Conselho de sogro
Gregório Schindler
Com o celular na mão, eu me perguntava se devia ligar para confirmar o que Lívia havia me dito ou se simplesmente deixava a água correr por baixo da ponte. A questão era válida. A merda já estava feita, e Lívia não me falaria aquilo se não fosse verdade.
Ela podia ser muita coisa, menos mentirosa. Então, sim, ela realmente tinha mandado a coroa de flores para Cassandra, um claro aviso de guerra iminente. Tinha colocado as cobras no quarto dela de propósito. Lívia não queria matar; ela queria mandar um recado. Mas que recado?
Aquele de que eu era dela. De um jeito torto, eu pertencia a ela, e Lívia não estava disposta a abrir mão. O fato era que ela já tinha entendido tudo o que estava acontecendo e faria de qualquer jeito a vida de Cassandra um inferno.
Ela sabia que Cassandra era apaixonada por mim, mas eu sentia que havia mais. Lívia não iria tão longe somente por isso. Ela sabia que eu era louco por ela. Afinal, olha o que eu estava fazendo para que a teimosa se casasse comigo?
Guardo o celular no bolso da calça e conto até dez. Não adiantava ficar nervoso nem procurar respostas em meio ao meu próprio noivado. Entro no salão novamente, procurando minha noiva, que estava à vontade, conversando com outras mulheres da família.
A cada interação, eu descobri que Lívia não era a mulher que eu imaginava. Ela não era nem de longe a mesma menina que me apaixonei. Era forte, decidida e não temia nada. Eu não sabia se isso era bom ou r**m, mas Lívia sabia exatamente o que queria. E, no momento, o seu desejo era fazer de Cassandra seu aviso para todas as outras.
O salão estava mergulhado em conversas distantes. A maioria ali queria fechar negócios rentáveis. Noivados, casamentos, coroações e batizados eram usados, em sua maioria, para fazer negócios no submundo. Afinal, sempre havia muitos homens poderosos reunidos nessas datas.
Dispenso três ou quatro que queriam puxar meu saco. Nessas horas, sempre tem um esperto que acha que pode ganhar algo dizendo as palavras certas.
— Quer um conselho? — Me viro para olhar meu sogro, que observava tudo de longe.
Andreas Miller era uma caixa de surpresas para mim. Quando eu pensava que sabia exatamente o que ele estava pensando, eu me enganava redondamente.
— Acredito que saiba exatamente o que está acontecendo — digo, e ele revira os olhos. — Não precisa me tratar como um i****a, Andreas. Pode ser direto e claro uma vez na vida.Sei que não gosta de mim porque estou tirando a sua menininha de você, mas amo de verdade a sua filha. Não estou fazendo isso porque sou um mimado de merda. É porque eu morro se não tiver Lívia perto de mim. - Andreas me olha pela primeira vez com um vislumbre de respeito.
— Certo. Então, vamos tocar no ponto sensível entre toda essa narrativa, meu caro. - Ele se ajeita como se fosse fazer algo que nunca tinha feito. Ser gentil comigo.
- Conheço minha filha, e sei que ela está com raiva de você, Gregório. Não pelo motivo que pensa, mas pela sua falta de clareza e por não ver as coisas que aconteceram bem debaixo do seu nariz.
— O que eu não vejo? Ela está com raiva? Lívia está procurando confusão, Andreas — digo, imaginando o pior. — Se Luiz, pai de Cassandra, descobrir o que a minha futura esposa tem feito, as coisas podem sair do controle. Eles podem pensar que é uma guerra declarada.
— Está com medo dele? — Andreas ri. — Já te falei para ter medo da minha filha, Gregório. É de Lívia que você tem que ter medo, não de um bando de velhos que só sabem cobrar e acham que são donos de algo, sendo que não são.
— Ele faz parte do conselho, Andreas. Tem voz ativa. Todos o escutam e até o seguem fielmente.
— Não era para ser o contrário? — Não caio na pilha.
— Ele era o melhor amigo do meu pai... — Andreas me olha com aqueles olhos que já viram tanta coisa nessa vida.
Pelo pouco que eu havia investigado sobre meu futuro sogro, Andreas já tinha visto coisas que eu jamais veria em minha vida toda. E olha que eu sou o chefe de uma máfia com problemas e que está se reerguendo.
— Você já parou para pensar que a amizade deles poderia ser por sobrevivência, não por essa lealdade à qual você se agarrou? — Aquela pergunta me pegou de surpresa.
— Está falando de um homem que está no conselho da minha máfia desde que eu era criança, Andreas. — Ele me olha sem titubear.
— Exatamente isso, Gregório. Ele estava no tempo do meu avô, depois do seu pai, e agora, praticamente, colocou a filha dele para ser a sua melhor amiga. Consequentemente, ela é a sua conselheira, uma mulher que claramente está tentando se meter no seu casamento desde antes de você saber que Lívia era a pessoa certa para a sua vida. Me pergunto como ele sobreviveu a todas essas tomadas de poder sem sofrer qualquer tipo de consequência. Pelo contrário, Luiz é o único que não sofreu nada com a troca de comandos ou a descoberta dos traidores. E digo mais: o império de alimentos dele se mantém de pé até os dias atuais, sem qualquer recessão. Luiz não sofreu nada em nenhum dos momentos caóticos da máfia alemã. Como isso é possível?
— Essa acusação é séria, Andreas — digo, chegando mais perto.
— Por isso estou falando diretamente com você, Gregório. Não deixo pedra sobre pedra, nunca! Cassandra pode até ser apaixonada por você. Lívia demorou a sacar, mas agora já sabe do que aquela mulher é capaz. O que mais teremos que fazer para você ver que está sentado em um ninho de cobras? Você está, literalmente, cercado por cobras que querem te usar como uma marionete.
— Do que você está falando? — pergunto, atônito.
— Que você tem que parar de ter consideração pelas pessoas erradas, Gregório. Está na hora de começar a analisar friamente quem te jura lealdade e quem somente fala da boca para fora e planeja sua queda quando você vira as costas. — Olho para ele.
— Acha que eu ainda estou cercado de cobras?
— Não são as que a minha filha mandou para a sua conselheira. Aquelas, pelo menos, não tinham veneno. Mas acredito que as máscaras das pessoas à sua volta estão começando a cair. Se não, você já teria me dado um soco na cara.
Engulo em seco, porque ele tinha razão.
— Vou ouvir o seu conselho.
— Gregório, eu não gosto de você, nem um pouquinho. Por mim, você já estaria enterrado a sete palmos na terra. — Ele se aproxima. — O que me faz estar aqui, lhe falando tudo isso, é porque a minha filha te ama, mesmo que diga que não. E você sabe disso. — Concordo. — Senta com ela, faça-a falar porque fugiu de você. Quando Lívia finalmente for sincera, você vai entender porque estou dizendo tudo isso. Nesse momento, você vai compreender muita coisa. — Concordo.
— Vou falar com ela... — Ele me olha.
— Não. Você vai exigir. Porque, se não, Lívia vai fugir mais uma vez. Ela não quer explicação, ela quer sangue. Ela quer ver a sua conselheira se arrepender de todos os seus atos para separá-los. — Olho para aquele homem que sempre soube de tudo, mas nunca interferiu, para ver até onde iríamos.
— Vou seguir o seu conselho.
— Eu sei. Você não é burro... — Ele me deixa sozinho com meus arrependimentos e dúvidas.
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