados, tentando me alcançar após um intervalo de cinco segundos em que ela processou o que eu havia dito. — Senhor, hoje não era um teste? — Sim. — Digo apenas isso, e sorrio internamente com sua expressão mais uma vez de confusão, uma leve preocupação e até raiva nos olhos que psicam para mim tão lindamente, ela é mais do que interessante apenas, é fascinante notá-la. Aparentemente, respostas curtas e vazias a deixam irritada. E o misto de expressões que ela produz é... lindo.
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